A evolução traz mudanças extraordinárias, sempre foi assim. Pesquisas, descobertas, cura, saneamento, inteligência urbana, novos mundos, povoamento, indústrias e a forma de tratar o dinheiro. O pensamento se transforma, novas formas de viver acontecem, outros credos, enfim. Tendência é o que chamamos quando algo novo aparece, e sempre foi assim, em cada tempo. Muitos amam tudo isso, outros tantos odeiam, e assim a vida anda com todos esses impasses e polarizações, não importando qual seja a cultura.

A aceleração muito dinâmica do processo evolutivo, com grandes e milionárias pesquisas sobre inteligência, informação, dados e sobre o comportamento humano, modificou a vivência planetária. Tudo mudou! Vem mudando! E vai mudar!

Claro que no mundo do trabalho essa mudança seria sentida de forma arrebatadora, por um motivo ou por outro.

Sim, estamos em crise no mundo do trabalho como nunca se viu. Novos jeitos de trabalhar, novos formatos de emprego, remuneração, arquitetura organizacional. Profissões caíram no desuso, outras estão em alta, algumas ainda nem foram colocadas em prática. Também os recursos mudaram, sejam os tecnológicos, e ainda aqueles que dependem do tempo e do espaço.

A tecnologia avançou tanto que, há tempos, robôs fazem com maestria o serviço dos homens, e isso também já é sabido.

Por outro lado, com a urgência de se viver e de se encontrar o tesouro da excelência financeira e poder, outros tipos de trabalho prometem o nirvana e fazem uma competição desleal com o trabalho mais rotineiro e de hora marcada. Aquele trabalho que promete entregar uma vida plena e glamourosa, muito além do que se vive na realidade nua e crua. É esse trabalho a bola da vez.

Claro que bem poucos chegarão ao nirvana, se é que ele existe, mas muitos continuarão perseguindo essa crença prometida.

Todo esse embrólio afastou as pessoas de uma vida com planos e projetos mais concretos, com tempos menos urgentes e alcance de longo prazo. O que temos é a necessidade quase instantânea de se chegar a algum lugar sem sequer entender o processo. Um mundo do trabalho quase 100% virtual, da estética, da imagem humana, de objetos, paisagens e poder.

Juntando-se a isso, vivemos a precariedade de políticas concretas com incentivo ao estudo e mudança na educação dentro das famílias, que priorize o amadurecimento profissional com base na experiência. É rara a cultura onde esse conceito se faz presente.

Encaramos, por aqui, a falta de apoio ao ensino fundamental e a desvalorização de cursos que foram trocados por conhecimento imediato, raso e ao alcance de um clique.

Para além disso tudo, que já é muita coisa e poderia ser vastamente desdobrado, percebe-se um impasse nas relações humanas no mundo do trabalho. Assunto esse também vastamente conhecido e que sempre teve suas esquisitices; por isso, deveria ter tido um lugar à mesa das principais decisões e diretrizes organizacionais, como uma das agendas centrais.

As relações humanas no trabalho continuam acontecendo no mesmo molde e formalidade, para não dizer dureza dos tempos anteriores. O que muito desanima e suspende diálogos necessários com quem está iniciando sua trajetória profissional.

Parece bem mais sedutor e atual gerenciar o tempo nas redes sociais sendo um influenciador de qualquer coisa, mesmo que não se tenha vivido o mínimo para influenciar nada. Decerto, isso deve ser uma verdade e ter sentido para aqueles que foram ensinados e programados a viver com as redes, ou ainda para aqueles outros que, cansados, vão em busca do nirvana.

O equilíbrio entre aquilo que é prometido, o que é verdade e o necessário há muito deixou de ser uma realidade integradora. Vemos empresas com altos índices de desistência de funcionários, deixando as estatísticas dos quadros de rotatividade bem expressivas. Apontando para um problema gigante.

Se a inteligência artificial não é capaz de realizar todo e qualquer tipo de trabalho, e de fato isso é uma verdade, quem realizará? Como compor novos jogos no mundo do trabalho onde haja interesse, comprometimento, desejo, alegria, leveza e pertencimento?

Ainda assistimos com passividade e reclamação a esse desmanche. Cabe, até o momento, falar sobre o assunto como mero espectador, culpabilizar empresas ou profissionais. A ação é pouco efetiva e podemos ver o convite pobre e quase tímido das empresas aos potenciais profissionais preenchedores de vagas, repetindo padrões absolutamente antigos, desumanos, irreais, preconceituosos e, por vezes, em muitos casos, amparados em critérios que não agregarão em nada ao trabalho a ser desenvolvido. Uma conta que definitivamente não fecha.

Os novos humanos do trabalho estão em busca de alguma outra coisa, os velhos humanos profissionais repetem a cartilha. Quem está entre essas duas pontas busca se salvar, passando-se por invisível ou preferindo amaldiçoar toda e qualquer empresa por onde passa. E, para coroar tudo isso, ainda adoecem profundamente de doenças psicossomáticas, psicológicas e físicas.

Normalmente, ao se analisar um tipo de situação assim, ouvimos uma frase que diz que alguém está ganhando com a situação em curso, mas infelizmente lhes digo, caro leitor, que o desastre é imenso, com profundas perdas relevantes para ambos os lados. Por um lado, no que tange ao crescimento do adulto profissional trabalhador, que, longe dos holofotes das redes sociais, precisa amadurecer o seu pilar profissional, perde-se esse espaço de troca, de supervisão e de orientação direcionada ao desenvolvimento de carreira. Para as empresas, que são o outro lado da conversa, vem se perdendo sequência, continuidade, legado, histórias aprendidas e repassadas e, sobretudo, o DNA da empresa, que é feito por humanos. A constituição da empresa está na sua cultura, e, se ela não pode repassar esse bastão entre gerações, ela se desconstrói ao perder a sua essência.

Nos vemos já! Já!