A noção de progresso foi de extrema importância para o alvorecer da modernidade. Acreditar que o mundo estava melhorando à medida que aprendemos mais sobre ele foi o incentivou às elites para continuar investindo em conhecimento e tecnologia. Em vários aspectos a vida atual é inegavelmente mais desenvolvida como na medicina, na higiene e no conforto material. Entretanto, nem tanto esforço é dedicado à questão do bem-estar humano. Será que a vida moderna torna as pessoas satisfeitas com sua existência? Num primeiro momento a discussão não parece fazer sentido, afinal, se hoje é mais rico, saudável e confortável é óbvio que seria mais feliz também. Porém, não é tão fácil responder à pergunta. Estudos da psicologia apontam que bens materiais trazem uma satisfação apenas momentânea às pessoas, sendo logo esquecidas. Portanto, um mundo mais rico não é necessariamente mais feliz.
Questões abstratas como essa são naturalmente difíceis de responder, pois não apenas não existe uma definição precisa de felicidade, mas também não existe maneira totalmente clara de medir um aspecto tão subjetivo da vida. Ainda assim, não são poucos os que tentam delimitar o assunto. Um dos trabalhos mais complexos já feitos sobre o tema foi realizado pelo psicólogo Steven Pinker, que lançou um enorme livro “Os Melhores Anjos de Nossa Natureza” defendendo que o mundo moderno é superior ao mundo antigo, entretanto, ainda que seja um psicólogo, Pinker não abordou muitas questões subjetivas, focando em compilar dezenas de estatísticas de fatos materiais, logo, a questão do bem-estar psicológico humano não é respondida.
Um dos que tinham opinião oposta a de Pinker foi o antropólogo Marshall Sahlins que em um artigo chamado “A Sociedade Afluente Original” argumentou que o estilo de vida dos caçadores-coletores (povos com estilo de vida anterior a civilização) eram na realidade muito próspero, pois conseguia manter um modo de vida satisfatório se limitando a buscar apenas as necessidade básicas, ao invés da fome de riqueza insaciável do mundo moderno, e tendo vários pequenos confortos como trabalhar poucas horas por dia.
Esses argumentos espelham as discussões que os intelectuais tiveram durante os séculos 17 e 18 sobre quais eram os estados naturais do ser humano. Thomas Hobbes argumentou que a condição humana primitiva era "solitária, pobre, desagradável, brutal e curta" e que a civilização tinha os livrado deste sofrimento. Jean-Jacques Rousseau contra-atacou dizendo que os homens primitivos eram “bons selvagens” vivendo em harmonia com a natureza e o mundo moderno arruinou esse estilo de vida idílico. Alcançar um consenso ou um meio-termo sempre foi um desafio para os intelectuais. Até hoje é difícil determinar o que melhorou ou piorou à medida que a sociedade progredia, ou decaia dependendo do seu ponto de vista.
Tanto Pinker quanto Sahlins foram acusados de romantizar quem defendiam, fosse o mundo moderno ou as sociedades antigas. Ainda assim, parece pouco provável que seus raciocínios estivessem completamente errados; é preciso, claro, enxergar seus pontos de vista com ceticismo. Obviamente tais argumentos só podem responder a essa dúvida até certo ponto. Ainda que seja difícil não acreditar que as conquistas materiais não tenham impacto na vida humana, em vários momentos o mundo moderno parece excessivamente angustiante para o indivíduo. Então como o conforto material se contrapõe ao estresse psicológico?
Pessoas modernas trabalham num nível extremo de cobrança, sempre tendo que cumprir metas e expectativas. A carga de trabalho é exaustiva. Profissionais modernos trabalham mais do que servos na Idade Média, pois os antigos tinham quase 2 meses de férias durante o ano. Obviamente o trabalho dos medievais envolvia mais esforço físico do que os empregos atuais, mas isso não é necessariamente algo ruim; esforço físico, por mais que seja cansativo, também é menos frustrante e gera menos ansiedade. Não é à toa que muitos hoje recorrem a academia como forma de aliviar o estresse que acumulam durante as longas horas no escritório preenchendo dados no computador. De fato, no nosso mundo moderno não é raro o trabalho físico não parecer algo tão ruim (pelo menos quando não excessivo), visto que muitos usam-o como passatempos para fugir da realidade. Sem surpresas, muitos cultivam o gosto por caça, trilhas, escaladas e outras atividades que não coincidentemente lembram como era o trabalho nas eras primitivas, indicando que os povos antigos apreciavam seu trabalho já que seus descendentes fazem o mesmo apenas por diversão.
Ainda que seja a sociedade mais rica da história, a desigualdade é um problema crônico de grande parte do mundo. Hoje se sabe que a desigualdade tem maior impacto na psique humana do que a pobreza, pois as pessoas medem o próprio sucesso se comparando com as conquistas dos demais, logo mesmo que se estejam materialmente bem, o fato de estar atrás dos demais irá causar sofrimento psicológico. O que ajuda a explicar a grande quantidade de jovens que se sentem fracassados mesmo sendo pessoas de classe média que nunca passaram necessidade? A frustração da geração atual costuma ser vista pelos mais velhos como um problema moral, como se os jovens fossem incapazes de alcançar o sucesso com seu próprio esforço, mas as gerações atuais apresentam níveis muito altos de Burnout, mostrando que sim eles trabalham intensamente, apenas não conseguem ou sentem não conseguir realizar o seu potencial.
A questão do excesso de cobrança, seja pessoal ou pelo resto da sociedade, é um dos pontos mais discutidos no mundo atual. O filósofo Byung-Chul Han argumentou no livro “A Sociedade do Cansaço” como todos estão sobrecarregados com a obrigação de sempre se mostrar proativos e dedicados ao trabalho ao nível da exaustão. Até que ponto as expectativas elevadas de desempenho não causam mais sofrimento às pessoas do que produz riqueza para elas? Novamente é difícil realizar um cálculo objetivo para algo tão vago e abstrato, mas é uma discussão que tem que ser levantada, afinal, se não for estabelecida uma linha em que o trabalho é extenuante e precisa diminuir, a sobrecarga vai tornar todos infelizes.
Além da desigualdade e do excesso de trabalho, outro ponto que tem levantado discussão é a rede de contatos. Humanos são provavelmente a mais gregária e social das espécies de mamíferos. A complexidade das relações humanas é enorme, ainda assim muitos têm constatado que o hiperindividualismo do mundo moderno impede que se formem laços profundo,s o que causaria ansiedade e solidão. Os biólogos sabem que a falta de contato social pode causar traumas profundos em animais, sendo, portanto, óbvio que o mesmo se aplica a seres humanos. As pessoas não costumam dar muita atenção a essa necessidade das pessoas por afeto. Um dos bordões atuais é
que “se precisa aprender a ser feliz sozinho”, mas não é possível para as pessoas escolherem quais condições farão elas felizes ou não, se fosse fácil desta forma, todos poderiam ser felizes sem esforço.
Um dos experimentos mais tristes da biologia envolveu um filhote de macaco que foi colocado com a opção de escolher entre uma mamadeira com leite que iria nutri-lo e um pedaço de tecido similar à pele de sua mãe. O filhote escolheu o tecido, se aproximando da mamadeira apenas quando tinha fome. O cientista achou que era porque ele estava com frio, mas mesmo quando colocou uma lâmpada perto da mamadeira, o filhote se apegou a representação de sua família. Quando adulto, o animal apresentou sequelas em seu comportamento, tendo dificuldade em socializar com os demais macacos. Humanos têm um cérebro similar aos dos primatas, também precisam se sentir amados e protegidos (mesmo na vida adulta) para ter segurança. Sem surpresas durante a maior parte da história humana, a lealdade maior que uma pessoa deveria ter era a sua família e comunidade, seu mundo próximo que sempre a acolheu.
A sensação de solidão que algumas pessoas apresentam é tão intensa que é cada vez mais comum indivíduos que usam bonecos como parceiros românticos e até mesmo se apaixonam por eles e realizam cerimônias de casamento imaginado que estão constituindo famílias. Tal comportamento não é novidade; pessoas que sobreviveram sozinhas do resto da civilização como náufragos ou exilados também apresentam esse comportamento, mas esse tipo de atitude desesperada só costuma acontecer em pessoas isoladas por longos períodos do contato humano. O fato de estar acontecendo com pessoas vivendo em grandes cidades é sinal de que a falta de interação social está num nível além do tolerável pelas pessoas, claro sinal de que algo está errado.
O desespero dos humanos por contato em que possam confiar se tornou tão grande que muitas pessoas transferem sua necessidade de afeto para animais e plantas. Como manter amizades humanas é muito custoso ou às vezes inviável, a figura do “pai de pet” que trata seus bichos como filhos se tornou comum. Muitos destes pais acabam realmente tratando animais como filhos até mesmo dando roupas, brinquedos e perfis na internet para seus animais. Alguns veem isso como errado ou inapropriado, mas na verdade é simplesmente consequência de um mundo que isola as pessoas do contato de que elas necessitam para seu bem-estar.
Até que ponto os seres humanos vão se adaptar a essa nova realidade materialmente confortável, mas psicologicamente extenuante é difícil dizer. Ainda que a espécie tenha grande capacidade de se adaptar a muitos ambientes, humanos não são deuses e não podem transcender suas limitações; em algum momento a sociedade terá que começar a dar mais atenção ao bem-estar psicológico dos indivíduos ou as consequências irão ser um fardo caro demais para ser pago.















