No século XXI, torna-se incompreensível que, perante funções iguais e responsabilidades idênticas, o gênero ainda seja determinante no valor do salário.
Por mais voltas que se deem, o ponto de partida é sempre o mesmo. Por mais que se diga que a educação é importante, no fim, as oportunidades nem sempre são iguais para todos. Sobretudo para as mulheres. Em pleno século XXI, ainda se fala em desigualdade de gênero e salarial entre homens e mulheres. As desigualdades, essas sempre existiram e sempre existirão. Agora, não consigo conceber que, em pleno século da modernização tecnológica, dois trabalhadores que desempenhem a mesma função, no fim do mês, tenham ordenados diferentes, porque um é homem e outro é mulher.
Ora, se desempenham a mesma função e, com isto se pressupõe que as responsabilidades são iguais, o trabalho é o mesmo, os horários (laborais) idem aspas etc., o salário deveria ser igual. A ser o trabalho o mesmo, o que é que o homem faz a mais que a mulher para ganhar mais? É o estatuto? O tradicionalismo, que nos ensinou, em milhares de anos de evolução, que o homem será sempre o “ganha-pão da casa” e a mulher sua dependente? Mas isso não é evolução. É uma estagnação de mentalidades.
Se bem me recordo das minhas aulas de História do Ensino Secundário, foi no início do século XX que as mulheres começaram a receber a tão desejada libertação e independência dos maridos. Foi uma verdadeira transformação social e cultural por todo o mundo. O pudor e o conservadorismo foram deixados de lado e as mulheres foram viver a sua emancipação. Durante a I Guerra Mundial, com muitos homens (pais, maridos, irmãos, …) nas trincheiras da batalha, muitas tiveram de arregaçar as mangas e arranjar um meio de sustento. Naquele tempo, uma mulher trabalhar era quase como se fosse uma blasfêmia, mas estas não se renderam e não foi por isso que deixaram de o fazer.
Agora, cem anos passados, dá-me a impressão de que, em vez de avançarmos com os anos e os tempos, estamos cada vez mais a andar para trás! Prova disso é ainda existirem e persistirem as desigualdades salariais entre homens e mulheres. De acordo com o Barómetro das Diferenças Remuneratórias entre Mulheres e Homens 2025, a diferença salarial média entre ambos é de 12,5%. Contudo, há uma boa notícia: esta diferença (abismal) tem vindo a cair, sendo que, segundo o mesmo documento, em 2010 era de quase 18%.
Para isto contribuem muitos fatores, como identifica o Parlamento Europeu: “São muitas as razões para a existência de uma diferença salarial entre homens e mulheres. Algumas podem estar relacionadas com o nível de escolaridade, experiência profissional ou trabalho a tempo parcial. Há mais mulheres do que homens em alguns setores da economia onde os salários médios são menores. Outra razão pode passar pelo fato de os homens ocuparem cargos com melhores remunerações do que os das mulheres num determinado setor”. Mais à frente, a mesma fonte refere que 28% das mulheres trabalham a tempo parcial (dados de 2022). “Em média, as mulheres fazem mais horas de trabalho não remunerado, como cuidar dos filhos ou executar tarefas domésticas. Isto traduz-se em menos tempo para se dedicarem a um trabalho remunerado. De acordo com dados de 2022, quase um terço das mulheres (28%) trabalhava a tempo parcial contra 8% dos homens”.
Ora, aqui está uma verdade incontestável. Não há muito tempo, vi um vídeo nas redes sociais, onde aparecia a atriz Meryl Streep, numa qualquer premiação, onde dizia que os homens trabalham de sol a sol e as mulheres trabalham quando ninguém vê, porque o trabalho das mulheres nunca está feito. Suponhamos que, entre as 9h da manhã e as 17h, está a trabalhar, assim como o homem, mas a mulher, quando chega a casa, tem ainda mais trabalho pela frente, enquanto o homem não (aqueles que não ajudam nas tarefas domésticas).
A mulher chega a casa, tem o jantar para preparar, ajudar os filhos com os trabalhos de casa, lancheiras a preparar para o dia seguinte, roupa para lavar ou passar a ferro, pó para limpar; ao fim do jantar, arrumar a cozinha e fazer mais alguma coisa que ficou pendente do dia anterior. É uma corrida desenfreada contra o tempo, que muitas vezes já se faz em piloto automático, mas que custa… Ainda mais custa quando vê que todo o empenho e dedicação que coloca no seu trabalho de nada valem, porque ao passo que o seu colega, homem, ao fim do mês, leva para casa mais 242 euros.
Outro aspecto que pode justificar esta diferença salarial é na ocupação de cargos. A verdade é só uma: são ainda poucas as mulheres que vemos a ocupar cargos de chefia/executivo. Qual é que é o problema? É que a mulher só pode mandar em casa e na cozinha? Não é por ser mulher, mas acho que a liderança feminina acaba por ser menos autoritária, por conseguinte, mais inclusiva e empática, no sentido em que é mais justa e acolhedora.
Se estamos no caminho de rever a situação? Acredito que sim, mas o caminho ainda é longo e há ainda muito por fazer, sobretudo enquanto persistirem os estereótipos em relação aos papéis que as mulheres podem ou não ocupar na sociedade, muitas vezes criados pelas próprias. Além disto, há a falta de uma rede de apoio no que toca às responsabilidades familiares, que dificulta a conciliação entre a vida profissional e pessoal. Se a educação é para todos, independentemente do género de cada um, as oportunidades também o devem ser. É necessária e urgente uma mudança de paradigma e de políticas, para que todos, sem exceção, possam viver condignamente.















