Lucas Bonfim. Esse é o meu nome. Para a maioria, apenas uma assinatura no rodapé de petições ou um contato de emergência em momentos de crise legal. Para mim, é a marca de quase duas décadas de uma imersão profunda e, por vezes, perturbadora, na natureza humana em seu estado mais cru e também no seu esplendor mais calculado. A advocacia, para quem a exerce como eu, não é apenas a aplicação da lei, mas sim uma ciência social aplicada, um laboratório onde os dramas e as ambições humanas são dissecados à luz da justiça ou da sua ausência.

Poucos de fora da minha profissão têm a oportunidade de testemunhar o espectro completo da tragédia e da comédia que é a existência humana. Eu tive. Sou, por força do ofício, um espectador privilegiado e, ao mesmo tempo, um ator coadjuvante nos palcos mais diversos. Vi o mais abjeto desespero nos olhos do homem mais pobre e, em seguida, a frieza calculista na cúpula do poder financeiro. O meu escritório já serviu de confessório para a prostituta de luxo que negociava informações sensíveis em troca de segurança e para o político influente que ditava os rumos de uma nação.

Essa diversidade de clientela e de cenários me deu uma perspectiva única, quase um telescópio para observar as constantes da natureza humana. É irônico: vivemos na era da informação instantânea, do avanço tecnológico que nos prometeu a utopia da transparência e da desconstrução. Contudo, quanto mais a casca do moderno se solidifica, mais evidente se torna o núcleo imutável da psique humana.

Existem parâmetros comportamentais que simplesmente não mudam. Eles estão conosco desde a Gênese e, arrisco dizer, estarão até o último suspiro da civilização. A tecnologia pode mudar o canal de expressão, mas não a essência da inveja, da ambição, da lealdade seletiva ou da busca incessante por controle. São forças telúricas, quase fisiológicas, que governam as interações sociais, não importa se você está em um vilarejo remoto ou em um boardroom de Manhattan.

Para ser didático e acessível, como exige a leitura fácil para quem nos acompanha, pense em um exemplo cotidiano, algo que qualquer um consegue entender, longe dos corredores da alta política ou dos tribunais. Imagine a fila em um supermercado. Sempre existirá aquele que tentará passar à frente, aquele que observará a manobra com indignação silenciosa e aquele que fará vista grossa, talvez por temer a confrontação ou por desejar a mesma vantagem no futuro.

A tecnologia moderna apenas transformou a fila do supermercado em uma rede social ou em uma eleição. O desejo de prevalecer, de manipular as regras a seu favor, de julgar ou de ser conivente é o mesmo. O instrumento mudou, mas a melodia do egoísmo e da hierarquia não. Acreditem, meus caros leitores, essa é a primeira lição que aprendi depois de anos advogando para quem está no topo e para quem está na base: a natureza humana é a verdadeira constante universal.

Mas há uma segunda lição, mais crucial e talvez mais difícil de engolir, especialmente para aqueles que dedicam a vida a defender uma bandeira ou uma ideologia. Depois de passar anos ao lado de figuras que movimentam o tabuleiro global, de coordenar operações psicológicas, cheguei a uma conclusão perturbadora: no topo, as linhas de demarcação ideológica que tanto inflamam as massas simplesmente não existem. Não existe direita. Não existe esquerda. O que existe é o Poder. E os seus donos.

A análise das estruturas de poder revela que, no topo da pirâmide, onde as decisões realmente estratégicas são tomadas, a predileção política, partidária ou ideológica é irrelevante. É um jogo de soma zero, no qual o único objetivo é a manutenção e expansão do controle, não a vitória de uma cor ou de um símbolo. Eles não se importam com a sua ideologia, apenas com a sua obediência.

O verdadeiro e único objetivo dessa elite é o controle da narrativa. A narrativa é a moeda mais valiosa do século XXI, o novo ouro que dita o comportamento, as crenças e as ações da vasta base da pirâmide social. Se você controla o que as pessoas pensam sobre a realidade, você controla a própria realidade delas. É uma forma de engenharia social sofisticada: trata-se de neurociência aplicada ao coletivo.

E qual é a melhor forma de controlar as massas? Dividindo-as, claro. Por isso, eles investem na criação e manutenção de supostos grupos ideológicos polarizados: direita contra esquerda. Conservadores contra progressistas. E, para refinar o controle, criam-se inúmeros subgrupos dentro desses maiores, garantindo que o debate público se afogue em disputas laterais, enquanto a agenda central dos verdadeiros donos do poder avança sem resistência. Enquanto o povo discute a cor da bandeira, eles estão mudando as regras do jogo.

O mais fascinante, e o que confere a essa teia uma aura de mistério e permanência, é que os verdadeiros donos do poder raramente aparecem. Eles não dão entrevistas, não discursam em palanques. Quem aparece? Os políticos eleitos. Os comunicadores de massa. Os digital influencers que pautam a opinião pública com um simples post. Eles são os portadores da mensagem, os construtores da narrativa, os detentores temporários do mandato eletivo. Para os donos do poder, esses personagens são meros prestadores de serviço. Funcionários. Peças substituíveis no vasto maquinário.

Eu próprio, Lucas Bonfim, sou um prestador de serviço. Acreditem, não cheguei a essas conclusões apenas observando as assinaturas dos cheques. Minha ascensão profissional me colocou em uma posição única, coordenando operações psicológicas, dentro e fora do Brasil, para essa mesma elite. Fui um arquiteto intelectual, uma peça fundamental no xadrez estratégico da narrativa, agindo nos bastidores para moldar percepções e reações em escala nacional e, por vezes, continental.

Essa experiência me deu acesso a informações que desvendam o funcionamento interno do jogo. É um conhecimento pesado, uma carga que se torna mais densa a cada ano de exercício. No entanto, há limites para a minha franqueza. Por mais que eu queira abrir o jogo por completo, desvendando nomes, situações específicas, datas ou ambientes que testemunhei, não posso. Não é por covardia, mas por pragmatismo. O poder é implacável com quem o expõe. Se eu cruzar a linha da discrição profissional, perco meu ganha-pão, meu acesso e, o que é mais importante, arrisco sofrer represálias que tornariam impossível seguir minha jornada.

Fico no limiar da revelação, dando a vocês a estrutura, o mapa, mas sem os nomes dos viajantes. Saibam que esse advogado que vos fala, Lucas Bonfim, tem em sua memória arquivos que, se revelados, mudariam a percepção pública sobre quase todos os eventos recentes. Contudo, o juramento de sigilo e a compreensão da implacabilidade do poder me impõem uma mordaça seletiva.

O mundo sempre foi assim. Essa é a grande conclusão que trago da minha jornada no coração do poder e da miséria humana. A crença na mudança radical, na utopia de um sistema perfeitamente justo e transparente, é a ilusão que o próprio sistema constrói para manter a esperança e, consequentemente, a passividade produtiva das massas. As ferramentas mudam, o palco se moderniza, mas o roteiro é o mesmo. Tudo é decorrente do aspecto mais profundo e imutável do comportamento humano.

A Fisiologia do Poder é essa: o desejo de controle, a hierarquia inata, a manipulação da narrativa. É um ciclo que se realimenta pela nossa própria natureza. Mas, se a estrutura é tão antiga e imutável, por que me dou ao trabalho de escrever este ensaio? Se é tudo tão óbvio, por que o mistério ainda perdura e a máquina continua a funcionar com tamanha eficiência? Será que, mesmo nesse jogo de forças históricas, existe um ponto cego, um detalhe não percebido pela elite, uma brecha na cortina que a própria estrutura, em sua arrogância, ignora?

Talvez. E é nesse talvez, nesse pequeno espaço de incerteza, que reside o próximo capítulo da nossa investigação. Pois, se o poder é fisiológico, a resistência a ele e a busca pela consciência também o são. E a jornada, meus caros, está apenas começando a ser narrada. Fiquem atentos, pois nem todos os segredos podem ser guardados para sempre.