Nas minhas últimas férias tirei uns dias para fazer uma viagem para a Ásia e no roteiro, dentre alguns lugares espetaculares, estava o Camboja, especificamente Siem Reap. Há muito o que se falar tanto sobre o país quanto sobre os lugares que ali visitei, mas quero me ater em um único tema.

Confesso que fui para essa viagem — e, consequentemente, para esse destino — sem saber exatamente o que encontraria. Não costumo pesquisar nada sobre os meus destinos de viagem, além do necessário, pois gosto muito de ser surpreendida pelo que irei encontrar. Em um dos dias em que contemplávamos um dos diversos templos do cronograma que tínhamos, fui tomada por uma inquietude. Eu tinha sede de conhecimento, eu queria saber mais, queria poder acessar as outras camadas de uma cultura tão distante da minha.

Foi então que questionei à guia se o país tinha um escritor ou escritora de renome que eu pudesse ler os livros para conhecer mais sobre. A literatura, bem como sabemos, é poderosa. Além de nos permitir desenvolver senso crítico e a linha de raciocínio, melhorar a memória, ampliar o vocabulário, estimular a criatividade, entre outros, é capaz de nos fazer tirar nossas próprias lentes para poder enxergar com a lente do autor. Isso faz com que possamos ter empatia, sejamos capazes de refletir a história e questionar nossas atitudes.

A resposta da guia não veio tão rápido, como se ela já tivesse o nome do escritor ou da escritora na ponta da língua. Não que o país não tenha um, mas o principal motivo foi que ela não conseguia me mostrar no celular dela no site de busca com as letras ocidentais. Depois de uns bons minutos em que conseguimos achar no meu celular o nome dele (com a foto) e a guia confirmou que era aquela pessoa mesmo, veio o golpe: “Acho que você não conseguirá nenhum livro dele, pois ele foi um grande defensor da cultura Khmer. Não sei se há livros dele traduzidos e se houver, serão poucos”.

Para além de tudo o que a literatura nos proporciona, ela nos permite ter contato com diferentes culturas. Até que ponto? Eu li Crime e Castigo de Dostoiévski e nunca coloquei meus pés em São Petersburgo, mas ainda assim pude imaginar cada cena daquele romance extenso, bem como quando li Niketche de Paulina Chiziane sem nunca ter pisado em Moçambique. Porém ao ler qualquer coisa de Machado de Assis ou de Jorge Amado, eu imagino um Brasil que eu não vivi, mas muito mais palpável por já ter ido ao Rio de Janeiro e para a Bahia. Ler qualquer autor ou autora de qualquer lugar que eu já tenha visitado, por mais longínquo que seja o tempo que ele ou ela escreva, fica mais fácil concretizar aquela obra na minha imaginação.

A conclusão direta é que podemos acessar qualquer obra literária sem a necessidade de ter visitado o lugar nela retratado. Nesse processo, a internet atua como mediadora, possibilitando a pesquisa sobre esses espaços quando a curiosidade surge, desde que o texto esteja traduzido.

No entanto, esse acesso não é neutro nem universal. A circulação de obras literárias depende de decisões editoriais, políticas de tradução e interesses de mercado, o que faz com que muitas vozes permaneçam restritas aos seus contextos de origem. Assim, a experiência literária global ainda carrega assimetrias profundas.

Foi assim que cheguei ao nome de Chuon Nath (ចួ ន ណ ថ), figura central da cultura cambojana. Nascido em 1883, foi um monge budista, linguista e poeta com uma vasta produção literária, especialmente sobre budismo.

Em 1915, Chuon Nath presidiu um comitê responsável pela elaboração de um dicionário da língua Khmer, cuja primeira edição foi publicada em 1967. A partir desse trabalho, consolidou-se como uma autoridade na língua Khmer.

Também supervisionou a tradução de escrituras budistas para o Khmer, tornando-as mais acessíveis à população, o que lhe rendeu o reconhecimento como um verdadeiro guardião da cultura cambojana. Além disso, escreveu o hino nacional, reforçando os pilares da nação, e contribuiu para a definição do significado da bandeira. Atuou ainda como educador nas línguas Pāli (língua clássica e religiosa), Sânscrito (língua clássica, religiosa e literária), Khmer (língua oficial do Camboja) e Lao (língua oficial do Laos).

Infelizmente as obras de destaque de Chuon Nath são mais conhecidas ou disponíveis em Khmer, não têm muitas traduções amplamente publicadas para português ou inglês. Alguns livros sobre ele e coletâneas de seus escritos podem ser encontrados em edições acadêmicas, antologias de literatura budista cambojana ou em bibliotecas universitárias especializadas em estudos do Sudeste Asiático. Sua atuação ultrapassa o campo linguístico e assume um papel político e cultural fundamental, especialmente em um contexto marcado por colonialismo, guerras e tentativas de apagamento identitário. Preservar a língua Khmer foi, também, preservar a memória e a soberania cultural do Camboja.

Eu não desisti e continuei a minha busca sobre alguma literatura traduzida para o português. A mais conhecida é Loung Ung, cambojana, sobrevivente do Khmer Vermelho e escreve memórias autobiográficas. O livro Primeiro Eles Mataram Meu Pai tem tradução para o português e existe também a adaptação cinematográfica dirigida por Angelina Jolie.

Um outro autor cambojano, Rithy Panh, é mais conhecido por sua atuação como cineasta. Sobrevivente do genocídio, construiu uma filmografia marcada pelo testemunho, pela memória e pela reflexão histórica, com obras como S21: A Máquina de Matar do Khmer Vermelho e A Imagem que Falta. No campo literário, seu livro L’Élimination (A Eliminação), escrito em parceria com Christophe Bataille, é um texto memorialístico traduzido para o português.

Já o que existe de literatura ficcional cambojana, não há tradução para o português ainda. E, caso o leitor esteja se perguntando o que é o Khmer Vermelho e o genocídio que o Camboja carrega em sua história, deixarei para contar em um próximo artigo.