Em tempos sombrios em que percebemos a autenticidade cada vez mais sucumbida pela Inteligência Artificial e mídias sociais viciantes, a arte continua sendo o refúgio mais seguro e confiável dos artistas que lutam para viver de sua própria criação. Apesar de atuar como uma ferramenta de expansão criativa e otimização de tempo, a IA também oferece riscos para o desenvolvimento orgânico de atores e atrizes que estudam seu ofício de maneira tradicional.

Luan Steenbock, estudante de Publicidade e Propaganda, ator de teatro e TV, apresentador, Drag Queen, Gerente de Projetos e artista múltiplo em formação, percebe nuances curiosas em uma era em que a informação circula de forma desenfreada e a avaliação da arte se mostra pouco criteriosa. Temas como comparação, autoexigência, inseguranças e perfeição são abordados nesta entrevista intensa, profunda e carregada de significados.

Com mais de 10 anos de experiência no teatro e diversos projetos artísticos em andamento entre Curitiba e Florianópolis, Luan reflete sobre a necessidade de produzir conteúdos, compartilhando seu talento e divulgando seus trabalhos, ao mesmo tempo que vivencia, na pele, a realidade de um artista brasileiro em busca do próprio sonho. Tenha uma boa leitura!

Como foi o seu primeiro contato com a atuação e em que momento você percebeu que queria seguir essa carreira?

Meu primeiro contato com a arte de performar foi através da televisão, das novelas. Em 2008, quando eu tinha 7 anos, comecei a assistir A Favorita e fiquei encantado com o trabalho dos atores, com a dramaturgia, com os personagens. Aquilo despertou em mim uma vontade de fazer parte daquele universo. Minha família sempre gostou muito, então isso fazia parte do nosso cotidiano.

Depois de um tempo, entrei para o teatro Lala Schneider, pois sempre fui muito comunicativo, mas no primeiro ensaio, eu já entendi que estar ali me preenchia. Descobri um lugar de afeto, de criatividade, um espaço onde eu me sentia muito bem. Ali eu percebi que queria seguir esse caminho. Fiz minha primeira peça de teatro, junto com a minha melhor amiga, e aquilo foi muito especial. Ter alguém que você ama ao seu lado, te apoiando, fortaleceu ainda mais esse amor pela arte e desde então, nunca mais deixei de ter contato com ela.

Você sente que as redes sociais e as comparações online afetam a sua confiança como artista? De que forma?

Sim, afetam. Hoje em dia, as redes sociais viraram uma forma muito importante de divulgação, de mostrar o trabalho. Então, elas me afetam tanto de forma positiva quanto negativa. Positivamente, porque ampliam muito as possibilidades de visibilidade. Você consegue mostrar seu trabalho para mais pessoas, em diferentes lugares, com mais facilidade. Mas, ao mesmo tempo, isso pode ser complicado, pois muitas vezes, não se olha a qualidade do artista ou o seu currículo, e sim o número de seguidores. E acaba acontecendo de artistas que estudaram muito perderem espaço para pessoas com mais visibilidade, mesmo sem a mesma preparação. Então, enquanto ajuda na divulgação, também cria esse desafio dentro da profissão.

Na sua opinião, o que mais alimenta a insegurança de artistas iniciantes hoje: a crítica externa, a autocrítica ou a pressão para se destacar?

Eu acredito que são os três juntos. São três pontos muito fortes. Existe a pressão para se destacar, principalmente no início. Ao mesmo tempo, tem a autocrítica, essa cobrança interna por perfeição e por mais preparo. E também tem a crítica externa, porque a gente nunca quer errar e está sempre esperando algum tipo de feedback, seja bom ou não. A crítica externa pode ser positiva porque ajuda no crescimento, mas, para mim, o que mais alimenta a insegurança é a autocrítica. Ela é complicada porque trabalhamos com o nosso corpo, com a nossa criatividade. Então, a gente se cobra muito, e o maior medo dentro disso é fazer algo que não seja coerente com quem você é, e perder sua essência nos trabalhos.

Como você lida com a necessidade de mostrar segurança no palco ou diante das câmeras, mesmo quando está inseguro por dentro?

Como profissional, eu procuro deixar todas as minhas dores, inseguranças e preocupações fora do palco. Quando estou em cena, em um personagem ou em uma gravação, tento focar completamente naquele momento. E como é algo que me faz muito feliz, eu acabo esquecendo essas inseguranças. No palco ou no set, isso não me afeta, porque eu direciono minha atenção totalmente para o que eu estou fazendo. A insegurança vem antes, com o nervosismo e a ansiedade. Mas o depois é muito prazeroso, é quase uma glorificação por ter conseguido fazer, independentemente de ter sido perfeito ou não, você entregou. Para trabalhar essa insegurança, eu gosto de fazer exercícios de respiração, estudar bem o texto, me preparar. Estar seguro com o texto e com a performance, com tudo bem alinhado, me traz mais tranquilidade para entrar em cena.

Você já sentiu que precisava “ser perfeito” para conquistar espaço? Como você vê essa dualidade entre perfeição e uma profissão que exige imperfeição?

Eu acho que quando a gente fala em perfeição, é uma perfeição para nós mesmos. Porque só nós sabemos quando é a fala, quando é a deixa, e essa ideia de “perfeito” é muito mais para quem está fazendo, porque quem está assistindo não sabe se erramos ou não. Então, é uma cobrança interna que muitas vezes nem afeta o resultado final de um espetáculo. A gente se preocupa tanto com a perfeição que acaba ficando robotizado. Cada artista tem uma forma de criar um personagem. Pode ser o melhor personagem do mundo, mas cada um vai fazer de um jeito. O julgamento pode até ser individual por parte da plateia, mas todos fizeram de acordo com o seu talento. Então, todos foram perfeitos dentro da sua própria construção.

Que conselhos você daria para artistas que estão começando e se sentem inseguros diante das expectativas do mercado e da exposição constante?

A dica que eu dou é nunca esquecer da sua essência como ser humano. Antes de ser artista, a gente é humano, a gente tem um sonho, um propósito. Eu acredito que nenhuma produção alcança sucesso sem propósito. Então, se o seu propósito é chegar lá, é essa força de acreditar, de visualizar onde você quer chegar, que vai trazer mais segurança para o caminhar. Para quem está começando, vão surgir muitos desafios, milhares de situações que vão fazer você pensar em desistir. Mas eu vejo isso como testes, como parte do caminho para quando você chegar lá. Como em qualquer profissão de sucesso, não é fácil chegar, mas o essencial é não desistir e confiar no seu propósito. Eu quero compartilhar isso com as pessoas; quero levar alegria para o meu público. Quando o propósito te toma por inteiro, ele não te deixa desistir.