Ao final dos anos 1970, o termo "pós-modernidade" surgiu como modo de qualificação do atual estado cultural da sociedade. Tal sociedade é marcada pelo domínio do sistema capitalista, a pluralização, o individualismo, e o fenômeno da globalização. O objetivo dessa forma de caracterização era consagrar os valores do novo funcionamento social; valores os quais complementam um ao outro. A expansão do consumo, por exemplo, liga-se com o descontentamento político. O consumismo gera o prazer momentâneo, que encaixa perfeitamente em uma sociedade fragmentada e hedonista, marcada por baixas expectativas com relação ao futuro. Assim, a sociedade pós-moderna é aquela na qual os desejos lideram não apenas o mercado, mas os indivíduos.

“Atlanta” e sua relação com o surrealismo

Em “Atlanta”, premiada série de televisão estadunidense criada em 2016 por Donald Glover, o protagonista é um jovem homem, Earnest Marks, que decidiu sair da universidade de Princeton para voltar à cidade de Atlanta. Lá, desesperado para ganhar algum dinheiro, vira agente de seu primo, o rapper Paper Boi. A série se centra na relação entre os primos, a cidade e as pessoas ao seu redor. Contudo, o mundo que gira em torno dos personagens centrais não é igual ao mundo real.

“Atlanta” faz um questionamento aos seus espectadores: quão estranho é o mundo quando se presta atenção à ele? Quando se presta atenção ao conceito de raça e à maneira como o mundo se modifica ao redor dele? Quando “Atlanta” analisa a cultura Afro-Americana dentro do contexto de um rapper da cidade de Atlanta, o analisa a partir de lentes surreais, explorando a Indústria Cultural, o racismo, o trabalho, o dinheiro, relacionamentos humanos, e o existencialismo inerente em tais tópicos. A série é descrita ora como uma comédia, ora como drama, suspense ou terror. “Atlanta” não se encaixa em nenhum desses rótulos porque é, de fato, uma série afro-surrealista.

O movimento surrealista nas artes, criado no início do século XX pelo poeta André Breton, baseava-se na ideia de que a razão imposta pelo Iluminismo havia obscurecido os méritos do inconsciente, da mente irracional. Breton define como surrealismo: “Puro automatismo psíquico pelo qual se propõe a expressar, verbalmente, ou por escrito, ou de qualquer outra forma, o funcionamento real do pensamento.”. Dessa forma, o surrealismo tinha como objetivo se liberar do racionalismo. A criatividade artística, de acordo com o surrealismo, era proveniente do inconsciente humano.

O afro-surrealismo, tal como o surrealismo, possui interesse em explorar pensamentos e sentimentos diretamente como saem do inconsciente. Essa maneira de fazer arte é essencial para provocar a audiência a viver e a compreender as realidades internas de pessoas com vivências diferentes da sua própria. O artista, representando sua realidade da maneira mais bruta, absurda e desconfortável possível, passa uma mensagem clara e direta para sua audiência.

O surrealismo não significa falta de realismo; é um realismo extremo, tão real que provém diretamente do inconsciente humano. Para Frida Kahlo, pintora mexicana que foi por muitos considerada como artista surrealista, suas pinturas representavam sua própria realidade, de maneira distorcida e mística, como aparecia em seu inconsciente.

O surrealismo faz uma tentativa de quebrar com os simulacros da pós-modernidade, tentando representar os objetos como de fato são, de maneira bruta, honesta e, às vezes, pouco atrativa. O afro-surrealismo, por sua vez, faz essa arte com base no momento atual; artistas afro-surrealistas querem expor o que acontece atualmente em suas vidas, nas vidas das pessoas ao seu redor.

O afro-surrealismo—que renasceu fortemente em 2009 quando D. Scot Miller publicou o manifesto afro-surrealista no jornal San Francisco Bay Guardian — permite liberdade em expressar medos, injustiças, inseguranças, de maneiras inovadoras e, às vezes, absurdas. O afro-surrealismo nos Estados Unidos, como é representado em “Atlanta”, lida com o estranhamento da cultura Afro-Americana de forma simbólica.

O estranhamento do surrealismo traz à tona a pergunta “Por que? Por que isso acontece de tal maneira?”. Em “Atlanta”, toda pequena decisão tomada pelos personagens pode se tornar uma aventura. Os personagens centrais, em cada episódio, possuem um objetivo fixo; entretanto, durante o dia, são distraídos por diversos pequenos objetivos, pequenas tarefas que precisam ser feitas, que servem como pedras no caminho.

A maneira como “Atlanta” conta histórias é estranhamente realista, no sentido de que os acontecimentos parecem pensamentos, que são corridos e passam pela cabeça sem se anunciar. Esse estranhamento que se traz para o espectador é inerente ao surrealismo. A pergunta “Por que?” se cria no espectador devido ao estranhamento, mas também o convida para observar e para questionar se, na realidade, as coisas seriam afinal tão diferentes. “Atlanta” convida o espectador a questionar tudo ao seu redor.

“Atlanta” e o surrealismo inseridos no contexto da pós-modernidade

Em uma sociedade pós-moderna, séries como “Atlanta” e o movimento surrealista por si só tornam-se favoráveis a um público que vive em um mundo que se movimenta rápido, e as pessoas também. Em meio de toda a insegurança, o surrealismo, compreendido como realismo extremo proveniente do inconsciente humano, torna-se parte importante da vida em uma sociedade pós-moderna. O surrealismo expressa os medos e inseguranças de uma sociedade repleta desses que, muitas vezes, precisam enfrentar situações absurdas para sobreviver.

Se antes, na época de seu surgimento, o surrealismo expressava os medos e inseguranças provenientes do inconsciente, hoje expressa as inseguranças causadas pelo mundo ao seu redor, de forma lúdica e de entretenimento.

Diante de uma realidade na qual a produção em série continua tentando unificar e impor padrões, uma série tal como “Atlanta” e seu surrealismo absurdo e lúdico também possui apelo para a audiência, que procura algo novo em meio aos iguais. “Atlanta” diferencia-se de outras produções televisivas por não visar alienar o espectador; ao contrário de remover o público dos problemas da vida real, traz uma reflexão sobre tais problemas. O público, que sente as inseguranças da vida na pós-modernidade diariamente, não consegue escapar de tais inseguranças por meio da televisão ao assistir à série, mas é forçado a refletir sobre elas.

“Atlanta” coloca o espectador na mentalidade de seus personagens e o força a viver aquelas situações, por mais desconfortáveis que sejam. Assim, “Atlanta” não se adequa ao modelo dos meios de comunicação, recusando-se a encaixar-se na negação do real, o incorporando na ficção, como é a tradição no afro-surrealismo: expor o agora, por mais difícil e absurdo que esse seja.

Como “Atlanta” insere conhecimento nas situações da série

Dessa forma, é possível afirmar que “Atlanta” aponta um espelho, ainda que distorcido, para a sociedade e a mostra de maneira surrealista.

Em um episódio da série “Atlanta”, a personagem Vanessa, após ver fotos de seu ex-namorado Earnest no Instagram em que esse aparece feliz, deseja melhorar sua própria aparência nas redes sociais e provar para Earnest—e para si mesma—que ela está vivendo uma vida melhor do que a dele.

Nesse contexto, suas amigas decidem ir para uma festa na casa do rapper Drake, para a qual uma delas recebeu um convite secreto. Lá, o plano de Vanessa é conseguir uma foto com Drake para publicar nas redes sociais. Ao final do episódio, Vanessa tem a revelação desmotivante de que todas as fotos que os convidados da festa postaram com Drake nas redes sociais são falsas; a casa possui um quarto onde é possível tirar fotos com pôsteres de papelão do músico, pelo valor de vinte dólares. Não se paga vinte dólares para tirar uma foto com um pôster de Drake, mas sim para mostrar um estilo de vida.

No episódio em contexto, “Atlanta” explora a realidade concreta e a realidade das aparências. A preocupação de Vanessa, durante toda a festa, de procurar uma foto com o famoso rapper a impediu de propriamente viver a experiência da festa. E, ao final, todas as pessoas que estavam na fila para pagar por uma foto com um pôster estavam também procurando uma ilusão, uma imagem de si mesmas em suas redes sociais.

“Atlanta” dita suas próprias fórmulas, e os episódios e temporadas se diferenciam drasticamente uns dos outros. Isso acontece porque o surrealismo está interessado em mostrar sentimentos e pensamentos espontâneos e inconscientes, e o afro-surrealismo está interessado em mostrar o agora. Ambos esses pontos fazem com que “Atlanta” necessite de mudanças, sendo essas bruscas e repentinas. A popularidade da série— que foi vencedora de diversos prêmios, incluindo dois prêmios dos Golden Globes e mais dois dos Emmy Awards, e cujo primeiro episódio da segunda temporada quebrou recordes de audiência de qualquer comédia recente de televisão — sugere, portanto, um cansaço da sociedade pós-moderna com os limites traçados pela Indústria Cultural na produção de conteúdo, e a censura que tais limites traziam.

A forma com que “Atlanta” engaja seu público

Entendendo o surrealismo como o nível mais alto do realismo, observa-se outra maneira utilizada por “Atlanta” para engajar sua audiência: seus personagens. Ao contrário de comédias televisivas clássicas estadunidenses, nas quais diferentes personagens, cada um com suas falhas e defeitos, superam a negatividade ao seu redor para se tornar personagens adorados pelo público, personagens que fazem a audiência querer torcer por eles. Em “Atlanta”, os personagens também possuem falhas, mas essas não são facilmente consertadas.

O relacionamento entre o personagem principal Earnest e sua ex-namorada Vanessa não é perfeito ou romântico; existem diversos momentos na série em que os dois percebem que não são bons um para o outro, mas ainda se amam e compartilham o amor pela filha que criam juntos. O surrealismo se passa para os personagens, colocando o espectador na pele de cada um deles, o fazendo sentir o que eles sentem. A audiência de “Atlanta” pode se identificar com os personagens pela realidade retratada neles, por eles admitidamente terem seus muitos defeitos.

Donald Glover, criador da série e ator principal, disse em entrevista ao The New Yorker que no começo, a emissora de “Atlanta” não compreendia a relação entre Earnest e Vanessa. Glover explicou, então, que é a relação que ele observa com todas suas tias: existem homens, e suas tias têm filhos com eles, e eles estão por perto, e de alguma maneira, suas tias ainda estão atraídas por eles. A intenção de Glover com a relação entre todos os personagens era representar a realidade e como esta é absurda, não uma versão diferente e livre de falhas da mesma.

Assim, o sucesso de “Atlanta” se dá por ter diversos públicos em mente. Com personagens realistas e complexos, todos podem se relacionar com algum aspecto desses, ou, como discutido antes, aprender ou pensar sobre algo novo com a série ou seus personagens. “Atlanta” não responde todas as perguntas dentro de seus episódios e, por isso, cria espaço para debates e conversas importantes para seus espectadores.

O maior apelo do movimento surrealista dá-se pela intimidade entre artista e espectador, de poder compartilhar e receber sentimentos e pensamentos íntimos. “Atlanta” cria uma conexão pessoal com sua audiência, fazendo com que essa se envolva com seus personagens e suas tramas. Hiro Murai, diretor de grande parte dos episódios da série, contou em entrevista para a revista Time que, com a exceção de Donald Glover, nenhum dos escritores trabalhando na série haviam trabalhado escrevendo para a televisão, e a maioria deles não eram propriamente escritores. Por isso, ele diz, fizeram muitas escolhas que normalmente não são feitas na televisão, tanto na história quanto na execução.

Segundo Murai, eles deixaram suas mentes serem livres e escreveram o que resultou disso. Portanto, observa-se que “Atlanta” diferencia- se de muitos programas de televisão, especialmente no gênero de comédia, não apenas por suas nuances surrealistas na maneira de contar histórias, mas também em sua execução inusitada. Antes do trabalho na televisão, Hiro Murai trabalhava com vídeos musicais; tal experiência o inspirou para criar visuais diferentes na produção de “Atlanta”. E, por conta da natureza surrealista e imprevisível de “Atlanta”, Murai tem o trabalho de, ocasionalmente, tentar fazer com o que o espectador se sinta em perigo.

Em entrevista para o IndieWire, Murai explicou que, em muitas séries de comédia, se cria uma rede de segurança, e o espectador não espera que nada grave ou perigoso possa acontecer. Em “Atlanta”, existem momentos que são brutos e violentos, e Murai trabalha em balancear a tensão no fundo das cenas, mesmo enquanto piadas são feitas pelos personagens.

Para o diretor, o importante é tratar as cenas de perigo e tensão da mesma forma que trataria uma cena cômica, para que se cause a sensação de estranhamento típica da série. A cidade de Atlanta torna-se, de certa forma, uma personagem na série, a qual é analisada a partir de suas diversas nuances, a dinâmica dos rappers dentro da cidade, e as situações e adversidades que acontecem quando se está inserido na mesma.

Sendo a sociedade pós-moderna uma sociedade movimentada pelos desejos, produções audiovisuais que seguem fórmulas e padrões são capazes de supri-los momentaneamente, favorecendo o hedonismo da pós-modernidade. Produções como “Atlanta” se diferenciam em sua estrutura e sua dinâmica por criar a sensação de estranhamento presente no surrealismo. Dessa maneira, atraí um público que busca por diferenciação, e busca se afastar das produções formulaicas e facilmente digeríveis da Indústria Cultural.

Em “Atlanta”, não se pode adivinhar o que vai acontecer em seguida, como em uma produção que segue fórmulas. Tal diferenciação e estranhamento atraí um público que não mais se identifica, ou procura compreender, a cultura dos desejos efêmeros, a qual a Indústria Cultural vê como aprovada pela “massa”. Em contraposição à uma produção formulaica, “Atlanta” não pode ser esquecida após o final de um episódio, e nem sempre passa sensações de bem-estar, pois não têm como objetivo. Tal como qualquer produção surrealista, não tem como objetivo, tampouco, apelar para a sociedade pós-moderna, mas sim criticá-la.

Em uma sociedade crítica e em busca constante por diferenciação, a falta de tentativa de apelo para um grande público torna-se seu maior apelo.