Recentemente, estive em São Paulo e pedi um carro de aplicativo para ver uma amiga. Eu, uma mulher sozinha, sempre fico desconfortável. Sento atrás do motorista. Geralmente desejo bom dia e sigo a viagem calada, acompanhando o caminho no celular. Dessa vez, excepcionalmente, o motorista estava falante e pediu para que eu guardasse o celular, já que São Paulo tem estado perigosa. Entendi o pedido e, apesar de um pouco ansiosa pela minha segurança para além de um possível assalto, guardei o aparelho e segui viagem.

O motorista seguiu fazendo comentários sobre como, para ele, era impensável uma pessoa deixar de pedir a opção de carro maior quando ia fazer compras no mercado. Que isso era absurdo, que era desrespeitoso. Eu, admito, estava um pouco incomodada, já que acho que alguns motoristas de carros de aplicativo pesam a mão e chegam a agir em desacordo com as próprias diretrizes das empresas para as quais trabalham. Concordei com ele, mas fiquei respondendo com cenários imaginários. Você pegaria a opção mais cara quando a mais barata te atende e já resolve seu problema?

Tentei, ali, encarar um pouco o meu incômodo: para ele, essa é a opção mais lógica. Existe a alternativa de carro maior, com mais espaço para compras, dentro do próprio aplicativo. Ele já não será custeado pela empresa caso algo aconteça. Se minhas compras sujassem o carro, ele teria de tirar do seu próprio salário para arcar com a limpeza (que, por sinal, provavelmente não seria muito bem remunerada também).

Bom dia, boa tarde, até logo, bom trabalho. Saí do carro e fui matutando sobre como atribuímos valores que jamais receberíamos pelo trabalho dos outros. Todos nós temos algo assim; achamos que fulano ou ciclano está cobrando “caro demais” por um serviço que nós mesmos não queremos fazer. Consulta psicológica, limpeza doméstica, cozinha de marmitas, unhas, cabelo, escola, maquiagem. Ou o que mais detesto, mas que sempre falei: “vamos dar prejuízo no rodízio”.

Não acredito que isso venha de um problema individual, de uma crônica falha de caráter ou de algum ataque proposital de quem está sempre buscando o menor custo. A questão é que estamos dessensibilizados (ou, nas palavras do temido Karl Marx, alienados) para o valor de todo o trabalho que existe por trás de um serviço ou produto. Existe o trabalho visível: aquela corrida de 20 minutos, a hora-aula, a sessão de terapia. Mas existe muito trabalho invisível e não remunerado em todas essas atividades.

A realidade é que produzir algo é caro. Este texto, por exemplo, me custou tempo (e dinheiro) e está envolto em pelo menos dez anos de formação, além da estrutura de que preciso dispor para poder escrevê-lo: o computador, a energia elétrica, os apetrechos que comprei. Óbvio, isso é algo que eu escolho fazer e que também posso escolher o valor pelo qual vendo. Assim como o motorista de aplicativo. Mas não significa, necessariamente, que essas transferências de valor são justas.

Por isso, hoje quero te convidar a pensar: o que é valor? E o que é trabalho? Por que nos dispomos a pagar tanto por algumas coisas e tão pouco por outras? E como podemos tentar encontrar formas de compensar que sejam mais justas? Especialmente no mundo em que vivemos.

O mundo de hoje tem muitas nuances a serem analisadas: não trabalhamos somente para produzir mercadorias; temos muita automatização e precarização de serviços; o estudo e a especialização tornaram-se muito mais caros, mas, simultaneamente, mais acessíveis. Em suma: estamos alienados das mercadorias que produzimos; estamos exaustos e sem garantias por parte das empresas para as quais trabalhamos; somos obrigados a executar funções braçais e de liderança e ainda temos que performar imparavelmente. Somos marcas ambulantes, tentando comprovar o valor de quem somos para obter qualquer tipo de compensação — ou, como Byung-Chul Han coloca:

A sociedade disciplinar de Foucault, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos.

(Han, 2017, p. 23. Grifo meu)

Enquanto consumidores, também somos colocados em uma posição de impotência, já que a produção é tão fragmentada que parece impossível compreender todo o valor associado a um bem ou serviço. Por exemplo, não concebemos o custo de formação de um profissional ou dos materiais que ele utiliza. O custo oculto de fazer as unhas. O que está por trás de pedir um carro de aplicativo? Ou mesmo tudo o que está embutido na entrega do seu jantar. Claro, sempre haverá aqueles dispostos a se aproveitar disso, cobrando centenas ou milhares de dólares por serviços sem embasamento ou sem nenhum tipo de análise de pares. Apesar dos trambiqueiros (que ainda são exceção) nós podemos consumir de maneira mais consciente e engajada, mesmo que na organização social na qual estamos inseridos hoje, pareça impossível.

Buscar alternativas locais pode ser uma boa alternativa para iniciar melhores hábitos de consumo. Produzir e vender na sua própria comunidade geralmente significa menos gastos e mais valor agregado circulando por ela. Mais do que valorizar o trabalho envolvido ali, isso também nos faz consumir menos, mas, em termos gerais, com maior qualidade. Além disso, colocar-se no lugar do outro quando compramos algo pode mudar nossa perspectiva sobre o que estamos consumindo: pergunte se você receberia o valor que aquela pessoa está cobrando para fazer o mesmo serviço.

Toda essa reflexão parece perder completamente o sentido quando penso que vivemos em um mundo em que existe tanta desigualdade: existem bilionários (um valor que, francamente, mal consigo imaginar) e existem pessoas sobrevivendo com menos de dois dólares por dia. Ainda assim, tento me agarrar à ideia de que pequenas ações podem fazer diferença, seja individualmente ou na minha comunidade. Está longe de resolver o problema, mas mudamos um pouco nossa forma de pensar o trabalho. Pelo menos enquanto não taxamos grandes fortunas.

Referências

Abílio, Ludmila Costhek. Uberização: a era do trabalhador just-in-time? Estudos Avançados, São Paulo, v. 34, n. 98, p. 111-126, abr. 2020. Han, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017. Marx, Karl. O capital: crítica da economia política: Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2013.