Giuliana Rodrigues
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Giuliana Rodrigues

Nasci carregando um nome italiano numa cidade aberta e fundada em sangue, suor e concreto. Giuliana Oliveira Rodrigues, ou Giu, para quem preferir. Minha mãe, uma pessoa muito mais interessante do que eu, me deu esse nome em homenagem a um padre que fez parte da sua infância, em uma cidadezinha do interior do Pará. Minha família é bastante espalhada: meu pai é carioca, meus avós moraram em todas as regiões e eu tenho pelo menos algum amigo ou familiar em cada canto do Brasil (o que é dizer muito, porque, francamente, olha o tamanho desse país). Então acho que faz sentido eu ter nascido em Brasília, uma cidade que também surgiu sob a égide de conectar as regiões e de ser uma mistura de culturas. Eu me orgulho disso, da ideia de que várias pessoas fazem e fizeram parte da minha história, e, para bem ou mal, eu fui marcada.

Aos 17 anos, entrei na Universidade de Brasília para me licenciar em História, e ali continuei estudando até concluir meu mestrado, em 2023. Sou historiadora e professora de formação. Em minha dissertação de mestrado, estudei o filósofo Günther Anders e suas considerações sobre tecnologia e totalitarismo. Durante a graduação, também me envolvi em diversos projetos, incluindo, mas não limitado à pesquisa acadêmica, extensão, trabalhos com educação popular, divulgação científica e cultivo de memória. Estagiei no Ministério da Justiça, no arquivo da Comissão da Verdade e participei do Projeto de Memória e Ditadura Militar nas escolas Públicas do Distrito Federal — extensão universitária que buscava conservar a memória do período. Foi aí que surgiu o ímpar interesse na Ditadura Militar e em suas consequências e intercorrências.

Atuei como professora desde os 19 anos. Levo o ofício com muita seriedade, já que vejo a importância da educação como agente de estruturação e mudança social. Ser regente foi uma experiência incrível e me fez acreditar em um futuro mais justo, empolgado em aprender, animado com a vida. Além de me botar em contato com pessoas fantásticas de uma geração completamente diferente. Continuei trabalhando como professora até que, em 2024, meu marido conseguiu uma oportunidade na Alemanha e decidimos nos mudar.

Vivi uma vida inteira em Brasília, cidade onde construí muito de quem sou hoje, onde fiz amigos e comecei a amar, onde aprendi a educar, onde criei a fundação de quem sou. Mas, de novo, acho que fez sentido ir embora. Estar em contato com outras pessoas, outras experiências, outras oportunidades. Ser também a pessoa que fala de ser brasileira, das minhas raízes rizomáticas que se espalham por aí, do meu lugar e da minha gente.

Mesmo longe da minha terra vermelha, continuo com os mesmos valores: a diversidade nos faz melhores, aprender é viver, educação é vida. Mais do que professora, eu me formei educadora e a educação… Ela acontece para muito além da sala de aula. Na forma que organizamos os nossos arredores, nos projetos que nos engajamos, nos nossos hobbies e nas nossas interações. Acredito muito que o conhecimento cresce a partir do contato, de ser colocado à prova, discutido, evidenciado, desafiado. Assim como nós.

Depois de me mudar, tive que reaprender a ser eu. Joan Didion já apontava para esse caminho, a escrita é uma forma de se investigar e reconhecer. Logo eu, que sempre me vi como obviamente uma professora, como educadora profissional, como alguém que seguiu o amor pela educação… Tive que me descobrir para além do trabalho, aquilo que sempre me definiu. Passei meses encarando o vazio que essa mudança deixou e me virei aos meus hobbies, àquilo que faço quando não estou sendo paga, vigiada ou coagida. Quando estou na mais temível das companhias e não há ninguém ao meu redor. Também foi algo paradoxal, já que sempre estive rodeada por muitas pessoas, e de repente me vi introspectiva.

Algumas coisas que sempre estiveram presentes começaram a se repetir: tomo notas compulsivamente. Minha cabeça é caótica e isso fez de mim alguém extremamente organizada e cuidadosa com meu cotidiano. Continuo anotando coisas aleatórias dos meus dias, o tempo todo. Corro frequentemente. Incrivelmente, atividade física é algo que adoro fazer e, em particular, correr me deixa muito feliz e tem um efeito terapêutico em mim. O futebol americano, que eu praticava em Brasília, ficou lá. Mas pelo menos trouxe esse pedacinho comigo. Também não trouxe as aulas de canto ou minha professora favorita. Mas ainda pratico canto por aqui, para o desespero dos meus vizinhos alemães.

Nesse processo, tenho visto que sou formada por uma soma de processos muito diferentes. Muito me apetece essa natureza curiosa, maravilhada pelas possibilidades que o mundo oferece, disposta a experimentar o que a vida tem a oferecer. Apesar do choque inicial, vir para a Alemanha me abriu para outras descobertas: aprendi alemão, estou mudando de área, aprendi a me comunicar melhor e a enxergar meus limites, viajei muito e descobri mais sobre quem sou. Por exemplo, agora sei que gostar do silêncio não é apenas uma prerrogativa dos meus vizinhos alemães e que, na verdade, minha própria companhia não é tão ruim assim.

Sou uma advogada do caos organizado, da bagunça, de permitir que as coisas aconteçam ao acaso, mas planejar ansiosamente tudo o que eu puder antever. Tenho tentado cultivar um encanto com as coisas pequenas da vida, algo que meus alunos me ensinaram. Mas também acho que precisamos de um certo pragmatismo e de estrutura. Como as vigas de concreto de Brasília. Minha formação e minha atuação como educadora até aqui são isso para mim: uma fundação. Daqui para frente, nem eu sei para onde vou.

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