Estamos em 2026, ano de eleições e Copa do Mundo. O primeiro despertará paixões; o segundo reacenderá o sonho do hexa. Então, vamos falar de um assunto que se relaciona diretamente com um e se correlaciona com o outro: a sucessão nos campos políticos.

Quando se fala em sucessão, tocamos num tema caro aos dois espectros do poder. A direita está refém da ausência de seu Messias. A esquerda torce para que seu líder máximo tenha vida longa. Hoje, vamos analisar alguns cenários e destrinchar como podem ser os próximos capítulos dessa “pornochanchada brasileira”. Comecemos pela direita e seus possíveis candidatos. Mas antes, vale compreender esse bloco fisiológico — só assim podemos especular com mais precisão.

Em tese, a direita brasileira é formada por pessoas ligadas ao mercado financeiro, ao empresariado, por religiosos que adotam a prosperidade material como pilar, por conservadores em pautas de costumes e, por fim, por defensores de um livre mercado agressivo e amplo. Também é importante destacar que esse espectro costuma ter maior domínio e capacidade de massificação nas redes sociais.

Com isso em mente, vamos aos nomes — começando por Flávio Bolsonaro.

Flávio surgiu semanas atrás como pré-candidato, escolhido por seu pai — segundo ele, claro. As pesquisas o colocam como um candidato mediano. Para estas eleições, pode ser que não chegue lá. Como líder, não me parece “tão Bolsonaro” a ponto de convencer os bolsonaristas; tampouco o vejo com perfil para tentar se vender como figura de centro.

Flávio precisa escolher: ou se radicaliza de vez e incorpora o discurso familiar em sua totalidade, ou busca um meio-termo mais palatável. O problema é simples: se moderar, pode atrair uns 20% do eleitorado, mas perde os 30% que o sobrenome carrega. Se abraçar a causa familiar, garante os 30%, mas vira persona non grata para o restante.

Ainda tem gente que diz que o imposto sobre herança no Brasil é barato. Pois bem: olha a “bomba” que ele herdou.

Na minha análise, ele enfrenta a escolha mais difícil: ser um vira-casaca ou ser um Bolsonaro raiz. Essa decisão — somada ao andamento da corrida — pode torná-lo viável ao Palácio do Planalto. E, claro, num eventual segundo turno, mesmo que seja um “parricida”, seu eleitorado jamais migraria para Lula. Talvez fazer o estilo João Sem-Braço até lá e, na campanha, tentar ser o mínimo bolsonarista possível seja uma estratégia vantajosa.

O próximo da lista, com um caminho igualmente incerto, é o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O ainda não candidato possui em seu currículo a incrível capacidade de criar sua própria competência. Talvez seja o mais novo entre os nomes relevantes, mas é quem acumula o maior número de bênçãos nos diversos setores da economia.

O grande problema de Tarcísio é ser apadrinhado do Bolsonaro “capital”, mas não do Bolsonaro “reino”. Ou seja: por mais que o pai tenha algum apreço, os filhos mantêm o desdém. E por um motivo simples: ele quer parte da herança — como um filho bastardo que aparece por último para reivindicar o trono. E ele não entra sozinho na sala do castelo: chega acompanhado de políticos profissionais que poderiam usar e abusar do capital eleitoral em disputa.

Assim, Tarcísio tenta ser, ao mesmo tempo, o homem de Bolsonaro e o homem de Gilberto Kassab. Dificilmente uma concubina de dois reis sobrevive ao fogo cruzado. Talvez ele precise escolher um dos mestres e segui-lo. O problema é que o bolsonarismo não costuma lidar bem com desertores. Será que Bolsonaro concederia um indulto a uma eventual traição?

A meu ver, não seria inteligente Tarcísio abandonar o governo de São Paulo para se arriscar na presidência. Ele deve se reeleger com facilidade — até agora, não surgiu adversário capaz de vencê-lo. O eleitorado paulista é conhecido por seu viés à direita. Se não há outro rei à direita, não será um plebeu à esquerda que tomará o trono.

Caso Tarcísio se arrisque à presidência, em algum momento terá de confrontar um Bolsonaro. Se Flávio optar pela radicalização, Tarcísio se oporia? Viraria um vira-casaca? Não parece inteligente. Se Flávio bancar o moderado, Tarcísio se radicalizaria? Dificilmente convenceria o bolsonarismo de que é mais Bolsonaro que os herdeiros. Deixaria de ser o filho bastardo?

E mais: Flávio deixaria sua herança escorrer pelas mãos? Ou combateria o tarcisismo? Eles podem até se unir no segundo turno para lamber as feridas, mas no primeiro terão de trocar acusações, ameaças e farpas. O bolsonarismo não gosta de candidato frouxo. Então, não funciona se ambos forem passivos.

Temos, portanto, dois leões que podem se aliar e disputar um pedaço de carne em 2030 — ou podem se destruir agora e correr o risco de a hiena levar tudo. Entre Scar e Mufasa, não me surpreenderia se o Zazu levasse essa.

Agora, invertendo o espectro, chegamos à esquerda e sua falta de sucessão. Enquanto a direita tem vários herdeiros, Lula parece não ter deixado descendentes — nem de sangue, nem bastardos. É aqui que a esquerda precisa colocar suas “barbas comunistas” de molho. Pode até levar 2026, mas quem disputa 2030? Hoje, alguns nomes fracos podem ser levantados: Fernando Haddad, Guilherme Boulos e talvez Gleisi Hoffmann.

Começando por Haddad: ele foi o herdeiro de Lula em 2018 e foi competitivo contra Bolsonaro no pré-bolsonarismo, quando o antipetismo ainda era o motor principal. Mas será que, no cenário atual, conseguiria se firmar como príncipe da esquerda? Ele fala bem, mas numa guerra de narrativas provavelmente seria engolido por qualquer candidato de direita. Assim, vejo-o como um candidato “testado” — e fraco.

Talvez, sem Lula, Haddad pudesse ganhar algum protagonismo. Mas o fato de ter sido considerado um prefeito fraco em São Paulo e de ser um ministro facilmente questionável pela direita o enfraquece numa possível corrida em 2030.

O próximo é Boulos, ativista social e político. Seu nome não é unânime nem na esquerda, muito menos no centro. Seria um candidato de nicho: combativo, mas pouco competitivo. Ao contrário de Haddad, Boulos não consegue unir seu próprio espectro — e dificilmente faria uma campanha que levasse o PT junto. Vimos isso em São Paulo. É carta fora do baralho.

Gleisi é uma boa política e poderia surgir num eventual duelo contra Michelle Bolsonaro, explorando o contraste mulher x mulher. Mas, considerando o machismo estrutural da política e da sociedade, é pouco provável que seja candidata. O PT tem suas raposas — e sem o raposão-mor, duvido que ela seja a herdeira. Uma campanha com uma candidata mulher, num mundo de fake news e verdades alternativas, seria um prato cheio para ataques. Se colocaram João Doria em uma orgia, imagine uma candidata mulher. Não há ética em campanhas políticas.

Por fim, poderíamos citar o atual vice, Geraldo Alckmin. Mas será que o PT iria nele como ele foi no PT? Essa via parece mão única. Ele poderia surgir como candidato do centrão — mas o centrão não tem eleitor.

E falando em centrão: quem são os candidatos? Quem ganhar, claro. O centrão não disputa — ele se adapta. É o amante profissional que divide o leito conforme a conveniência. Pode estar com Bolsonaro hoje, mas é como aquele amigo que fala mal do seu inimigo para você e, ao mesmo tempo, convive com ele em paz.