Sempre soube que, visto de cima, não passamos de meros pontos salpicados numa paisagem irrelevante. A uns valentes milhares de pés de altitude, a nossa insignificância é tão gritante que o olho nu nem sequer nos consegue detetar. Somos formigas de fato e gravata, ou de jeans e t-shirt corporativa, a correr de forma desenfreada em rodinhas de hamster que juramos, a pés juntos, serem as escadas para o sucesso.

Mas, cá em baixo, ao nível do solo, das máquinas de café e dos gabinetes banhados a luzes fluorescentes, sentimos que somos autênticos titãs.

E ainda bem!

Não fôssemos nós os portadores deste ego indomável, a raça humana seria de uma apatia existencial deprimente.

Basta consultar os escritos de Freud para percebermos que a nossa sobrevivência mental depende, em grande medida, desta maravilhosa ilusão de grandeza.

Corremos atrás de vários objetivos e sabemos que o trabalho acaba sempre por ser um meio para um fim, mas não nos deixamos ficar e encaramos a profissão como algo maior que isso, afinal, é aí que passamos a grande parte da nossa vida.

Esta arrogância cósmica afeta, logicamente, o nosso estilo de vida, as nossas escolhas e, de forma avassaladora, a nossa visão do mundo laboral. Ao longo da vida, vamos saltando obstáculos burocráticos, engolindo sapos em reuniões intermináveis e abraçando aquele sentimento inebriante de um trabalho bem feito. Trata-se do famoso “brio profissional”.

A nossa fome por oportunidades é voraz. Não fossem as novas gerações esta massa caricata, frenética e com o saudável défice de atenção necessário para querer abraçar o mundo todo de uma só vez.

Vivemos amarrados aos famosos “se’s”: “E se eu não for capaz?”, “E se eu falhar redondamente?”.

Abdicamos do risco pelo terror paralisante do arrependimento, esquecendo-nos, com uma conveniência quase poética, de que a angústia do que não foi feito dói muito mais, e ressoa muito mais fundo, do que a nódoa negra de um fracasso assumido.

Com isto, não quero de todo que pensem que não somos gratos. Longe disso. Somos o suprassumo da gratidão corporativa por cada migalha de oportunidade que nos atiram ao colo.

Sabemos agradecer!

Mas também sabemos exatamente o sangue, o suor e as horas de sono que nos custou para lá chegar. Não foi o tempo livre, os hobbies ou o badalado equilíbrio entre a vida pessoal e profissional que nos pagaram os galões, foi a entrega absoluta.

Definimos metas, desenhamos a régua e esquadro o nosso percurso, juramos lealdade à causa e vestimos a camisola até ela nos sufocar. Por isso, inevitavelmente, o estômago dá uma cambalhota quando o guião não segue a nossa caligrafia. É nessa exata altura de impotência que os crentes, com a melhor das intenções, nos atiram à cara com o velho e condescendente ditado: “Deus escreve direito por linhas tortas”. Uma metáfora fantástica para justificar que, de repente, alguém nos roubou a caneta das mãos e decidiu redigir o nosso futuro.

Porque o caminho é trilhado com afinco.

Damos as nossas horas pessoais e a nossa paz de espírito a uma entidade abstrata. E, no meio deste sacrifício quase romântico, a epifania bate à porta, descobrimos a verdade que no fundo não era desconhecida. Somos apenas mais um número numa folha cheia de quadrados. Damo-nos conta de que estamos apenas a pavimentar um percurso onde, no final do dia, somos assustadoramente fáceis de substituir.

O verdadeiro murro no estômago, contudo, nem sequer é o fracasso. É o sucesso decidido por terceiros. Porque, por vezes, o destino atira-nos exatamente para onde sempre sonhámos, para o papel que sempre ambicionámos!

Estamos felizes.

A ironia é tão deliciosa quanto sádica.

Ganhamos o prémio principal, mas não fomos nós a reclamar a rifa. A decisão, por muito incrível e proveitoso que seja o desfecho, não teve a nossa assinatura. E é aí que o tal ego, aquele que Freud nos narra, sangra em silêncio.

Ao sermos movidos no tabuleiro como meros peões de xadrez, por mais que a nova casa seja um autêntico paraíso profissional, fica a sensação fantasma de que falhámos no quadrado anterior.

De que fomos gentilmente convidados a sair.

Fica a certeza gélida de que fomos substituídos com a mesma facilidade, rapidez e indiferença com que se troca um tinteiro gasto na impressora do corredor.

Os desafios, subitamente, ganham um travo amargo.

Com tempo, com calma e com uma ponderação que nunca ninguém nos pediu, abdicámos da nossa vida pessoal para que tudo corresse bem. Entregámos o coração a uma pasta que, de um dia para o outro, já não nos pertence.

Recebemos o bilhete dourado, é certo, mas rasgaram-nos a ilusão do controlo.

E nós ficamos ali, a sorrir, a agradecer, lembrando-nos finalmente da derradeira hipocrisia do mercado de trabalho, a única coisa insubstituível nesta vida, ironicamente, é o tempo que perdemos a acreditar que nós o éramos.