Há poucas experiências tão reveladoras da condição humana como viver e tentar gerir um condomínio
Gerir um condomínio é, sem margem de dúvidas, uma das experiências mais pedagógicas (e desesperantes) da vida adulta. Há quem diga que devia ser incluído no currículo do secundário, na famigerada disciplina de Cidadania. Afinal, o que melhor representa a complexidade das relações humanas, a fragilidade da civilização e o caos organizado da democracia do que uma assembleia de condomínio?
Comecemos pelo óbvio: todos os prédios são problemáticos. Acho que ninguém refuta este fato. Uns porque estão velhos, outros porque são recentes demais; uns porque ficam num bairro social, onde há sempre obras a meio, crianças a jogar à bola nos corredores e um vizinho que acredita piamente que reggaeton às sete da manhã de domingo é um direito constitucional; outros porque estão em condomínios fechados onde se acha que reina o sossego até se ouvir dois poodles irritantes a guinchar e onde impera também o fascismo passivo-agressivo dos e-mails em Caps Lock trocados pelos diferentes condóminos (sempre gostei desta palavra) – assinados cordialmente por alguém chamado Eng. Dr. Sottomayor.
Mas o maior inimigo dos condomínios não são os vizinhos barulhentos, nem os elevadores avariados, nem tão pouco as canalizações centenárias com mais curvas do que coerência. O verdadeiro desafio está na gestão. A ilusão de que uma empresa de administração de condomínios resolve problemas é semelhante à ideia de que comprar um calendário resolve a falta de tempo: parece organizado, bonito até, mas, na verdade, os dias continuam caóticos.
As empresas de gestão cobram taxas generosas para… Bem, basicamente enviarem e-mails genéricos, ignorarem orçamentos, aparecerem uma vez por ano à reunião e dizerem: “Temos de consultar o jurídico.” Não há problema que não possa ser adiado com um “iremos avaliar a situação”. E, quando finalmente decidem “agir”, a ação resume-se a contratar alguém que, por sua vez, não aparece. Ou aparece, mas não tem competências (ou vontade) para resolver.
Do outro lado do espelho temos a gestão interna, feita por um pobre mártir que aceitou, por pena ou ingenuidade, ser o administrador do condomínio. Claro que fica sempre mais barato para todos, mas, atualmente, já são poucos os condomínios que funcionam com esta gestão. Este herói, que por vezes vai sendo substituído por outro condómino, depressa percebe que muitos moradores têm pagamentos em atraso, que ninguém lê os avisos na entrada e que toda e qualquer infiltração é, inevitavelmente, culpa do “vizinho”. O jogo favorito é o “passa a culpa” ou o que vai ser transmitido na TV logo no dia da tão importante e insubstituível reunião de condomínio.
Mas o cúmulo, meus amigos, o verdadeiro ponto alto desta novela de betão armado, aconteceu no prédio da minha namorada. Aquilo está tão mal, mas tão mal, que a própria empresa de administração de condomínios demitiu-se. Sim, leram bem. Não foi o administrador que desistiu. Foi a empresa contratada. Enviaram um e-mail formal, com assinatura digital e tudo, a dizer “Boa sorte com isso!” – talvez não com estas palavras, mas o espírito era esse. Quando até quem é pago para suportar a dor desiste, está tudo dito.
Há quem opte por morar numa moradia, tentando ao máximo fugir destes problemas. Mas desengane-se. Claro que viver numa moradia faz desaparecer alguns destes contratempos. Não há assembleias intermináveis, nem quotas mensais discutidas ao cêntimo, nem circulares afixadas pelo prédio a implorar civismo. A casa é só nossa, o telhado também, e, se houver uma infiltração, sabemos exatamente a quem culpar: a nós próprios. Esta clareza moral tem o seu encanto. Mas, ainda assim, não nos iludamos. A moradia não é a terra prometida da convivência humana; é apenas uma versão mais solitária do mesmo caos, com barreiras geográficas mais delimitadas e visíveis.
Na moradia, o conflito deixa de ser horizontal e passa a ser vertical… ou melhor, lateral. É o vizinho do lado que decide que cortar a relva às sete da manhã de sábado é perfeitamente razoável; é o outro que acha que o muro comum pode avançar uns centímetros “sem problema”. É a sensação constante de que tudo depende de nós: da lâmpada fundida à árvore que ameaça cair com o próximo temporal. Não há administrador a quem passar a “batata quente”, nem empresa a quem enviar e-mails. Aqui, o silêncio não é constrangido; é apenas pesado.
No fundo, a diferença entre um condomínio e uma moradia não é a ausência de problemas, mas a sua coreografia. Num sofre-se em conjunto, com atas e votações; no outro sofre-se sozinho, com a falsa ilusão de controle. E talvez seja por isso que os condomínios continuam a existir: porque, apesar de tudo, há qualquer coisa que nos faz sentir vivos e humanos ao dividir responsabilidades, mesmo quando ninguém as quer assumir.
Os condomínios são uma metáfora da nossa sociedade: cheios de regras que quase ninguém cumpre, reuniões a que ninguém quer ir, contas que ninguém quer pagar e problemas que ninguém quer assumir. Mas seguimos, parede com parede, partilhando canos e silêncios constrangidos no elevador. Porque, no final, viver em sociedade é isso: tentar manter o edifício de pé enquanto todos puxam para o seu lado… e ninguém quer ficar com as infiltrações do telhado de quem vive no último andar, nem com a casa de banho entupida de quem vive no rés-do-chão.















