O Concílio do Vaticano II ainda vigia e os antigos ainda choravam a morte do Sir Winston Spencer Churchill em 1965 quando um afluente professor da Universidade de Harvard publicou The troubled partnership: A Reappraisal of the Atlantic Alliance (New York: McGraw-Hill Book Co., 1965), imediatamente vertido ao francês como Malentendus translatlantiques.

Esse professor de Harvard chamava-se Henry Kissinger (1923-2023). Não estava em início de carreira e figurava bem longe de seu término. Publicou esse livro e chocou a opinião pública. Especialmente aquela atenta aos rumos da política e da diplomacia. Dessa maneira, cumprindo o propósito do livro, que foi feito para influir e incomodar. A obra esboça uma leitura inovadora do mundo e das relações internacionais, além de sugerir uma nova doutrina de política exterior para norte-americanos, europeus e ocidentais. Seu argumento é assentado sinteticamente em três premissas claras e simples.

A primeira admitindo que, depois de Stalin, morto em 1953, a União Soviética não era mais uma potência revolucionária.

A segunda indicando que, desde o início da presidência de John F. Kennedy (1917-1963), em 1961, os Estados Unidos não dispunham de condições materiais, espirituais nem morais para conduzir e manter a estabilidade do sistema internacional.

A terceira reconhecendo que, assim, restava adiante, aos Estados Unidos, abdicar de seu protagonismo absoluto sobre os negócios do mundo e forçar uma partilha pentagonal de responsabilidades, reunindo além de Washington e Moscou, a Comunidade Europeia, China e Japão, para cuidarem juntos da estabilidade do sistema internacional.

Uma leitura, sob quaisquer aspectos, arrojada para o momento e, portanto, uma provocação sem limites aos observadores europeus e norte-americanos nostálgicos dos tempos de Roosevelt, Churchill, Stalin e De Gaulle. Leitura e provocação que, assim, animaram intrigas em todos os lados. Especialmente entre aqueles que perceberam subitamente as suas idées reçus anacronizadas ao notar que o núcleo do argumento de Kissinger advogava que o moralismo messiânico, voluntarista e idealista dos tempos do presidente Wilson e do presidente Roosevelt não tinham mais razão de existir. Essencialmente porque nenhuma liderança norte-americana nem europeia seguia disposta a lutar até o último homem para garantir o world safe for democracy [mundo seguro para a democracia] como desejaram Wilson e Roosevelt. E, desse modo, beirava ao ridículo a pretensão da Europa e dos Estados Unidos de impor valores ocidentais em todas as partes.

Primeiro porque, decididamente, a crise de 1946-1947, que impôs o “retorno” – em verdade, permanência – dos norte-americanos para a Europa na forma de Plano Marshall e OTAN, ao fundo, demonstrou que a tentação universalista de Wilson e Roosevelt na institucionalização de valores não passara de uma ilusão.

Segundo que, agora, em 1965, em continuação ao que se vira em 1945-1947, ninguém além dos norte-americanos e europeus tinha alguma consideração positiva sobre a Europa, os Estados Unidos, o Ocidente e seus valores ocidentais. Fazendo-se, assim, necessário repensar-se os fundamentos da ação exterior norte-americana o mais urgentemente possível. Pois o mundo havia evoluído e mudado e a política exterior norte-americana parecia singrar no passado.

Eis a essência do argumento. Que chocou muita gente. Embora fosse natural aos leitores de Kissinger. Que desde A World Restored em 1957 caminhava nesse sentido.

A World Restored: Metternich, Castereagh and the problems of peace, 1812-1822 (New York: Echo point books & media, 1957) foi, inicialmente, um livro interessado no passado, ambientado no início do século XIX e focalizado nas escaramuças do Congresso de Viena. Mas, lendo-o com vagar e com os olhos nos headlines dos jornais, era um livro carregado de presente e ideias de futuro. Como uma análise de conjuntura prospectiva. Que defendia a estabilidade internacional como fundamento da paz. Notadamente após a emergência da era nuclear. Fazendo entender que destino da potência norte-americana dependeria da capacidade do Estados Unidos de renovar-se diante do novo mundo que exigia mais estabilidade e menos valores morais de pretensões universais.

Juntando-se os dois livros, a mensagem deles sugeria em essência uma desideologização das relações internacionais norte-americanas com a União Soviética e com o mundo, a diminuição da participação voluntarista dos Estados Unidos nos negócios do mundo e a ampliação da participação de novos atores – estatais e não-estatais – na estabilização do sistema internacional para a manutenção da paz.

Ou, traduzindo-se brutalmente, Kissinger admitia, pela primeira vez, que Les autres ne pensent pas comme nous [os outros não pensam como nós].

E não pensam mesmo. Mas à época resistiu-se a perceber-se.

Mas era um mundo novo e irresistível que começava a florescer após Churchill, após o concílio e após De Gaulle. Um mundo – por falta de momento melhor – balizado em 1968. Não simplesmente pelos protestos de maio em Paris nem pelo assassinato de Martin Luther King Jr. (1929-1968) em abril tampouco pela torpeza do AI-5 em dezembro no Brasil. Mas pela eleição de Richard Nixon (1913-1994) em novembro e pela sua incorporação imediata das premissas de Henry Kissinger em sua administração.