Não é de hoje que percebo uma tendência preocupante, mas que por muito tempo ignorei: os chamados “alunos médios” estão enfrentando dificuldades de aprendizado — e, para muitos deles, isso pouco importa. A universidade, para uma parcela crescente de estudantes, tornou-se apenas um meio para obter o diploma. Como se aquele papel colorido e oficial fosse, por si só, capaz de transformar suas vidas. Como se bastasse tê-lo em mãos para garantir ascensão social e profissional.
Hoje quero explorar esse fenômeno, que considero um dos maiores equívocos cometidos por quem frequenta o ensino superior — e uso “frequenta” com intenção. Porque há uma diferença entre estar presente e estar engajado.
No início da década de 2010, quando eu mesmo era universitário, já existia um grupo de alunos que estavam ali apenas pelo diploma. Em geral, eram mais velhos — na faixa dos 30 ou 40 anos — com carreiras já estabelecidas e buscavam uma recolocação ou promoção. Para eles, a universidade era uma ferramenta estratégica, um investimento.
Já os mais jovens, como eu na época, viam o ensino superior como uma oportunidade única. Muitos de nós trabalhávamos em subempregos e sonhávamos com um futuro melhor. A universidade era nossa chance de conquistar um lugar ao sol.
Hoje, o cenário se inverteu. Os alunos mais engajados são, em muitos casos, os mais velhos. Já os jovens parecem desmotivados, como se estivessem ali por obrigação ou conveniência. Essa inversão de valores se intensificou com a pandemia da Covid-19, que acelerou uma cultura de descompromisso com o aprendizado. Durante quase dois anos lecionando no ensino básico, observei um fenômeno curioso: os programas sociais criaram uma cultura da presença. Alunos que recebem benefícios costumam frequentar a escola com regularidade. Os que não recebem muitas vezes vão por imposição dos pais. Isso reduziu a evasão escolar — o que é positivo.
O problema está no rendimento. Apesar da presença constante, o desempenho é alarmante. Em uma sala com 40 alunos, apenas cerca de 15% realizam todas as atividades. Outros 30% fazem a maioria. Os demais — mais da metade — não produzem quase nada. Criou-se, assim, uma cultura de estar na escola, mas não de aprender.
Esses jovens agora chegam à universidade e se deparam com um ritmo diferente. O professor não tem a obrigação de fingir que o aluno aprendeu. E aí surge o muro. Mas, em vez de tentar escalá-lo, muitos preferem contorná-lo. A frase que mais ouço é: “Professor, meu ensino médio foi na pandemia, eu não tive aula.” Se o aluno reconhece sua defasagem, por que não corre atrás?
Infelizmente, a energia que poderia ser usada para recuperar o aprendizado é canalizada para justificar a própria estagnação. A cultura da presença chegou ao ensino superior, mas a cultura do aprendizado ainda não.
Recentemente, um aluno me disse que estava ali apenas pelo diploma. Outro afirmou que, se soubesse que a presença não seria computada, nem teria ido. Para muitos, frequentar a universidade é suficiente. Para outros, o diploma é visto como uma “bala de prata” para a carreira.
Mas será que é mesmo?
Olhando para os milhares — ou até milhões — de usuários do LinkedIn, parece que muitos profissionais sofrem por ter um currículo recheado demais. Eu mesmo enfrento isso. As empresas olham com desconfiança, como quem diz: “Vai me custar caro.” Já os que têm pouca formação são engolidos por aqueles mais bem qualificados.
Entretanto, há uma preferência clara por recém-formados: trabalham muito, ganham pouco. Basta observar o mercado da construção civil, onde engenheiros analistas recebem cerca de dois mil reais como pessoa jurídica.
O mercado sucateou as carreiras, e as carreiras estão sucateando os sonhos dos estudantes. Temos uma prensa esmagando de baixo para cima e de cima para baixo. Eu, como professor universitário, estou no meio disso — vendo o topo ruir e a base ceder.
Se o mercado recebe profissionais no atacado todos os anos e não consegue absorvê-los, como um estudante com uma formação inferior conseguirá competir com aquele mais bem preparado? Não falo nem da qualidade entre universidades, mas da comparação entre estudantes.
Vejamos: se o mercado absorver 50% dos formados, o aluno com baixo desempenho teria que estar na metade de cima da tabela de aprendizado. Talvez 50% seja até otimista. Mas o exemplo mostra o quão cruel pode ser o mercado para quem pouco se desenvolve.
Historicamente, o nosso país sempre priorizou vender barato, rápido e com pouquíssimo valor agregado. Isso acontece desde o Brasil colonial. Isso acontece agora no Brasil soberano. A graduação é o valor agregado do seu currículo, é aquilo que irá te habilitar a exercer uma atividade. O estudante precisa se ver uma joia bruta. Um cristal que precisa ser lapidado conforme as suas intenções.
O mercado; estágio; emprego podem te moldar do ponto de vista de processos, te fornecer o know-how de como aquilo é feito.
A universidade vai te fornecer a base, o entendimento de como aquilo chegou ali e por que é feito daquele jeito.
Se você pular a etapa da formação, poderá ainda ser um profissional bem-sucedido. Incompleto. Ainda assim, sucedido. Claro que se está ruim para quem se formou bem, imagine para quem se formou de maneira aquém.
Dê valor a cada etapa da sua vida, principalmente a universitária.















