Como é que chegamos ao ponto de ter 60 deputados extremistas na Assembleia da República, aquele que é o local da liberdade? O 25 de Abril está aí à porta, mas parece que cada vez mais diz menos ao país. Os resultados falam por si: em 2024 fomos às eleições e o Chega conseguiu colocar na Assembleia da República 50 deputados; um ano depois, felizmente, não conseguiu formar governo, mas é a segunda força política no país. Onde é que vamos parar? Por este andar, ou o Luís começa realmente a trabalhar e a levar o país para a frente, ou receio bem que daqui a quatro anos, quem vai formar governo é o Ventura, acompanhado da sua cobaia e restante da comitiva.

Compreendo que as pessoas estejam fartas das politiquices, do rangue-rangue a que acomodaram o país, para não falar das falsas promessas, mas não é o discurso de ódio e estilizado nas minorias que nos vai resolver os problemas e fazer sair da “cepa torta”. Também já percebemos há muito tempo que não vão ser os restantes partidos políticos a resolverem todos os problemas do país, por mais boa vontade que haja. Até porque o poder político em Portugal tem andado a pender entre o Partido Socialista e o Partido Social Democrata em 51 anos de democracia.

Vão dando a vez a uns e aos outros, mas a resolução dos problemas acaba por nunca aparecer, a culpa morre sempre solteira, as crises e as polémicas acumulam-se umas atrás das outras, tal é o reportório. Talvez por tudo isso, não fosse má ideia dar oportunidade aos restantes partidos que têm assento na Assembleia da República, exceto o Chega. Qualquer coisa será melhor do que a iminência de uma ditadura empossada pelo Ventura e sua comitiva.

Também tenho consciência de que só nos lembramos das celebrações quando estão a chegar, mas com o país e o mundo a caminharem para lugares cada vez mais sombrios, onde o extremismo e a violência têm cada vez mais força, seria importante refletirmos sobre o caminho que foi preciso ser feito para chegarmos a um país democrático.

A palavra democracia significa que o povo tem o poder de escolher quem o governa, ou seja, o povo tem sempre a última palavra. Em democracia, os cidadãos não são vistos como meros objetos de que o Estado dispõe a seu belo prazer e como mais lhe convém - isso acontecia no tempo do outro Senhor. A democracia veio dar à sociedade portuguesa uma lufada de ar fresco, não só em deveres, mas também em direitos. A instauração da democracia permitiu que as pessoas desenvolvessem o seu pensamento crítico, que estudassem e adquirissem conhecimentos e se desenvolvessem enquanto seres humanos. Trouxe evolução a um país e uma sociedade atarracados na pequenez, na obediência às regras e convenções, e sobretudo no atraso.

Enquanto a outros países da Europa, as pessoas eram livres para fazerem o que bem quisessem, eram mentalmente desenvolvidas assim como os países, aqui em Portugal, uma sardinha e um pão tinham de dar para a família toda, muitas casas não tinham luz, água canalizada nem aquecimento. Cultura? Só a que era aprovada pelo Estado. Ler um jornal? Só o que o Estado deixava que se publicasse – havia aquela máxima de que só se sabia aquilo que era conhecido; tudo o resto era pura especulação. Ou melhor, não existia, simplesmente. Tudo o que fosse novo ou desvirtuasse a moralidade e os bons costumes do paraíso à beira-mar plantado era censurado. Ou seja, nunca chegava às mãos do público.

Imaginem o que era agora, tantos anos passados após a queda da ditadura, vermos-nos metidos noutra outra vez. Os direitos desapareciam com um estalar de dedos rápido e nunca mais os víamos. Conhecimento e cultura eram outros dois que iam de vela. Os regimes ditatoriais querem pessoas ignorantes para manipularem como quiserem e bem entenderem, sem as pessoas se darem conta. Se fome, condições precárias nos mais diversos aspetos e feitios existem agora, num Portugal que “vai dando condições” para as pessoas viverem, numa ditadura mais existirão...

Não sei quanto a vocês, mas eu cá preferia continuar a viver numa democracia com todos os problemas que esta implica. Ainda posso dizer o que penso, sem colocar em causa a liberdade dos outros, assim como os seus direitos. Sei que não vou ser manipulada ou sofrer consequências hediondas por discordar de determinada medida do governo ou de qualquer entidade. Eu cá prefiro continuar a viver num país livre, onde sei que posso exercer os meus direitos, mas também tenho de cumprir com os meus deveres enquanto cidadã. Uma coisa não pode existir sem a outra, é a mesma coisa com os direitos e deveres, ninguém nos dá nada a troco de nada. Gosto de viver num país democrático porque posso exercitar a minha mente, lendo e consumindo o que quiser, sem quaisquer imposições estatais. E vocês, onde é que preferem viver?

A democracia não pode morrer, não depois de tudo o que foi conquistado. Vamos celebrá-la e mostrar aos fascistas que os ideais do 25 d’Abril estão vivos e recomendam-se!