Já faz algum tempo que por aqui, no meu Brasil, um movimento silencioso, lento e ardiloso mudou a cabeça das pessoas. De todas as idades, desde jovens até idosos. Todos compraram essa pauta. Afinal, quem não quer uma ideologia, uma pauta para chamar de sua, não é mesmo?
Nós sabemos que o regime de trabalho e de produção mudou ao longo dos anos. Nos primeiros séculos tínhamos o Brasil como um vassalo de Portugal. Depois da União Ibérica. Depois o curralzinho do Reino Unido. Depois da família imperial que cá estava. Depois dos cafeeiros e assim por diante.
Todos esses personagens têm uma coisa em comum: queriam explorar e usar até a última gota do suor do trabalhador. Entretanto, outrora, o trabalhador não tinha lá muita opção. Ora era trabalho forçado, escravo mesmo. Ora era para a subsistência. Só que, dessa vez, o trabalhador foi por conta própria para a boca do jacaré. Pois o sonho do oprimido é ser opressor. O sonho do escravo era ser capataz e do capataz era ser senhor.
O trabalhador comprou a boa e velha história do “empreendedor”, “seja seu patrão”, “pare de ser CLT, isso é coisa de fracassado”. Talvez você pense, mas esse Gabriel está militante demais. Talvez. Muito talvez. Estranho é quando você ouve isso da boca de uma criança de 8 anos. Aí, você percebe, estão indo forte na base.
Então, o trabalhador foi lá, pegou o seu carro, um bem durável, e transformou-o em trabalho. Agora o seu carro é uma ferramenta de ganhar dinheiro. É aquilo que irá transformar a sua realidade. O carro é sua fábrica. O carro é sua prestação de serviço. Só que isso só vai funcionar enquanto o app de corridas estiver funcionando. App + motorista + carro = dinheiro. Motorista + carro = cidadão que tem um bem.
E aí, percebeu? O bem de produção aqui não é o carro, é a infraestrutura do app. Aliás, o seu passageiro pode te tirar da jogada. Ele só precisa te dar nota baixa. O motorista, ele pode te dar um belo prejuízo, basta ele não encerrar a corrida paga com dinheiro vivo. Vejamos, você fornece a sua mão de obra, seu bem. A plataforma oferece a infraestrutura. Só que voilà, você não é funcionário dela. Apenas um parceiro.
O capitalista sem meio de produção é aquele que acredita ser dono do negócio, mas depende de uma estrutura que não controla — e que pode desligá-lo com um clique.
Quando falamos de uma estrutura formal de trabalho, protegida pelas leis trabalhistas, aqui conhecidas como CLT. Nesse modelo, o patrão, o detentor do capital, arca com todos os ônus e bônus do projeto. O funcionário troca o seu tempo/expertise por dinheiro. Então, temos o que os liberais chamariam de um modelo pouco eficiente. Pois o rendimento do trabalhador não está diretamente vinculado ao seu esforço.
No processo de modernização, as empresas começaram a trabalhar com comissões. Um salário base baixo e o ganho bruto viriam de uma performance. Um modelo mais próximo da lógica liberal. Acredito que para algumas profissões funcione bem, para outras, nem tanto. Nesse modelo é como se o patrão repartisse um pouco do ônus e do bônus ao funcionário.
Já no modelo atual, conhecido como uberização, a empresa simplesmente transferiu a maior parte do ônus ao parceiro. O bônus praticamente fica com ela. Isso acontece, pois a empresa fica com a parte mais simples da prestação de serviço: o app, a infraestrutura, os recebimentos e os repasses. Muitos não percebem, mas nesses dois últimos já é possível ganhar um bom dinheiro no país da SELIC em 15%.
Cada R$ 100 parados nos cofres da empresa rendem aproximadamente 4 centavos brutos em uma noite. Ou seja, estima-se que a Uber fature 700 milhões brutos todos os dias. Isso de um dia para o outro são apenas R$ 280.000 de renda só em overnight. Ou seja, pagar amanhã é sempre melhor que hoje.
Só que o motorista, dono de seu carro, sua fábrica de corridas, provavelmente escolhe os postos em que irá abastecer. Escolhe se irá comer ou não. Escolhe se é melhor esperar uma corrida que pague mais ou se aceita qualquer uma e ganha no atacado. Note que ele não é o capitalista. Ele é apenas mais um movendo o engenho dos senhorzinhos.
Enquanto a Casa Grande fala de overnight, os trabalhadores falam sobre se é possível almoçar ou não. Se vai sair mais cedo ou mais tarde. A casa grande, desde os tempos antigos, dizia que os escravos poderiam ter escravos. Os escravos que deixavam de ser escravos, quando encontravam ouro, compravam os seus escravos. E é assim até hoje.
Saíram os açoites; entraram as narrativas.
Recentemente, saíram várias notícias sobre a classe de motoristas de apps exigindo melhores condições de trabalho. Eu já vi isso acontecer antes, se chamavam sindicalistas. Eles faziam um negócio chamado greve. Eles negociavam em massa com o patrão. Só que, como se aperta o pescoço do parceiro? Parceiro esse que depende da infraestrutura.
Se o trabalhador virou um empreendedor sem capital, quem lucra com esse novo feudalismo digital?















