A Galeria Nave apresenta My mind is not a cage, uma exposição coletiva que reúne obras de artistas nacionais e internacionais em torno do corpo enquanto território contemporâneo — lugar de inscrição política, afetiva e simbólica — com curadoria de Mercedes Cerón e Catarina Pedroso.
Nos últimos anos, diversos estudos e relatórios internacionais (2023–2025) têm identificado o corpo como uma das principais tendências no panorama da arte contemporânea, frequentemente enquadrado como objeto de leitura sociopolítica. My mind is not a cage posiciona-se criticamente face a essa normalização, recusando a instrumentalização do corpo enquanto categoria de mercado ou tendência imposta por lógicas económicas.
“O corpo que atravessa esta exposição não se fecha numa forma, nem se deixa capturar pela imagem. Tal como a mente evocada no título — My mind is not a cage — o corpo aqui não é contenção, mas passagem. Não é limite, mas território aberto, permeável, em constante deslocamento. Um corpo que não se fixa, que se redefine na relação com o espaço, com o tempo e com aquilo que o atravessa.”... “Num presente que insiste no regresso da figura como promessa de reconhecimento e estabilidade, estas obras escolhem a recusa. Recusam o corpo como imagem estável, como identidade legível, como superfície de projecção. Em vez disso, deixam emergir um corpo feito de intensidades — fragmentado, expandido, por vezes ausente, por vezes excessivo. Um corpo que se aproxima do corpo sem órgãos de Deleuze e Guattari, onde a forma cede lugar ao fluxo e o sentido permanece em movimento.”, afirma Mercedes Cerón, fundadora da Galeria Nave.
Partindo dessa tensão — entre recusa e exploração crítica — a exposição apresenta um conjunto de obras que afirmam o corpo não como forma fixa, mas como campo de ação: um espaço múltiplo, atravessado por forças contraditórias, onde se inscrevem memória, desejo, poder e resistência.
“É neste enquadramento que, a partir do pensamento de Michel Foucault, entendemos o corpo como um dos principais territórios onde o poder se exerce, se reproduz e se torna visível. Em My mind is not a cage, o corpo surge simultaneamente como experiência perceptiva e como campo político, atravessado por normas, dispositivos de controlo e economias de desejo. Num contexto marcado pela erosão da soberania política e pela consolidação de formas contemporâneas de corporatocracia — onde estruturas corporativas e tecnológicas moldam profundamente a vida social — estas obras recusam o corpo como mercadoria ou superfície neutra, afirmando-o como espaço de resistência, fricção e possibilidade”, sublinha Catarina Pedroso, co-curadora da exposição.
Entre arquivo e superfície, máquina e ritual, o corpo é aqui pensado como lugar de memória, trauma e herança; como pele, máscara e autorrepresentação; como tecnocorpo, prótese e entidade pós-humana; como espaço de mutação e hibridismo; como gesto, performance e corpo coletivo; e como política íntima, onde se cruzam cuidado, protesto, eros e erosão.
A propósito do vídeo En algún lugar / Somewhere in, a artista Katherinne Fiedler salienta que "a obra evoca as múltiplas formas de vida que habitaram esta estrutura calcária — um búzio produzido por um molusco para garantir a sua sobrevivência — sugerindo a presença de um corpo ausente e revelando uma ligação que atravessa espécies. O que emerge é uma cena onde o erótico e o enigmático coexistem, sustentando uma tensão que permanece por resolver e convidando a um olhar íntimo, atento e suspenso.”
Através de diferentes linguagens — vídeo, instalação, fotografia, escultura, desenho, som e site specific— os artistas reunidos constroem um campo de reflexão que atravessa o íntimo e o político, o individual e o coletivo, questionando os limites entre liberdade, identidade e imposição social.













