Ponto final. Todo mundo sente quando ele se aproxima. Aquela sensação que não acabou ainda, mas pouco se pode fazer, pois o novo bate à porta. O fim nos lembra do desapego do que foi e da abertura para o que vem. O desconhecido nos assombra, estamos tão perto dele que não conseguimos vê-lo com clareza, as possibilidades em semente são apenas promessas.

Amor não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar.

Fim da linha. E agora? Por onde seguir? Qual o trilho pode guiar para o que ainda não tem direção? Só os passos vão dizer. Construir o caminho com novas experiências faz o presente rumo ao destino, rumo aos novos fins.

Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu já nem lembro pronde mesmo que eu vou
Mas vou até o fim.

Fim do túnel. É o sobrenome de dezembro. Aquela melancolia sobre o tempo: o que passou, o que não sobrou, o que foi desperdiçado, o que foi negado, o que vai faltar para fazer um monte de coisas... Ao contrário do fundo do poço, no fim do túnel há uma luz. A vida pode se acender. Continuamos do outro lado.

Pra que mentir e
fingir que o horizonte
termina ali defronte
e a ponte acaba aqui?
vamos seguir
reinventar o espaço
juntos, manter o passo
não ter cansaço
não crer no fim
o fim do amor, oh, não
alguma dor, talvez, sim
que a luz nasce da escuridão
guarde tudo em seu coração.

Fim do dia. O pôr do sol anuncia mais um fim no ritmo circadiano. Ninguém sofre porque ninguém vê. Dia e noite já não fazem diferença. O automatismo só faz acordar no fim do ano, quando as luzes de natal acendem ou quando começam as retrospectivas. Como assim? Já acabou? O sininho do Papai Noel toca o terror do consumismo e da euforia, e depois vem o recomeço. Se cada dia fosse como um ano, ao fim do dia comemoraríamos a existência. Ainda respiramos.

Mas de repente
a madrugada mudou
e certamente
aquele trem já passou
e se passou, passou
daqui pra melhor
foi
só quero saber do que pode dar certo
não tenho tempo a perder
só quero saber do que pode dar certo

Fim do mês. Um ciclo que se repete dentro do macrocosmos, a fatia de tempo que o mês ocupa também traz suas apreensões. A luta cotidiana, o aperto da falta de dinheiro, o salário que não estica até o dia 30, a angústia de mais um fim. A confiança no terceiro dia útil indica um novo começo. Que alívio.

E o fim do mês vem outra vez
do fim do mês, já sou freguês
eu já paguei o meu pecado na capela
sob a luz de sete velas que eu comprei pro meu senhor do Bonfim
olhai por mim
ainda bem que no mês que vem,
posso morrer, já tenho meu tumbão.

Fim do mundo. O desespero do caos anuncia o fim dos tempos? A possibilidade deste fim amedronta ou alivia? As atrocidades e injustiças servem para o crescimento da sociedade? Alguma vez teve conserto ou é melhor começar tudo de novo? A esperança é a miséria do mundo ou a salvação?

Se as peças estão todas soltas
e nada mais se encaixa
isso é só o fim
sempre acorda angustiado
e apressado, vai pra rua
mesmo assim acordado
o pesadelo continua
isso é só o fim, só o fim.

Fim do fim. O fim é temido, pode trazer desconforto, tristeza, mas a consciência de que a vida é uma eterna dança entre começo e fim, que muda de ritmo e melodia de acordo com os nossos passos, poderia não ser tão difícil. Desde que nascemos, deveria ser normal lidar com o fim, cada dia vivido é um dia a menos neste plano. A constatação de que só temos o presente momento parece um clichê, mas é a realidade. Geralmente, a afirmação vem acompanhada do conceito de carpe diem quam minimum credula póstero, a expressão estoica em latim que afirma: desfruta o instante, já que o futuro é incerto. Sem expectativa, não há sofrimento.

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
ou vestidos de luneta
passado presente
Participo sendo o mistério do planeta.

Fim do mistério. É o entendimento do fim como um recomeço. Sempre vale a pena recomeçar. Todo fim leva a um início, seja ele qual for. A impermanência é lei, melhor fluir no movimento. Nascer, morrer e renascer são verbos da vida, conjugados na experivivência de todos os tempos.

Tudo agora mesmo pode estar por um segundo.

Todo carnaval tem seu fim. A forma de medir o tempo, dividindo os dias em blocos de semanas, e estes em meses e o conjunto destes em anos, é uma maneira de organização social. Apenas. Não precisa se tornar uma prisão. A vida é fluxo. E tudo vai se transformando. Que aproveitemos a invenção do calendário para ressignificar o que precisa ser ressignificado. E que possamos, ao final de todos os anos, guardar os momentos de prazer e os que proporcionaram crescimento no baú das nossas memórias como guardamos a fantasia ao fim do carnaval: ano que vem tem mais.

Experienciar o tempo com amadurecimento neste ciclo sem fim que é a eternidade traz a presença de renascer a cada inspiração.

Em 2026, feliz inspiração nova a cada instante para os seres que respiram.