Vivemos numa era marcada pela conectividade digital em alta e pela globalização de modos de fazer, sentir e pensar, o que catalisa uma desconexão profunda. Deixamos de “fazer parte” de nós mesmos, de perceber o nosso corpo e compreender no silêncio do território vivo chamado intestino, onde o sentimento de pertença começa.

Isso mesmo, o sentimento de pertença não começa na mente ou no convívio social, mas é o resultado de triliões de microrganismos — micróbios, fungos, bactérias — que começam a se desenvolver no parto e moldam a nossa essência.

O parto vaginal e a amamentação materna são determinantes para a formação desta comunidade de seres invisíveis no corpo infantil. Ela influencia a longevidade, imunidade, qualidade do sono e até o seu rendimento desportivo.

Esses microrganismos comunicam-se com o cérebro para regular as funções corporais e influenciam o nosso estado de espírito, empatia e a convivência. A ciência contemporânea confirma a tese das antigas tradições: O intestino é o segundo cérebro.

Hermes Trismegisto afirmava: “O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está dentro é como o que está fora”. Este centro influencia diretamente o nosso humor, memória, emoções, imunidade, decisões e como nos relacionamos.

Ele é a origem do vínculo, resultado das interações químicas dos compostos libertados na corrente sanguínea. Revistas como Nature Reviews Neuroscience e Frontiers in Psychiatry mostram que a comunicação do eixo intestino-cérebro determina a nossa perceção de segurança, bem-estar e conexão com o mundo.

Através do nervo vago, os neurónios recebem sinais químicos da microbiota intestinal e modulam respostas. Se o ecossistema interno está desequilibrado, a nossa relação com o entorno também estará e corpos desconectados são territórios esvaziados.

Quando o mal invisível da não pertença se espalha, os corpos, as famílias e as comunidades deterioram-se. A vida humana tem raízes sensoriais. Olhos, boca, nariz, ouvidos, mãos, pele dialogam. Mas a grande questão é a desconexão.

Quem não tem uma planta no quintal que não sabe o seu nome, se ela é comestível ou danosa se ingerida? Quem reconhece o cheiro de terra molhada? Já colheu uma fruta do pé e degustou?

Ou, confessa, tem um vizinho de porta que não sabe o nome e nunca ouviu a sua voz? Se não escutamos o nosso intestino que é um dos nossos centros, como podemos escutar o outro? Como entender a nossa ligação com a Terra?

Resultado: ao silenciar os nossos sentidos, desligamos o corpo físico da alma. Crianças que não desenvolvem o senso de pertença aprendem a duvidar do seu próprio valor e povos que não conhecem o seu território não o valorizam.

A pertença não se impõe. Ela cultiva-se. Ensinar as crianças a cuidar de si é plantar sementes de consciência, pois sem ela o corpo adoece. A falta de pertença manifesta-se em depressão, vícios, apatia e indiferença ecológica.

O futuro é feito de vínculos. O estilo de vida urbano e sedentário baseado em stress e alimentos altamente processados levou a uma perda maciça de bactérias. A simplificação da nossa microbiota reflete na perda da biodiversidade terrestre e o reflexo é o declínio cognitivo observado.

Somos o que digerimos. Um corpo nutrido, que respira ritmado, que tem vínculos com a Terra e sentimento de pertença é um corpo que sabe quem é. Não se permite ser definido pela métrica alheia. Faz diferença porque tem presença.

E existe uma grande diferença entre pertencer e encaixar. Pertença é habitar com raízes e encaixar é abandonar a autenticidade e moldar-se ao conveniente. Pertença é presença, é consciência, é estar enraizado, é a inquilina do cuidado.

Ao longo da vida trocamos microbiota com o ambiente. Quanto mais ampla for a nossa microbiota, mais saudáveis seremos individualmente. Não obstante, quanto maior for a nossa interação com o entorno que nos rodeia, a pertença se solidifica.

A microbiota saudável é uma metáfora viva de uma comunidade equilibrada, onde há cooperação, troca, cooperação e comunicação eficiente. Ela é uma integração eficiente, onde cada microrganismo tem uma função e a cumpre em interdependência.

Cuidar deste solo invisível é fomentar uma sociedade saudável, onde vozes diferentes coexistem e o equilíbrio é expresso não por uniformidade e sim pela sabedoria integrada, que leva à expansão do coletivo.

As colónias de microrganismos invisíveis que povoam o nosso intestino influenciam a saúde física e afetam o mais profundo da nossa essência. Encontrar o nosso território, sentir pertença, cultivar os sentidos é medicinal.

Porque o intestino é muito mais que um tubo de nove metros. Ele é um centro de sabedoria vivo e ancestral. Uma floresta interior, que bem nutrida, vibra no ritmo da vida em uníssono com todos os seres que habitam este espaço literal chamado Terra.

Se conhecemos e reconhecemos cuidamos. Como já dizia Sócrates:

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo.