O nosso mundo já foi um grande mundo - com mentes geniais, descobertas extraordinárias e conexões verdadeiras — mas hoje, não se parece mais com o mundo que já foi. Presenciamos, atentos, a transformação e o renascimento de um novo mundo: totalmente conectado, nitidamente estressado e parcialmente doente.

Este novo mundo, que clama por likes, matches virtuais e milhões de visualizações, não surgiu do além. Ele, nada mais é, do que um upgrade de uma engrenagem antiga da psique humana: a dependência emocional, que não nasceu com a internet, mas nela encontrou seu novo palco — e os principais fundamentos que nos ajudam a compreender como essa transformação se deu vêm da psicanálise freudiana. Vem saber se Freud realmente explica como a dependência emocional se apresenta na era da informação.

Em diversos estudos, Sigmund Freud mostrou que nós, seres humanos, precisamos de aprovação externa constante para regular nossa autoestima e essa comparação entre o que somos e o que queremos ser, ele nomeou de ‘Ideal do Eu’. Para aliviar a distância entre um e outro, buscamos reconhecimento em quem está fora de nós... ou seja, investimos nossa energia nas pessoas que nos alimentam ou em quem é um reflexo de nós mesmos. No fim das contas, a dependência emocional é uma forma de manter nosso amor próprio vivo, mas sempre refém de alguma coisa ou alguém.

Quando pensamos nesse mecanismo estrutural, também entendemos que ele se projeta em diferentes grupos sociais, como na família, nos amigos, na comunidade, nas relações profissionais, nas tradições, nos líderes políticos, nas instituições religiosas e até nos deuses que cada um de nós cultua diante de sua própria fé. O fato é que, do grande mundo de descobertas para um mundo totalmente conectado, o que realmente mudou não foi a necessidade e, sim o objeto: antes era a validação de figuras de autoridade, agora são números digitais que ditam e medem nosso valor. No entanto, existe um segredo escondido por trás das cortinas (ou dos algoritmos), que Sigmund Freud pode explicar.

Existe, dentro de cada um, a tendência inconsciente de reviver padrões de perda e frustração, a qual Freud chamava de ‘compulsão à repetição’, que hoje é representada, claramente, pelos feeds infinitos que rolamos em tantas redes sociais desde o momento em que acordamos. Cada like, mensagem, compartilhamento, republicação, comentário e conteúdo salvo, torna-se uma pequena cena repetida e quanto mais buscamos, mais caímos dentro de um ciclo de prisão. Não se engane: as notificações que aparecem em seu celular são programadas para te prender em tela, funcionam como um colo digital, entregando doses hiper-rápidas de atenção que lembram os cuidados da infância.

Sim, não tem para onde escapar... tudo volta para a infância — e Freud realmente explica.

Todo esse cenário (árido e desgastado), fortalece o que Freud chamou de ‘supereu’ ou ‘superego’, que é aquela voz crítica, exigente — e irritante — dentro de nós. Então, se antes ela já se manifestava no peso das normas sociais, agora ela ganha um volume incontornável nas comparações com os recortes das vidas editadas e "perfeitas" que navegam pela internet. Essa cobrança intensa em querer aquela vida fluida gera expectativas não cumpridas, a culpa por não ter e, obviamente, a necessidade de buscar um alívio imediato fora de si mesmo. É esse mal-estar crônico que Freud também já investigava na obra O Mal-Estar na Civilização (1930-1936) — só que hoje, infinitas vezes multiplicado por algoritmos treinados.

Ah... se Freud tivesse tido a oportunidade de viver na era da informação, com certeza, teria diversos cases de sucesso documentados.

Agora, sabe aquela sensação de quando uma publicação não atingiu o engajamento esperado, ou aquela pessoa some sem enviar uma última mensagem, ou pior: quando você é bloqueado por alguém? Essa perda digital é semelhante ao processo psíquico do luto. Pasme: no mundo virtual, nós nem conseguimos elaborar esses lutos, pois a perda fica completamente suspensa, sem ser trabalhada e a cada vez que abrimos a tela, a reativamos pautada na autodesvalorização.

Essas reflexões rápidas nos levam a constatar que a dependência emocional não nasceu com o Instagram, o TikTok, o Twitter ou o Tinder: ela sempre existiu e continuará existindo, pois o ser humano sempre busca um novo objeto para deslocar o seu vazio interno, já que não consegue elaborar suas dores ou traumas, e por isso, quando confrontado por mágoas, as engole e muda de palco. Porém, os tempos modernos escancararam nossas fragilidades das piores formas possíveis.

O problema nunca foi a tecnologia ou como ela se comporta, mas tudo o que carregamos como sociedade coletiva e seres individuais que refletem neste uso incoerente, exacerbado e doente. Quanto mais negligenciarmos nossa criança interior que apenas busca colo e compreensão, mais dependentes ficaremos de tudo o que é externo e imediato. Entender o impacto que a era da informação reproduz em nossa autoimagem não é sobre criticar o universo digital ou devorar livros de Freud, mas simplesmente reconhecer que se não elaborarmos histórias e sentimentos internos, qualquer nova configuração de um mundo novo pode ser ameaçador e um terreno fértil para nos mantermos presos em um ciclo falido de estagnação psíquica.