No vestiário da academia escuto o diálogo entre um Personal Trainner e um aluno sobre a música que toca no sistema de som central:

—Música pobre, sem letra, poucas variações, batida repetitiva

—Prefiro escutar um bom rock, jazz ou blues.

Na sequência citam alguns nomes de grandes artistas destes gêneros musicais. Entreolham para mim, tentando sondar a minha opinião, porém a minha apreensão com o tempo para tomar banho, me arrumar, ir para o trabalho e o pouco interesse em debater com estranhos me “enchem de preguiça” para participar naquela discussão, preferindo concluir em pensamentos:

Somos repetitivos!
Além de cansativos...
Somos preconceituosamente repetitivos!

A música do debate em questão? O Funk!

Qualquer conhecimento básico da história da música brasileira nos leva ao entendimento de que o samba em seu surgimento, entre o final do século XIX e o início do século XX, enfrentou todos os preconceitos possíveis. Era considerado pobre, música de vagabundos, malandros, desocupados... marginais. Claro! Visto pela elite brasileira como música de gente pobre e preta.

Com a sua origem nas periferias e morros, surgindo dentre a parcela historicamente alijada da sociedade brasileira, era inconcebível compreendê-lo e aceitá-lo como uma manifestação cultural brasileira. Um estilo musical que se utilizava, majoritariamente, de instrumentos percussivos, com entonações, letras e danças que remetiam às religiões africanas, com certeza, era um total disparate para uma sociedade que tentava embranquecer-se.

O que fazer então com aquele estilo musical “inferior” ao padrão europeu? O que fazer com aqueles encontros de rodas de samba? O que fazer com aquela algazarra que não correspondia à moral e aos bons costumes da sociedade dominante? A resposta? A polícia resolve! A polícia se incumbia de administrar, reprimir, aniquilar aquela confusão. Solicito a ajuda da IA para me descrever o que possivelmente seria a manchete de algum jornal da época sobre o samba:

Mais uma vez, a polícia foi solicitada a intervir em um batuque na região central da cidade, onde indivíduos desocupados perturbavam a ordem e os bons costumes dos cidadãos de bem.

Visão ratificada por uma matéria da BBC News Brasil:

Tocar samba já foi motivo para ser preso no Brasil. Ou seja, ser sambista era sinônimo de ser "vadio" e, por associação, "bandido".

(21 fevereiro 2020)

A virada começou gradativamente a acontecer com a gravação do samba Pelo Telefone em 1916. A partir do sucesso dessa música, registrada como o primeiro samba, o gênero começou a ganhar visibilidade e passou a ser abordado de outras formas pela imprensa.

Volto meus pensamentos ao diálogo do vestiário... e o mais cômico de tudo é que ocorreu entre uma pessoa negra e outra parda. Reflito sobre quanto o racismo estrutural está entranhado em nossas vidas a ponto de reverberar ideias de mais de um século atrás entre pessoas negras!

... e o que falam do funk?

Melhor repetir primeiro...

Somos repetitivos!

Além de cansativos...

Somos preconceituosamente repetitivos!

Quando o funk surgiu no final do século passado (entre as décadas de 1980 e 1990), a impressão generalizada também era marcada por preconceitos e discriminações. O ritmo, mais uma vez, oriundo das periferias e favelas, era frequentemente associado à criminalidade, à violência e à extrema sexualidade, passando a ser alvo de uma forte estigmatização social.

Vista como “música de favelado” ou “música de pobre”, com ilações sobre sua ligação entre o tráfico de drogas e as facções criminosas, críticas às suas batidas repetitivas, letras e danças indecentes, a sociedade o desprezava e boa parte ainda segue o desprezando, considerando-o como uma manifestação cultural de classes sociais mais baixas, taxando-o como subcultura e sem valor artístico. Opa! Idêntico ao que escutei no vestiário!

Creio que a primeira grande artista do pop nacional a fazer uma ponte entre o funk e a produção musical dominante à época, aproximando-o ao grande público, indo além dos bairros periféricos, foi a Fernanda Abreu no álbum SLA Radical Dance Disco Club (1990) e, pouco mais tarde, derrubando de vez esta barreira com a potente mescla do pop com o funk dos álbuns Da Lata (1995) e Raio X (1997).

Suingue-balanço-funk
É o novo som na praça
Batuque-samba-funk
É veneno da lata
Suingue-balanço-funk
É o novo som na praça
Batuque-samba-funk
É veneno da lata
(Vamo' bater lata)

(Fernanda Abreu e Will Mowat)

Parafraseando a frase da IA que descreve uma manchete de jornal nos primórdios do samba, poderíamos dizer que a epígrafe a seguir serviria para os primórdios do funk (ou mesmo atualmente):

Mais uma vez, a polícia interveio em uma guerra de galeras iniciada num baile funk regado ao uso de drogas, música com linguagem pejorativa e tiroteios numa comunidade da cidade, onde indivíduos perturbavam a ordem e os bons costumes...

Enquanto a Fernanda Abreu fez a ponte para o público pop, mesclando o funk a outros ritmos, acredito que o Claudinho e Buchecha o popularizaram de vez. Por primeira vez, músicos originalmente vindos da periferia com o seu funk chegavam ao mainstream do pop nacional. Com eles o gênero alcançou todas as idades e classes sociais nos anos 1990. Com seus sucessos Nosso Sonho, Quero Te Encontrar e Só Love eles apresentaram um lado solar e otimista das favelas, ajudando a combater o preconceito contra o gênero, mostrando que a periferia também era lugar de poesia, amor e celebração familiar.

Nosso sonho não vai terminar
Desse jeito que você faz
Se o destino adjudicar
Esse amor poderá ser capaz, gatinha

(Claudinho e Buchecha)

Ressalto aqui que no meio musical, o artista considerado como grande responsável por valorizar e dar forma ao funk brasileiro é o DJ Marlboro.

Voltando àquele diálogo... “Ah! O jazz...”

... Somos repetitivos!

Seu surgimento dentro da sociedade estadunidense também foi marcado pela polarização. Indo do entusiasmo e da admiração das comunidades afro-americanas a fortes críticas e desprezo pela sociedade conservadora e pela elite branca.

Era tido como uma música bárbara e primitiva devido às suas raízes africanas. O percebiam de uma forma imoral e de gente de vida boêmia em função dos ambientes onde era produzido e tocado, normalmente em bares clandestinos e bordéis. Visto pelos eruditos como uma música barulhenta e caótica dos negros, mais uma vez em contraste com a música clássica europeia, considerada civilizada e superior. (Alguma semelhança com as percepções iniciais sobre o samba?)

Uma ameaça para a Juventude, para a moral e os bons costumes, pois atraia os jovens e os corrompia através das suas danças sensuais e de um estilo de vida boêmio e rebelde. Grande parte da ojeriza ao jazz era consequência da discriminação racial da época, afinal, a música era uma expressão da vida negra, logo, era vista como uma ameaça pela elite branca. Por outro lado, a comunidade negra a via como uma música de qualidade, pujante, energética e inovadora e com um poder vital de expressão e resistência em relação a segregação racial.

Apenas o tempo foi capaz de transpor as barreiras e o jazz passou a ser reconhecido como "a música clássica americana", passando a ser lecionado em conservatórios e universidades.

Não vamos nos delongar muito para falar dos primórdios do Blues e do Rock and roll né... afinal já sabemos...

... Somos preconceituosamente repetitivos!

Ao Rock existe uma origem duplamente preconceituosa... com o negro e com a mulher... Apesar da também resistência original ao estilo (por razões semelhantes às já comentadas), a percepção geral é que o rock tem um pai, quando na realidade ele tem mesmo é uma mãe! Afinal, entre o final da década de 1930 e meados da década de 1940 do século passado a Sister Rosetta Tharpe já tinha mesclado música gospel com swing e a distorção pesada da guitarra elétrica, com performances carismáticas e cheias de energia. O Chuck Berry “surgiu” com o rock apenas em meados dos anos 1950.

Poderíamos também comentar a aversão que o reggae já sofreu (ou ainda sofre), da música afro-baiana... e concluiríamos, quase sempre, que boa parte da repulsa a alguns estilos musicais está intrinsecamente casada com o preconceito racial.

Aos que diziam ou dizem que o jazz, o samba, o blues, o rock ou o funk tem excesso de sensualidade busquem entender:

  • O Bolero de Ravel: Sua estrutura crescente e repetitiva é comumente reconhecida por sua capacidade hipnótica, levando a um clímax sensual e orgástico.

  • "Tristão e Isolda" (Prelúdio e Liebestod) de Richard Wagner: com intensidade emocional frequentemente associada a uma representação do desejo sexual insatisfeito e do êxtase.

O que diziam os jornais da época? A imprensa usou termos como "febril", "excitante", "desespero, sensual" e "indecente" para descrever o impacto da música no público.

  • "Salomé" de Richard Strauss: Carregada de erotismo e desejo obsessivo.

... e os jornais da época? A classificavam como "doentio", "degenerado", "imoral" e "chocante". A "Dança dos Sete Véus" foi considerada obscena em muitos lugares

Bom, talvez tudo isto nos leve a uma pergunta:

Qual é a função da música?

A função da música é entreter, dançar, admirar, sentir, aprender...

Uma rápida pesquisa na internet (IA do Google) nos mostra que a música tem funções emocionais, cognitivas, sociais e culturais, atuando como um meio de expressão, comunicação e entretenimento, além de desempenhar papéis cruciais no desenvolvimento pessoal e na coesão social. Suas principais funções seriam:

  • Emocional: é um poderoso veículo para expressar e provocar diversos sentimentos, da alegria à tristeza, permitindo que as pessoas processem e compartilhem suas emoções (quem não tem uma canção que marcou o início de um relacionamento? Do Roberto Carlos, Djavan, Jão, da Gal Costa, Marisa Monte, Anavitória...).

  • Comunicação e linguagem: comunica ideias, narrativas e mensagens profundas, muitas vezes superando barreiras linguísticas e culturais (como não entender as mensagens do Bob Marley ou do John Lennon?).

  • Desenvolvimento cognitivo: ouvir ou praticar música estimula o cérebro, melhorando a memória, a concentração, o raciocínio lógico, a criatividade e a coordenação motora (música é matemática!).

  • Prazer estético e entretenimento: uma função fundamental é simplesmente fornecer prazer, divertimento e uma experiência estética gratificante (olha o gênero dançante aí!).

  • Coesão social e cultural: desempenha um papel vital na formação da identidade cultural, conectando pessoas, preservando tradições e validando normas sociais e rituais religiosos (praticamente toda a música negra nas américas nasceu por esta necessidade de autoafirmação).

  • Reação física: ritmo e melodia podem induzir respostas físicas, desde dançar até acalmar o corpo e a mente, sendo frequentemente usadas como estímulos para atividades físicas (identificou?).

  • Educação e terapia: é uma ferramenta importante na educação infantil e em terapias, auxiliando no desenvolvimento da linguagem oral, consciência corporal e bem-estar geral (a minha geração aprendeu com Vila Sésamo e Sítio do Pica-pau Amarelo, a dos meus filhos com Palavra Cantada, Galinha Pintadinha, dentre outros...).

  • Movimento social e protesto: historicamente, a música tem sido usada como uma força motriz em movimentos sociais, oferecendo uma plataforma para expressar descontentamento, promover solidariedade e inspirar mudanças (Olodum! Ilê Aiyê! O rap!).

Confesso que também já tive preconceito em relação a alguns estilos musicais. Tinha muita dificuldade em entender o Sertanejo pop/comercial. Apesar de não ser o meu estilo preferido, entendia perfeitamente a música sertaneja raiz, mas não tolerava o sertanejo pop. Até um dia viajar para Goiânia e compreender a sua essência, desde então passei a entendê-la, aceitá-la e deixar-me entreter.

Tampouco gosto ou gostava de tudo que era produzido na música baiana, a conhecida Axé Music. Para quem tinha se apaixonado pelas belas canções de protesto do Olodum combinadas com o novo ritmo que surgia (samba-reggae) ficava difícil entender a Timbalada com algumas letras que me pareciam sem sentido, tipo Água Mineral. Até que um dia uma amiga me disse: “Basta dançar! Não precisar pensar!” Foi quando relaxei e comecei a aproveitar...

Então... é isto... cada momento tem e pede sua música, escolha a que se encaixa melhor para cada instante, ocasião ou fase da sua vida sem muitos julgamentos... Relaxe e viva!

Ah! Quanto aquele diálogo no vestiário da academia, também pensei em simplesmente responder:

… Cheguei (Cheguei)
Cheguei chegando
Bagunçando a zorra toda
E que se dane
Eu quero mais é que se exploda
Porque ninguém vai estragar meu dia
Avisa lá, pode falar
...
Se não gosta, senta e chora

(canção da Ludmilla, composta por André Vieira e Wallace Vianna.)