Ayurveda é um sistema de cura que se desenvolveu no subcontinente indiano há milhares de anos.

Construído com base na observação dos ciclos da natureza, ele parte do princípio de que somos um reflexo do universo. Logo, o que acontece fora de nós reflete-se em nosso interior e vice-versa.

Se respeitamos as mudanças das estações, os horários de atividade e inatividade de cada dia, os sinais que o clima de cada região nos traz, a oferta de alimento que a natureza nos dá a cada época do ano, temos saúde. Mas, se violamos essas leis que regem todo o ecossistema planetário, adoecemos. Parece simples, não é?

Acontece que a nossa vida mudou muito de 5 mil anos para cá. E a saúde deixou de ser vista como um estado de bem-estar físico, mental, social e espiritual para se tornar uma corrida por performance. E, infelizmente, o Ayurveda está sendo invadido por essa mentalidade.

Vemos influencers exaltando rotinas quase militares, demonizando o ócio e ditando regras sobre o que deveríamos ou não fazer, comer ou pensar.

A ideia de uma rotina inflexível, cheia de regras e ditames, afasta quem poderia se beneficiar desse conhecimento ao mesmo tempo em que cria uma legião de pessoas engessadas, presas a tabelas, medidas e horários.

Mas será que é isso que o Ayurveda propõe?

Ayurveda: do conhecimento à sabedoria

Se você procurar pela internet, vai encontrar rapidamente que o significado de Ayurveda é “conhecimento da vida”. De uma forma simplória, podemos dizer que é isso mesmo. Mas se nos debruçarmos sobre a origem etimológica dessa palavra, poderemos encontrar um universo gigantesco de significados.

Para começar, Ayurveda deriva de outras duas palavras em sânscrito: ayus e veda.

Ayus deriva da raiz in gatau, que significa “aquilo que vai” ou “aquilo que desaparece”. Portanto, estamos falando de algo que é limitado aos nossos sentidos e que está em movimento. Ou seja, a vida como um percurso, uma jornada.

Veda, por sua vez, vem da raiz vid, que pode assumir muitos significados. Alguns deles são: conhecer, compreender, aprender e descobrir. Daí vem a ideia de “conhecimento da vida”. Mas vid também significa sentir, vivenciar, experimentar, ser e existir.

Quando olhamos apenas para o “conhecer”, fica fácil ditar regras, criar tabelas e aprisionar-se em dogmas. Fica simples criar “fórmulas mágicas” como shots de cúrcuma e limão todas as manhãs. Mas onde ficam o sentir, o vivenciar, o experimentar, o ser e o existir?

Cada pessoa é única, com suas vivências e experiências únicas. Com o seu sentir e o seu existir únicos. Nenhum de nós cabe em tabelas e fórmulas prontas. Cada um de nós tem uma jornada da vida.

Nessa jornada, conhecer o caminho é uma coisa. Experimentá-lo, vivenciá-lo, senti-lo é outra bem diferente. E é dessa experiência que nasce a sabedoria.

Perceba que não estamos falando de quantos livros foram lidos ou quantas informações foram decoradas. Isso é relativamente fácil de se fazer.

O que o Ayurveda propõe é a experiência real, aquela que é sentida pelo seu corpo, não pela sua mente. A vivência que fica gravada em cada uma das suas células, que traz memórias afetivas, que desperta sensações. Essa é a verdadeira sabedoria do Ayurveda.

Não há pressa no Ayurveda. Então por que estamos correndo?

Você já viu a natureza apressada para iniciar a primavera ou para dar fim ao verão? Já viu uma árvore marcando hora para dar flores e frutos? Não. Os únicos seres vivos que têm essa ânsia por velocidade somos nós, seres humanos.

Se o Ayurveda é baseado na observação da natureza, ele tampouco está preocupado com os tempos modernos. Então por que insistimos em acreditar que precisamos acordar todos os dias no mesmo exato horário e realizar exatamente as mesmas coisas, semana após semana?

Por que acreditamos que a melhor rotina para a pessoa A é a melhor rotina para nós? Por que acreditamos que precisamos correr contra o relógio para sabermos mais, quando a proposta do Ayurveda é justamente experimentar mais?

Pare e pense comigo: quanto tempo uma criança leva para aprender a andar? Quanto tempo levamos para aprender a ler? Algumas pessoas dirão algumas semanas, outras alguns meses. Outras, talvez, alguns anos. O tempo de cada pessoa é único. E só descobriremos qual é o nosso experimentando. Saindo da mente e vivendo no corpo. Tentando, errando e sentindo os efeitos disso.

Mas como podemos sentir os efeitos se o próximo dia já é uma nova grande maratona por fazer tudo de acordo com a cartilha de alguém? Não há tempo, concorda?

Por isso, meu convite hoje é para que você pare. Pare de perseguir um ideal e sinta os efeitos de algo simples, como beber uma xícara de café. Te fez bem ou te fez mal? Como você se sentiria se não tivesse bebido? Experimente também ficar sem esse café por um dia ou dois. Como seu corpo reage? — não a sua mente.

Experimente acordar mais cedo. Experimente acordar mais tarde. Sinta o prazer de comer um bolo de chocolate e o prazer de comer uma maçã. Vivencie o verão e o inverno e dê uma chance ao seu corpo de dizer o que ele prefere.

Pare de ouvir os outros para ouvir a si mesmo, à sua essência, à natureza que existe dentro de você.