Entramos naquela que esperaríamos ser a década d’Ouro há seis anos e d’Ouro pouco ou nada tem tido. Os três primeiros anos foram passados entre breves passeios na rua e meses encerrados em casa, por conta da pandemia da Covid-19. Quando deixou de ser considerada como emergência sanitária a nível mundial, a 5 de maio de 2023, as coisas a pouco e pouco voltaram ao normal. Mal pensando nós que mais estaria por vir. Já devíamos saber que uma desgraça numa vem só, não é verdade? Pois bem, no ano seguinte, a 24 de fevereiro de 2022, estava eu e mais uns amigos num jantar de celebração dos meus 22 anos, quando de um momento para o outro nos noticiários e nas redes só falava da invasão à Ucrânia.

Tal como a pandemia julgamos que o conflito se resolveria em poucas semanas, quando muito, alguns meses. Ora, passaram-se exatamente três anos desde que a guerra começou e pelo andar da carruagem não há fim à vista. No seguinte ano, em outubro de 2023, uma nova guerra começou entre Israel e Gaza. Daqui a uns anos quando as futuras gerações forem estudar o que se passou na década de 2020 já têm muito por onde pegar – de d’Ouro esta década nada está a ter antes pelo contrário – pessoas morreram, tanto pela epidemia como pelas guerras, países ficaram destruídos, as economias mundiais ressentiram-se. A ordem mundial alterou-se.

Quando eclodiu a pandemia e mais tarde foi “erradicada” para o esquecimento das pessoas pensei que era desta que a Humanidade iria aprender alguma coisa de bom. Num período, onde a vida passa a correr e como tal não temos tempo para nada, pensei genuinamente que as pessoas deixariam de olhar tanto para o seu umbigo. Que as pessoas, finalmente, iam tirar as palas que trazem nos olhos e passariam a ver as coisas de uma outra forma. Talvez, perceber que o mundo não gira à nossa volta, por mais que pense isso. Muitas vezes, quando achamos que estamos mal, no fundo poço, olhamos para o lado e vemos coisas bem piores do que a nossa realidade. Depois cogitamos com os nossos botões: afinal, existem pessoas em situações bem piores.

Ao fim e ao cabo, somos uns privilegiados num mundo cada vez mais perigoso e desumano. Temos comida na mesa todos os dias, temos o que vestir e como pagar as nossas contas. Temos um teto sobre a cabeça, quando muitas pessoas, de um momento para o outro, viram as suas casas destruídas, porque o seu país entrou em guerra. Conflito que não pediram, mas que arrastou muita gente inocente.

Neste mundo que hoje habitamos parece que as ações das pessoas já não são tomadas em consciência pesando os prós e os contras. Não. Cada vez mais, me parece que quanto mais inconscientes forem melhor e livre de quem vier questionar o quer que seja – pouco importa se se concorda ou não. Para quê? Desde que não nos afete diretamente olhamos para o lado e assobiamos esperando que não seja nada. Como diz o ditado vamos “passando por entre os pingos da chuva”, mas o jogo pode virar-se contra os jogadores. Para além das palas nos olhos e da sua inconsciência, a nossa sociedade está infestada de muitos males. Considero que os grandes males da nossa sociedade passam pela falta de empatia, pela inveja, pela ganância desmedida e pela incompreensão.

Ora pelas minhas contas, a pandemia e os conflitos armados que se desencadearam ao longo dos últimos anos, parecem não ter surtido grande efeito nesse sentido. Então o que irá tornar as pessoas mais empáticas e menos invejosas? Talvez, um bom ensinamento fosse experienciarmos o que outros viveram na pele. Ver o nosso país invadido por outrem, querermos dormir, mas não conseguimos porque estamos constantemente a ouvir bombas a cair e quando olhamos à nossa volta tudo o que vemos é destruição.

Ocorre-me também a fome e a miséria que os países da Europa enfrentaram nos dois pós-guerras do século XX, bem como as pessoas que foram enclausuradas nos campos de trabalhos forçados na Alemanha e não só. Quem diria que passados cento e muitos anos, em pleno século XXI, se voltaria a falar em guerra na Europa? Quanto mais que o continente estivesse a braços com uma guerra mesmo debaixo do seu nariz? E outra no Oriente? Quem pensaria que se voltaria a falar em armar a Europa “até aos dentes”?

Ainda assim, somos uns verdadeiros privilegiados, pois nunca soubemos o que era ter fome e não ter o que comer ou vermos a nossa liberdade e direitos cívicos serem-nos retirados. Mas não devemos tomar nada disto como garantido. Que estes últimos cincos anos que passaram tenham servido de alguma coisa, nem que não seja para aprendermos a ser mais compassivos uns com os outros e a sermos mais conscientes com as nossas decisões, que não nos afetam apenas a nós, mas também a quem está à nossa volta. Que 2026 seja um ano de mais sabedoria e menos conflitos! Essencialmente, sermos mais empáticos uns com os outros. Feliz Ano Novo!