Ao reler O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, torna-se inevitável perceber como um livro escrito há mais de quinhentos anos permanece impregnado de atualidade, oferecendo chaves interpretativas para compreender fenômenos políticos do século XXI. A obra, originalmente concebida como um tratado de aconselhamento para a família Médici, ultrapassou seu contexto imediato e se transformou em um dos textos mais influentes da história da ciência política.
Maquiavel, ao retirar a máscara moralizante da política, expôs sua mecânica essencial com uma franqueza até então inédita, e essa franqueza ecoa violentamente no mundo contemporâneo, marcado por crises de representatividade, disputas narrativas e tecnologias de comunicação que amplificam percepções e emoções sociais. O desconforto de ler Maquiavel hoje é, em verdade, o desconforto de reconhecer que, apesar da mudança nos instrumentos e nos cenários, as estruturas profundas da luta pelo poder continuam praticamente as mesmas.
A gênese de O Príncipe é inseparável do contexto convulsivo da Itália renascentista, fragmentada em cidades e estado e dilacerada por intrigas internas e invasões estrangeiras. Florença, Roma, Veneza e outras potências regionais conviviam com um cenário em que alianças se desmanchavam com a mesma rapidez com que eram costuradas. Maquiavel observou, de dentro da vida pública, a precariedade do poder, sua fragilidade diante da sorte, das circunstâncias e das paixões humanas. Essa experiência concreta, vivida entre embaixadas, negociações diplomáticas e a própria queda de Florença republicana, moldou sua visão profundamente pragmática.
A política, para ele, não era um campo de idealizações, mas de possibilidades reais, muitas vezes duras, contraditórias, imprevisíveis. Esse realismo atravessa as páginas de O Príncipe e ajuda a explicar por que o livro, século após século, ressurge como uma espécie de manual subterrâneo de governabilidade, mesmo ou talvez especialmente em sociedades que se pretendem democráticas e éticas.
Um dos eixos centrais da atualidade de Maquiavel é sua compreensão da natureza humana. Ele sustenta que os indivíduos são movidos por interesses, paixões e conveniências, e que essas forças tendem a prevalecer sobre a moral abstrata. Tal perspectiva foi vista, durante muito tempo, com desconfiança ou cinismo. Contudo, basta observar o cenário político atual para constatar que essa análise não perdeu força.
Governantes, partidos e até mesmo eleitores se movem em função de percepções imediatas, medos, expectativas e narrativas. A racionalidade pura raramente domina o processo político. A política identitária, o populismo, a segmentação algorítmica de campanhas e a guerra de informação nas redes sociais são manifestações contemporâneas dessa mesma lógica: compreender o comportamento humano é tão importante quanto formular políticas públicas.
A grande ruptura introduzida por Maquiavel consiste em separar a moral privada da moral política. Antes dele, imperava a visão aristotélica e cristã de que o governante deveria ser virtuoso, justo e moralmente exemplar. Maquiavel não nega a importância dessas qualidades, mas observa que, muitas vezes, comportamentos considerados moralmente reprováveis são indispensáveis para garantir a estabilidade do Estado. Isso não é uma defesa da tirania, como muitos acusaram, mas uma exposição do conflito trágico entre eficácia política e ética pessoal. A famosa pergunta sobre ser amado ou temido permanece, ainda hoje, um dilema central do exercício do poder. Presidentes, governadores, prefeitos, CEOs, magistrados e líderes de qualquer instituição enfrentam, diariamente, essa tensão entre agradar e impor, entre conciliar e decidir.
No contexto contemporâneo, essa relação ganha novas dimensões. Em sociedades hiperconectadas, a imagem do governante acaba se tornando um elemento tão importante quanto suas ações concretas. Uma decisão impopular pode ser tecnicamente necessária, mas seu custo em termos de desgaste político pode inviabilizar sua execução. A democracia midiática cria um ambiente em que o líder precisa equilibrar virtù, entendida como habilidade, coragem, inteligência prática, com a capacidade de manejar percepções públicas. A política se converte, em grande parte, em espetáculo, e o governante moderno precisa ser, simultaneamente, gestor, comunicador, estrategista e personagem. Maquiavel, se vivo hoje, provavelmente veria as redes sociais como armas tão potentes quanto os exércitos mercenários que tanto criticou.
Nesse cenário, o conceito de virtù ganha força renovada. Em Maquiavel, virtù não significa virtude moral, mas sim a capacidade de agir com inteligência, firmeza, prudência e audácia diante das circunstâncias. O político que depende apenas da fortuna, isto é, da sorte, do acaso, do ambiente favorável, está condenado à ruína quando o vento muda. A virtù é a habilidade de moldar a realidade ao invés de ser moldado por ela. Em um mundo marcado por crises econômicas, mudanças climáticas, tensões geopolíticas e transformações tecnológicas aceleradas, essa lição se torna crucial.
Líderes que aguardam passivamente o desenrolar dos acontecimentos, ao invés de agir estrategicamente, tornam-se vítimas da própria inércia. A pandemia de COVID-19, por exemplo, evidenciou a diferença entre governantes de virtù e governantes reféns da fortuna. Uns agiram com rapidez, coordenaram ações e preservaram vidas; outros se perderam em hesitações e discursos vazios, pagando alto preço político e social.
Outro aspecto da atualidade maquiaveliana reside na compreensão dos meios necessários para manter o poder. A política contemporânea não é dominada por exércitos ou muralhas, mas por informação. O controle narrativo, a capacidade de definir agendas, a habilidade de transformar percepções em convicções e sentimentos em votos tornaram-se ferramentas fundamentais de sobrevivência política. Maquiavel compreendeu que o governante precisa conhecer profundamente seu povo e antecipar seus movimentos. Hoje, isso ocorre por meio de pesquisas de opinião, análise de dados, segmentação comportamental e estratégias digitais que permitem falar "a cada grupo conforme sua linguagem". A personalização de discursos, típica de campanhas modernas, ecoa diretamente a ideia maquiaveliana de adaptar-se às circunstâncias.
As democracias atuais também se aproximam de Maquiavel quando observamos o fenômeno do populismo. A criação de inimigos, o apelo emocional, a simplificação excessiva de problemas complexos, a construção de uma narrativa de luta entre o “povo” e “as elites” são práticas recorrentes em diversas partes do mundo. Essas estratégias se alinham à compreensão maquiaveliana de que um governante precisa, muitas vezes, manipular símbolos e paixões coletivas para consolidar sua liderança. Maquiavel sabia que a política é, antes de tudo, disputa por legitimidade e que a legitimidade raramente depende apenas de argumentos racionais. A necessidade de criar coesão por meio da identificação de ameaças, reais ou imaginárias, é uma prática que ele observou em seu tempo e que continua presente em discursos políticos de direita e de esquerda, em países desenvolvidos ou em desenvolvimento.
Apesar de ser frequentemente identificado como defensor da manipulação, Maquiavel não propunha o engano como método universal. Pelo contrário, considerava a confiança pública um recurso essencial, que não deveria ser desperdiçado. Ele defendia que o governante deveria evitar ser odiado, e isso ainda é perceptível na política moderna. A perda de confiança pode ser devastadora, pois compromete não apenas a capacidade de governar, mas a própria autoridade moral. O escândalo, quando bem explorado pela oposição ou pelos meios de comunicação, pode destruir carreiras inteiras. Da mesma forma, uma gestão eficaz, transparente e consistente tende a fortalecer a legitimidade de um líder. Maquiavel reconheceria esse fenômeno como a relevância da chamada “aparência de virtude”, que não se trata de falsidade pura, mas da capacidade de demonstrar ao público valores que inspiram segurança e credibilidade.
Há, também, um elemento profundamente republicano em Maquiavel que hoje ganha nova leitura. Embora O Príncipe seja mais conhecido, sua obra Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio revela um autor comprometido com a participação popular e com a liberdade política. Maquiavel acreditava que o conflito entre o povo e os grandes não era negativo, mas essencial para a vitalidade da república. Essa visão encontra eco em debates contemporâneos sobre transparência, controle social e fortalecimento de instituições. Em tempos de polarização e descrença nas instituições democráticas, reler essa dimensão do pensamento maquiaveliana pode ajudar a compreender que a política moderna, para sobreviver, precisa incorporar mecanismos de controle e participação que reduzem abusos e ampliam a legitimidade.
Quando o filósofo Luiz Felipe Pondé afirma que Maquiavel "continua causando horror porque continua atual", ele traduz uma sensação comum: Maquiavel incomoda porque desmonta ilusões. Em uma época em que setores da sociedade exigem moralidade absoluta dos líderes, o pensamento maquiaveliano expõe a impossibilidade prática dessas expectativas. Os governantes, por mais bem-intencionados que sejam, operam em um campo permeado por conflitos, pressões, compromissos, limitações e circunstâncias imprevistas. Maquiavel nos obriga a reconhecer a dimensão trágica da política, essa arena em que não existe pureza absoluta, mas apenas escolhas, às vezes difíceis e imperfeitas.
A esse desconforto soma-se o fato de que o cidadão contemporâneo, munido de redes sociais, tornou-se simultaneamente fiscal e propagador político. Isso aumenta a exigência de transparência, mas também amplia a disseminação de julgamentos rápidos, narrativas polarizadas e informações falsas. A política, acelerada digitalmente, se torna mais sensível a crises de reputação e mais dependente de comunicação eficaz. A astúcia, nesse cenário, se transforma em habilidade técnica e midiática. Maquiavel, certamente, veria nos algoritmos das redes sociais um tipo moderno de fortuna: imprevisível, poderosa, capaz tanto de favorecer quanto de destruir um líder em questão de horas.
A atualidade de Maquiavel se reafirma também quando observamos como governos buscam equilibrar governabilidade e apoio popular. Muitas políticas públicas impopulares, embora necessárias, são adiadas para evitar desgaste político. Reformas fiscais, reestruturações administrativas, intervenções econômicas profundas e medidas de austeridade enfrentam resistências sociais e riscos eleitorais. O governante, consciente dessa dinâmica, busca momentos oportunos para agir, uma prática que Maquiavel descrevia como “aproveitar as marés da fortuna”. A política moderna, com ciclos eleitorais curtos e expectativas imediatistas, está repleta de exemplos de líderes que fracassaram por falta de timing, bem como de outros que prosperaram ao agir com precisão estratégica.
Se Maquiavel estivesse vivo, provavelmente ficaria intrigado com os novos mecanismos de controle social que ultrapassam a dimensão institucional. O julgamento constante da opinião pública, a vigilância midiática e a pressão internacional criam uma nova forma de contenção do poder. No entanto, também é verdade que muitos líderes aprenderam a manipular esses mesmos mecanismos, criando versões digitais do príncipe.
No que diz respeito à corrupção, outro tema que parece inevitável nas discussões atuais, Maquiavel não se surpreenderia. Ele via a corrupção não apenas como desvio moral, mas como consequência estrutural do enfraquecimento das instituições e do aumento da desigualdade. Para ele, sociedades corrompidas dificilmente geram líderes virtuosos. Da mesma forma, líderes corruptos tendem a proliferar quando a sociedade já perdeu sua capacidade de vigilância crítica. Esse ciclo é visível em muitos países hoje. A fragilidade institucional alimenta a corrupção, que por sua vez alimenta o descrédito da política, gerando terreno fértil para o populismo. A análise de Maquiavel permanece útil porque aponta não apenas sintomas, mas causas profundas dessa deterioração.
Outro fenômeno marcante do século XXI que dialoga com Maquiavel é a ascensão de líderes autoritários e a erosão gradual de democracias. Em muitos países, governantes legitimamente eleitos utilizam ferramentas democráticas para minar a própria democracia, manipulando informações, intimidando opositores, aparelhando instituições e explorando tensões sociais. Maquiavel descreveu mecanismos semelhantes em seu tempo. Ele sabia que a força nem sempre é necessária para conquistar o poder; muitas vezes, basta astúcia, apoio popular momentâneo e captura institucional subsequente. A atualidade dessa dinâmica é impressionante, e demonstra que a compreensão de Maquiavel do poder permanece profundamente relevante.
Por fim, é importante reconhecer que Maquiavel não queria ensinar governantes a serem tiranos, mas sim mostrar os caminhos possíveis para preservar o Estado e manter a ordem. Sua obra é um convite à responsabilidade política, não ao abuso. A política, para ele, só faz sentido se orientada para o bem comum, ainda que, em alguns momentos, isso exija decisões que desafiem a moral privada. A leitura de Maquiavel nos ensina não a imitar comportamentos antiéticos, mas a compreender a complexidade da arte de governar. Sua atualidade reside justamente nesse ponto: ao expor a realidade nua e crua da política, ele nos ajuda a entendê-la para que possamos aperfeiçoá-la.
Em tempos de fake news, polarização extrema, descrédito institucional e crises constantes, reler O Príncipe é mais do que um exercício intelectual; é um ato de lucidez. Ao lembrar que “os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio”, Maquiavel nos mostra que a natureza humana é o eixo constante em meio às transformações históricas. Por isso, quinhentos anos depois, sua obra continua sendo um espelho incômodo e indispensável para compreender a política atual.















