De repente, toda a gente tem opinião sobre tudo. E, mais do que isso, toda a gente sente que deve partilhá-la de alguma forma. Aliás, aqui estou eu a partilhar a minha. As redes sociais deram-nos um espaço sem filtro, sem editores, sem mediações. Antes, as conversas ficavam confinadas às mesas do café, aos almoços de família, aos corredores da escola ou do trabalho. Hoje, um comentário feito em segundos pode chegar a milhares de pessoas e ganhar força como se fosse uma verdade absoluta. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca estivemos tão perdidos nela.
Quando o mundo parou e a ciência foi chamada a dar respostas rápidas em plena pandemia do COVID-19, vimos, em tempo real, aquilo que normalmente acontece longe dos holofotes: a ciência a tatear, a corrigir-se, a mudar de posição à medida que novos dados surgiam. O problema é que a incerteza, que é a essência do conhecimento científico, foi interpretada como manipulação. Se as máscaras eram úteis num dia e questionadas no outro, então só podiam estar a mentir-nos. Se as vacinas foram feitas depressa, era porque havia interesses obscuros por detrás. Se os especialistas discordavam, era sinal de que ninguém sabia o que dizia. Abriu-se um precedente perigoso: a ideia de que tudo é orquestrado, tudo é jogo de interesses, tudo é mentira.
Dados científicos, estudos revistos por pares, estatísticas robustas… nada convence quem desconfia por princípio. A ciência, que deveria ser o melhor instrumento que temos para nos aproximar da realidade, transformou-se num não-argumento. Sempre que é citada, alguém riposta: “mas há estudos que dizem o contrário”. E sim, há sempre um estudo. Porque o conhecimento é vasto e, se procurarmos o suficiente, encontramos algum artigo fora do contexto, algum número isolado, para sustentar qualquer posição por mais absurda que seja.
A nossa relação com a autoridade do conhecimento foi mudando ao longo do tempo. Durante décadas, confiávamos que havia especialistas, jornalistas e instituições que faziam o trabalho de filtrar, contextualizar, explicar. Atualmente, qualquer pessoa pode gravar um vídeo a dizer a maior barbaridade e, em poucas horas, encontrar milhares de pessoas dispostas a acreditar. Não porque sejam menos inteligentes, mas porque vivem num ecossistema onde a verdade se mede por likes e partilhas. Essa visibilidade constante gera a sensação de que estamos rodeados de pessoas irracionais, quando, na verdade, apenas ganharam palco e alcance graças aos famigerados algoritmos. O que era conversa de nicho ganhou escala global.
Claro que não quero parecer ingénuo ao ponto de acreditar, que não existe manipulação em certos casos. Há interesses, há agendas, e é precisamente por isso que questionar é essencial e faz parte do próprio método científico. A ciência não é um conjunto de verdades imutáveis, mas uma bússola que nos orienta na aproximação possível à realidade. Aquilo a que chamamos “verdade” é sempre situado, contextual, construído num tempo e num lugar. Mas, apesar das suas limitações, é ainda o melhor instrumento que temos para distinguir o que é plausível do que é mera crença.
Se não nos guiarmos pela ciência, com todas as suas imperfeições e revisões, vamos orientar-nos a partir de quê? Da intuição? Do ruído das redes? Não é por acaso que teorias como o terraplanismo ganharam força. Algumas surgem quase como uma provocação, um exercício de diversão e impacto fácil nas redes sociais. Outras, encontram terreno fértil em pessoas que acreditam piamente nelas. E por quê? Porque alimentam a narrativa de que “nos querem manipular”, de que tudo o que é oficial é suspeito. Vivemos assim num desequilíbrio constante: questionar é essencial, mas quando a dúvida se torna absoluta, deixa de iluminar e passa apenas a cegar. Muita gente já percebeu isso e a prova disso mesmo é a crescente quantidade de sites e páginas nas redes sociais que partilham cada vez mais teorias de conspiração. Quem é que não tem curiosidade de ouvir, por mais descabido que seja, uma boa teoria da conspiração? Principalmente se for ao encontro dos nossos preconceitos ou ideias enviesadas, o que ganha ainda mais tração e lastro.
Quando todos são “vendidos”, todos se tornam equivalentes. Essa é a verdade inconveniente. As opiniões de quem estudou anos e de quem viu alguns vídeos no YouTube, ou explicações do tipo fast-food no Tik-Tok (e não food for thought), acabam no mesmo plano. E, num certo sentido, isso também serve de desculpa: se nada é certo, se tudo é manipulado, então não precisamos de mudar nada. A descrença torna-se confortável.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja a polarização em si, mas a desorientação. Falta-nos reconhecer que o saber é sempre provisório, mas não é por isso que tudo vale o mesmo. Falta-nos recuperar a humildade de ouvir sem a ânsia de responder, de perguntar sem já ter a resposta pronta. Enquanto isso, continuamos neste ruído infinito. E, no meio de tanta opinião, há cada vez menos espaço para escutar.















