Você já parou para pensar, mas pensar de verdade, o que aconteceria com a agricultura se a temperatura da Terra subisse 1 grau Celsius? Não como um exercício de futurologia distante, mas como uma realidade iminente. Então, a verdade, nua e crua, é que não estamos falando de um colapso instantâneo, mas sim do início de um desmonte silencioso e progressivo da nossa segurança alimentar. E o mais assustador? Já não se trata mais de "se", mas de "quão pior vai ficar".
Isso me lembra de quando olhamos para um termômetro com uma febre de 38°C. Para o corpo humano, um ou dois graus acima do normal já nos deixam prostrados, com o sistema em alerta máximo. O planeta é um organismo vivo e complexo, e a febre dele já chegou. Os dados científicos mais recentes são categóricos: a temperatura média global já está entre 1,2°C e 1,3°C mais alta do que nos níveis pré-industriais (1850-1900). O ano de 2023, do qual mal nos despedimos, não foi apenas quente; ele foi o ano mais quente já registrado na história. E sim, claro que pode aumentar mais. Estamos vivendo o problema agora, neste exato momento.
Quando penso nisso, a imagem que me vem à mente é a de um dominó. A primeira peça, o aumento da temperatura, já caiu. Agora, assistimos à queda das peças seguintes, uma por uma, em uma reação em cadeia que começa no campo e termina na nossa mesa.
Produções de imensa importância para a cultura e a economia brasileira começariam a cair drasticamente. Já parou para imaginar o Brasil sem a mesma fartura de feijão, milho e mandioca? São a base da nossa alimentação, a energia que move o país. O calor excessivo estressa essas plantas, interfere na fotossíntese, na floração e na formação dos grãos e raízes. Elas lutam para sobreviver em um ambiente que se torna cada vez mais hostil.
Considerando o nosso Brasil, com sua dimensão continental e diversidade de climas, o impacto seria devastador e desigual. Pense na região Nordeste. Imagina só: uma região que historicamente já luta com a escassez de água, enfrentando um calor ainda mais intenso. O que era semiárido caminha a passos largos para se tornar árido. A desertificação deixaria de ser uma ameaça em algumas áreas para se tornar uma cicatriz permanente na paisagem, engolindo pequenas propriedades, expulsando famílias do campo e tornando a agricultura de subsistência, que alimenta milhões, praticamente inviável. É uma tragédia social e ambiental anunciada.
E o café? Ah, o café... Eu gosto tanto de café que sou formada como técnica em cafeicultura. Não consigo imaginar minha rotina, meus momentos de pausa e concentração, sem meu cafezinho. É sério! Essa bebida, que é quase um patrimônio nacional, ficaria cada vez mais escassa e, consequentemente, mais cara. Mesmo nas tradicionais regiões produtoras do Sudeste e do Sul, a situação seria crítica. O cafeeiro arábica é uma planta extremamente sensível, que precisa de um equilíbrio delicado de temperatura e altitude para produzir grãos de qualidade. O calor excessivo queima as folhas e "aborta" as flores. É por isso que não vemos grandes plantações de café no Nordeste; o clima já não é propício. A mudança climática está, na prática, empurrando as lavouras de café "morro acima", em busca de um frescor que está desaparecendo.
E não se engane, o aquecimento não afetaria somente a produção vegetal. A cadeia produtiva é interligada. Isso me lembra de como tudo na natureza está conectado. A pecuária, por exemplo, sofreria imensamente. O gado, especialmente as raças europeias mais comuns no Brasil, sofre um profundo estresse térmico em altas temperaturas. O resultado? O estresse bovino diminui o apetite do animal, o que, por sua vez, reduz drasticamente a produção de leite e a taxa de natalidade. Menos leite, menos queijo, menos carne, menos bezerros. É um efeito cascata que impacta diretamente o produtor e o consumidor.
As pessoas andam entretidas na maioria das vezes, e eu até entendo. A vida moderna é corrida, cheia de boletos, telas e preocupações imediatas. A realidade das mudanças climáticas parece distante, um problema para cientistas ou para as gerações futuras. Mas a realidade só passa a ser pensada quando o impacto bate à nossa porta, quando o preço no supermercado dispara ou quando um alimento simplesmente some da prateleira. Eu gosto de observar os detalhes e pensar como aquela comida chegou até a minha mesa. Aquele pãozinho francês, o arroz com feijão, a xícara de café... cada um deles conta uma história de sol, chuva, solo e, acima de tudo, do trabalho de um agricultor. E você, reflete sobre isso também?
Eu dedico a maior parte do meu tempo tentando reverter uma situação mundial, com atitudes que possam parecer pequenas. Faço isso porque acredito firmemente que a minha atitude, somada com outras milhões de atitudes, pode chegar a conscientizar, educar e pressionar por mudanças muito maiores do que se espera. É como uma semente. Sozinha, parece insignificante, mas juntas, formam uma floresta. Se não frearmos o aquecimento, o planeta se tornará mais quente, e daí vêm as consequências inevitáveis.
Eu dei ênfase na agricultura não por acaso. Sou mestre em Engenharia Agrícola e Técnica Agrícola. Além disso, venho de uma família de agricultores. Eu vi de perto do preparo até a colheita. Eu sei o quanto a agricultura é importante, não só para mim, mas para o mundo. Ela é a base de tudo: da nossa comida, de muitas das nossas roupas, da nossa economia. Cuidar do planeta não é uma questão de ideologia, é uma questão de sobrevivência. É garantir que o prato de comida continue chegando à mesa de todos, hoje e amanhã. E essa, talvez, seja a tarefa mais urgente da nossa geração.















