Em 1987, há 38 anos, Wole Soyinka1 tornou-se o primeiro negro a receber um Nobel de Literatura, 27 anos depois que a Nigéria, seu país natal, se tornara independente. Seis anos depois, uma mulher negra norte-americana, Toni Morrison2, recebeu o Nobel de Literatura de 1993.
O reconhecimento da literatura desses escritores, foi um marco histórico que rompeu com o status quo vigente de exclusão, segregação e racialização da literatura de escritores negros. A realidade de pessoas não brancas e não Ocidentais receberem reconhecimento no Ocidente, é tão nova quanto a emergência dos Estados africanos contemporâneos e independentes, e o fim das leis de segregação nos Estados Unidos e na África do Sul.
A literatura africana contemporânea nasce nesse contexto de combate contra uma estrutura de poder racializada, contra o colonialismo que buscava apagar as culturas africanas e suas visões de mundo, contra uma cosmovisão que penetrava cada aspecto de suas vidas.
A literatura de Chinua Achebe3, nigeriano e igbo, uma das maiores etnias da Nigéria, queria que sua literatura mostrasse ao mundo que seu povo e o seu continente, em geral, não eram sinônimos de uma longa história de barbárie, mas que também são pessoas (Achebe; Moore, 2008, p.33), e seus livros celebravam a riqueza da cultura africana.
A literatura, para Achebe, tinha e tem o papel de “tornar nossa experiência no mundo melhor, para facilitar a nossa passagem pela vida” (Achebe, 2012, p.30). Essa missão não foi seguida apenas por ele. Ao lermos Ngũgĩ wa Thiong’o ou Wole Soyinka, estaremos a conhecer o mundo social e intelectual dos quicuios e dos iorubás, respectivamente, famosos por sua rica mitologia e sistema religioso centrado no culto aos Orixás e a uma divindade suprema, Oludumaré. Esses povos se destacaram também na metalurgia (bronze e cobre), escultura em madeira, tecelagem e cerâmica.
Na Nigéria, por exemplo, Mabel Segun4 e Adaora Lily Ulasi5 fizeram parte da primeira geração de escritoras do país e as quais abriram as portas para outras mulheres escritoras que, por sua vez, adentraram ao cenário de produção literária com maior intensidade a partir da década de 1970 e 1980. É nesse momento que romancistas como Buchi Emecheta e Flora Nwapa escrevem suas obras ressaltando o lugar das mulheres nesse cenário tomado não pela barbárie, mas pela humanidade.
Deste modo, podemos verificar a história do árduo trabalho de pessoas que precisaram se afirmar como pessoas. Que tiveram que demonstrar não só aos outros, mas a si mesmos e aos seus conterrâneos, que eles possuem valor. Que eles são humanos e a sua cultura tem tanto valor e importância, como outras, depois de quase cinco séculos de tentativas de se provar o contrário. E a literatura oferece essa possibilidade.
Esses autores que tiveram as suas primeiras publicações nas décadas de 1950 e 1960, tiveram as suas obras mediadas pelo racismo e pelo eurocentrismo predominantes na época. Enquanto o racismo procurava inferiorizar tudo que é africano, negro e de origem não europeia, o eurocentrismo tratava de questionar anular qualquer forma de pensar que não fosse europeia e de matriz greco-romana-cristã, para assim invalidar e apagar culturas e línguas africanas.
Portanto, o que vemos desses autores pioneiros nessa luta, foi a perspicácia, coragem e persistência em enfrentar o mundo Ocidental que queria fazer crer que África era um deserto em todos os aspectos humanos.
Com as obras de Soyinka, por exemplo, penetramos no mundo iorubá e sua rica cultura e mentalidade. Aprendemos que o povo iorubá possui suas peculiaridades e se trata de uma rica civilização, diferente daquilo que argumentavam os críticos da literatura africana. Em Ngũgĩ wa Thiong’o, nós encontramos a luta do povo quicuio contra o colonialismo.
Rebeka Njau procurou resgatar o lugar da mulher africana/queniana na literatura e na história africana. Ela estava dando início à luta pela emancipação e empoderamento do papel das mulheres africanas e sua relevância no continente.
Portanto, ao se ler a literatura africana fica-se à par do que ela precisou fazer para se afirmar frente um mundo afro-pessimista em todos os sentidos. A literatura africana fez e faz parte de um longo e, ainda, contínuo processo de reconquista da humanidade dos negros, das negras, dos africanos e das africanas. A literatura africana desempenha, pois, um papel social. Ela possui a capacidade de resgatar, afirmar, celebrar e trazer à vida o que o colonialismo, a escravidão, o racismo e o eurocentrismo tentaram apagar.
No dizer de Achebe (2009), a arte é celebração da realidade, sendo assim, ela tem uma dimensão social, passível de ser vista como um empreendimento cooperativo/comunitário.
Portanto, ao chegarmos à atualidade, os escritores e escritoras de matriz africana, quando utilizam o passado ou a linha tênue do presente em suas obras, devem “fazê-lo com o propósito de abrir o futuro, convidar à ação, fundar a esperança” (Fanon, 1968, p.193). Esse futuro é hoje escrito, desenhado e executado com sucesso pela geração atual de escritores(as), como: Chimamanda Adichie (Nigéria), Ishmael Beah (Serra Leoa), Chinelo Okparanta (Nigéria), Anselm Chibuike Anyoha (Nigéria), Nadifa Mohamed (Somália), Obinna Udenwe (Nigéria), Ayobami Adebayo (Nigéria), Ondjaki (Angola), Caleb Azumah Nelson (Gana), entre tantos outros, incluindo uma geração de escritores (as) brasileiros(as) na imensidão que é o mundo literário africano.
Devo também afirmar, que a literatura de matriz africana tem um extraordinário potencial na formação de crianças negras e no desenvolvimento de uma consciência crítica e antirracista desde os primeiros anos de vida. A escritora, professora, contadora de histórias e especialista em Educação Infantil e Educação Antirracista Bruna Cristina tem se dedicado à transformação da educação desde os primeiros anos de vida, com ênfase no lúdico e na literatura como ferramentas de valorização da identidade negra. Para ela, a presença de personagens negras retratados com dignidade, beleza e protagonismo tem um impacto profundo na construção da autoestima. “A literatura tem um poder imenso na formação da identidade das crianças negras”6.
Do mesmo modo que a literatura negra, a periférica enquadra-se no mesmo estatuto de literatura estereotipada e subalternizada face à literatura Ocidental. O caminho tem se revelado longo, mas seguro, em busca de aceitação não como uma literatura alternativa, mas madura, consistente e reveladora de parte de uma sociedade excluída e desvalorizada.
Esse é o potencial e a magia da literatura na formação do ser humano, na valorização de todas as culturas e no desenvolvimento de uma consciência crítica, que procura que todas as literaturas sejam o retrato da diversidade e da riqueza da humanidade.
Notas
1 Biografia de Wole Soyinka.
2 Biografia de Toni Morrison.
3 Biografia de Chinua Achebe.
4 Biografia de Mabel Segun.
5 Biografia de Adaora Lily Ulasi.
6 A literatura é espelho e janela’: reconhecer-se nos livros infantis transforma a infância de crianças negras.















