Às vezes, o Instagram não é uma janela — é uma lâmina. E a gente desliza nela ao buscar quem mais machuca.

Olá, leitor(a). Hoje não trago uma história bonita — trago uma verdade que doeu para ser escrita. Se você já se sentiu pequeno diante de uma tela, talvez este texto também seja sobre você.

Em 2018, recebi da minha psiquiatra o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Esse diagnóstico, no entanto, foi inicialmente negado pela minha então psicóloga, que argumentava que eu “não fechava todos os critérios” para o transtorno. O que essa profissional desconhecia — e que muitas pessoas também não sabem — é que o TPB não se manifesta de uma única forma. Existem diferentes perfis clínicos1 dentro desse transtorno, e eu me enquadro no subtipo introvertido2 ou quieto.

Enquanto a imagem mais comum associada ao borderline costuma ser a de alguém impulsivo, explosivo e instável em seus relacionamentos, o perfil introvertido costuma funcionar de modo oposto: volta-se para dentro. Em vez de externalizar a dor, a pessoa a internaliza profundamente, o que torna o sofrimento mais silencioso — mas não menos intenso. Essa invisibilidade emocional, muitas vezes, faz com que o diagnóstico seja subestimado ou até descartado.

Uma curiosidade do subtipo quieto/introvertido é o fato de muitas vezes escolher a solidão como forma de evitar ser rejeitado ou abandonado. Outra característica marcante desse subtipo é a presença de pensamentos obsessivos, geralmente relacionados à dor, à perda ou ao medo de rejeição. Por causa disso, não é raro que o TPB introvertido seja confundido com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

A diferença, porém, está na origem emocional desses pensamentos. No TOC, as obsessões costumam ter um caráter mais ritualístico e ligado a compulsões; já no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) introvertido, os pensamentos são profundamente emocionais e giram em torno de experiências afetivas intensas.

O atendimento clínico

Cheguei ao atendimento clínico com queixas de valorização/desvalorização, sentimentos crônicos de vazio e perturbação da identidade — eu simplesmente acordava e não sabia o que fazer, nem para onde ir. Outra questão importante era o fato de eu não conseguir formar laços interpessoais, pelo medo exagerado de não ser compreendida, mas principalmente por apresentar um intenso complexo de inferioridade, que me levava a perguntas como: “Por que eu sou assim?”, “Sou complicada demais?” ou “Tudo é mais fácil para os outros, menos para mim?”.

No início do tratamento, fui amparada pelo “coaching telefônico”, uma das ferramentas usadas na Terapia Comportamental Dialética (DBT) indicada para momentos de crises pontuais do paciente, como risco iminente de autolesão ou suicídio, crises agudas de ansiedade ou conflitos interpessoais de grande magnitude. É como uma “caixa de ferramentas de primeiros socorros emocionais”, em que o psicoterapeuta auxilia a pessoa a tomar decisões saudáveis e funcionais no meio de uma crise, tendo como foco o uso de habilidades aprendidas na terapia.

Entretanto, existe uma linha tênue entre manter a ética profissional e assumir o papel de conselheiro psicológico. Pouco a pouco, quase sem perceber, eu já não estava participando de sessões reais de Terapia Comportamental Dialética (DBT), mas sim recebendo orientações sobre “o que fazer”, “como falar” e “de que maneira agir no mundo”. Assim, formou-se uma relação de co-dependência entre paciente e psicóloga, atravessando tanto o âmbito pessoal quanto o profissional.

Frases como “qualquer coisa, me grita” ou “fique à vontade para me mandar mensagem a qualquer hora” eram ditas ao final de cada sessão de pseudo-DBT. Com isso, o foco deixou de ser o desenvolvimento de habilidades adaptativas para uma vida mais saudável e autônoma e passou a girar em torno de relatar em tempo real cada pensamento, emoção e sensação. Aos poucos, fui me fundindo à figura da psicóloga — deixando de ser eu mesma e me tornando dependente daquela condução terapêutica marcada por submissão emocional.

Foi exatamente a partir desse ponto que tudo começou a desandar.

Projeção de crenças pessoais na prática profissional (conduta antiética)

Quando um psicólogo recomenda algo com base em opiniões pessoais, e não em critérios clínicos, ele está projetando suas próprias crenças no tratamento. Essa postura fere princípios básicos da psicologia, como neutralidade, escuta ativa e foco no paciente. No meu caso, percebi isso de forma clara em um momento que deveria ter sido terapêutico — mas não foi.

Em uma conversa com a minha psicóloga (muito distante de uma sessão fidedigna de terapia), ela me contou, com naturalidade, como o Instagram havia se tornado uma ferramenta essencial para o sucesso comercial do seu trabalho: ajudava na divulgação de seus produtos e na captação de novos pacientes. Foi nesse mesmo contexto que recebi uma “orientação” que, na verdade, tinha muito mais a ver com a visão de mundo dela do que com a minha realidade emocional: que eu deixasse de trabalhar de forma colaborativa nos meus artigos e os transformasse em produtos para vender e divulgar na plataforma.

Mas a verdade é que, naquele momento, o meu sofrimento não era sobre estratégias de marketing. No setting terapêutico, eu falava — com dificuldade, inclusive — sobre a sensação de vazio no ambiente profissional, sobre não ser vista, sobre ter um portfólio que já não recebia mais visualizações constantes, sobre o silêncio dos leitores que antes me acompanhavam. Eu não estava pedindo um plano de vendas; eu estava tentando ser ouvida como alguém que se sentia invisível, desmotivada e emocionalmente esgotada.

Ao reduzir a minha dor a uma simples estratégia comercial, algo em mim silenciou. Era como se, de repente, tudo aquilo que eu sentia — o vazio, a frustração, a sensação de não ser vista — deixasse de ter importância real. A dor que eu levava para aquele espaço foi apagada com sutileza, mas de forma profunda o bastante para me atravessar.

Foi nesse apagamento que percebi que a terapia já não era mais um refúgio seguro. Aos poucos, ela havia se transformado em um espelho das crenças e expectativas dela, e não em um espaço para as minhas necessidades emocionais. Eu deixaria de existir como paciente, como sujeito, para caber na narrativa dela.

O algoritmo que cutuca feridas: como o Instagram aciona meus gatilhos de inferioridade

Sob orientação da minha psicóloga, decidi abrir uma conta no Instagram. Uma semana depois, tomei coragem e resolvi criar meu primeiro post — com muito sangue, suor e lágrimas. Estava completamente perdida, mais do que “cego em tiroteio”, e pedi ajuda ao meu marido para dar conta daquela tarefa que parecia simples para o mundo, mas enorme para mim. Com a ajuda dele — e da plataforma Canva, também sugestão da terapeuta —, nasceu o meu primeiro conteúdo.

Segundo essa “profissional”, fazer posts era “fácil, rápido e sem segredos”. Mas a verdade é que, para mim, foi tudo menos simples. A primeira barreira foi encaixar minha voz — normalmente livre, profunda e extensa — dentro de pequenos layouts de stories. Cada frase precisava ser encaixada milimetricamente na moldura instagramável da rede social. O texto não podia fluir como num artigo ou numa coluna. Tinha que ser curto, direto, “instagramável” — para um público que consome conteúdo em segundos, rolando a tela como quem folheia páginas vazias.

Finalmente, post elaborado, conteúdo no ar. Bum. Outra decepção: zero seguidores. O silêncio digital foi ensurdecedor. Meu marido, com toda a calma que me faltava, explicou que para ter seguidores era preciso postar e postar muito, até que, eventualmente, alguém se interessasse pelo conteúdo — não por mim, mas pelo que eu produzia.

Uau. Para uma alma borderline, essa frase cortou fundo. Eu não queria apenas seguidores. Queria ser vista. Queria que minha voz tivesse peso, que minha existência tivesse lugar. Mas ali, na vitrine fria do Instagram, percebi que a visibilidade não tem nada a ver com autenticidade — e que ser ouvida é um luxo que, muitas vezes, não cabe em 15 segundos de story.

Zero seguidores. Vazio instagramável. Mas o “inimigo” agora era outro: o desfile hipnótico de vidas perfeitas, bem-sucedidas e estrategicamente editadas que só o Instagram sabe entregar. Nesse caldeirão agridoce, me vi fazendo exatamente aquilo que prometi a mim mesma não fazer: procurando o que não devia, vendo o que não precisava e observando quem eu jamais poderia ser.

Cada espiadinha na vida alheia era como uma agulha invisível: pequena, mas certeira. Cada rolagem reforçava negativamente minhas angústias, minhas dores e gatilhos adormecidos. Eu via vidas que pareciam funcionar perfeitamente — profissionais com reconhecimento, vozes ouvidas, trabalhos valorizados — e, no fundo, meu desejo era simples: queria fazer parte daquilo. Queria me sentir vista, pertencente, relevante. Mas, como dizia uma antiga psicóloga minha, com uma franqueza que ainda ecoa dentro de mim: “Daniela, quem é você? É só mais uma na fila do pão.”

E foi assim que percebi: o vazio não estava apenas no número de seguidores. Ele estava dentro de mim, se alimentando da comparação, da ausência de validação e do silêncio de uma rede que grita, mas pouco ouve.

Continua...

Referências

1 Types of BPD: Signs, Symptoms & When to Get Help.
2 Confessions of an Introvert With Borderline Personality Disorder.