Karl Marx é reconhecido amplamente como um economista, filósofo e socialista alemão. Ele nasceu em Trier em 5 de maio de 1818 e faleceu em Londres em 14 de março de 1883. A sua formação acadêmica foi marcada pelos estudos na universidade de Berlim, onde se aprofundou na filosofia hegeliana, e sua graduação ocorreu em Iena, através de uma tese que abordava as distinções entre a filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro. O pensamento de Marx se estrutura sobre uma premissa fundamental: não é a consciência dos indivíduos que determina seu ser, mas sim, inversamente, é o seu ser social que determina a sua consciência.

Esta perspectiva materialista implica que a base de toda a análise social e histórica reside na forma como os indivíduos se organizam para produzir e viver. Os homens são, eles próprios, os produtores de suas concepções, suas ideias e tudo o mais que compõe a esfera intelectual e cultural. São homens reais e ativos, cujas atividades e formas de pensar são intrinsecamente condicionadas por um determinado desenvolvimento das forças produtivas e pela interação que lhes corresponde, estendendo-se até as formas mais avançadas dessa interação (Marx, 1974, p. 47). Portanto, para explicar o modo de pensar dos homens, torna-se essencial analisar as relações sociais nas quais eles estão integrados e que os moldam.

A história se desenrola através de tensões e revoluções. Marx observa que, em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade inevitavelmente entram em contradição com as relações produtivas existentes. Essas relações produtivas, que são a expressão jurídica das relações de propriedade, haviam se desenvolvido no seio das próprias forças produtivas. Se inicialmente essas relações funcionavam como formas evolutivas para o desenvolvimento das forças produtivas, elas se convertem em entraves à medida que o desenvolvimento progride. Quando essa conversão ocorre, abre-se uma época de revolução social.

A transformação radical da base econômica, a fundação material da sociedade, acarreta uma revolução, cuja rapidez varia, em toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. Assim, não se pode julgar estas épocas de revolução pela consciência que elas têm de si mesmas, da mesma forma que não se pode julgar um indivíduo apenas pelos seus pensamentos sobre si. É crucial, ao invés disso, explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, ou seja, a partir do conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.

É dentro deste quadro de conflito e determinação material que a noção de liberdade ganha relevância central, sendo ela aquela sobre a qual se fundamentou uma das principais divisões da humanidade durante o século XIX. Situados nesse contexto, o pensamento de Karl Marx oferece uma compreensão singular da temática da liberdade.

Na visão filosófica de Marx, a liberdade só tem início quando cessa a necessidade de trabalhar imposta por fatores externos. A verdadeira liberdade, para ele, situa-se por natureza para além da esfera da produção material propriamente dita. A condição humana é marcada pela necessidade de interação com a natureza: o homem primitivo luta contra a natureza para prover suas necessidades, e o homem civilizado é igualmente compelido a essa luta. Nesse domínio da produção material, a única liberdade possível é aquela em que os homens, juntamente com seus produtores, regulem racionalmente suas trocas com a natureza. No entanto, essa atividade, mesmo racionalmente regulada, constituirá sempre a necessidade. É apenas para além dessa esfera que começa o desenvolvimento das forças humanas como um fim em si — o que Marx identifica como liberdade—e essa liberdade somente pode nascer se estiver solidamente fundamentada sobre o reino da necessidade previamente superado.

A liberdade, portanto, é caracterizada como uma espécie de superabundância criativa que se eleva acima daquilo que é materialmente essencial. Ela representa o que ultrapassa a medida, transformando-se em seu próprio padrão. A realização dessa superabundância exige condições materiais específicas, entre as quais Marx cita a linguagem. Embora a linguagem surja originalmente a partir da necessidade, como uma dimensão indispensável do trabalho coletivo, ela não permanece eternamente atrelada a essa necessidade. O objetivo político de Marx, de explorar e desenvolver a vida individual, distingue-se nitidamente do liberalismo: uma vez que a expressão do nosso ser individual é também a realização de nosso ser genérico, este processo deve ser levado a cabo de forma recíproca, por meio de laços mútuos, em oposição ao isolamento esplêndido pregado pela ideologia liberal (Eagleton, 1997, p. 50).

Marx postula que o estágio mais desenvolvido e liberto da sociedade é o comunismo. Nesse sistema, o ser humano estaria emancipado da importunidade de todo tipo de classe social, dispondo de lazer e energia para produzir e moldar sua própria personalidade da maneira que lhe conviesse, desde que respeitasse a capacidade de todos os outros de fazerem o mesmo.

A problemática antropológica da liberdade no campo do trabalho reside no homem socializado que emprega a razão para realizar seu intercâmbio com a natureza. O objetivo é conseguir isso com o mínimo dispêndio de energia e sob as condições que sejam mais favoráveis à sua natureza humana. No entanto, o “verdadeiro reino da liberdade só pode florescer com base nesse reino da necessidade”. Para que a liberdade floresça, a diminuição da jornada de trabalho é o seu pré-requisito básico. Consequentemente, somos livres quando a produção ocorre sem o estímulo da necessidade física, e essa natureza, que busca a produção livre, constitui a essência de todos os indivíduos para Marx.

No entanto, essa essência é sufocada na sociedade de classes. Nela, os bens e objetos criados pela maioria dos homens e mulheres são apropriados pela minoria que detém e controla os meios de produção. Isso acarreta o grave problema da alienação, pois os produtores não conseguem mais se reconhecer no mundo que criaram. A autorrealização, que deveria ser um fim em si mesma, é pervertida e se torna puramente instrumental para o autodesenvolvimento dos outros (Eagleton, 1997, p. 30).

A solução para Marx reside na comunidade. É somente na comunidade com outros que cada indivíduo pode encontrar os meios necessários para desenvolver suas faculdades em todos os sentidos. A liberdade pessoal, portanto, torna-se possível apenas no interior da comunidade. Na comunidade real, os indivíduos não esperam que a liberdade lhes seja concedida; eles a conquistam simultaneamente à sua associação, por meio e no interior de tal associação. Desde que a associação dos indivíduos se desenvolva no quadro de forças produtivas desenvolvidas, essa “reunião” é o que estabelece as condições para o livre desenvolvimento dos indivíduos.

Apesar do potencial liberador da associação, as condições que, em um momento, estão sob o controle dos indivíduos, podem ser lançadas ao acaso e adquirir uma existência autônoma em relação a eles. Existe o direito de usufruir tranquilamente da casualidade sob certas condições, e este é o direito que tem sido denominado de liberdade pessoal (Weffort, 2001, p. 264). Essas condições de existência, no entanto, são meramente as forças produtivas e as formas de circulação de cada período (Weffort, 2001, p. 264). O resultado prático é um paradoxo sob a burguesia: nas representações ideológicas, os indivíduos se sentem mais livres sob o domínio burguês, pois suas condições de existência parecem ser contingentes. Contudo, na verdade, eles são naturalmente menos livres porque estão submetidos a uma força objetiva muito mais poderosa e determinante.

A problemática do modo de produção, analisada extensivamente em O Capital, é a melhor referência para entender a aplicação política da liberdade. O sistema capitalista é estruturado de modo que o trabalhador, que não possui nada além de sua capacidade de trabalho, é forçado a vendê-la ao proprietário do capital, que o emprega exclusivamente para seu lucro. Neste processo, os seres humanos são convertidos em mercadorias substituíveis no mercado. A força de trabalho, no entanto, é uma mercadoria particular, pois não é um objeto estático, mas sim uma forma de energia e potencial humanos, caracterizada por ser particularmente sem limites e determinações (Eagleton, 1997, p. 40).

O limite da emancipação meramente política se manifesta no fato de que o Estado pode se livrar de uma restrição sem que o homem se liberte dela. Um Estado pode ser um Estado livre sem que o homem que nele reside seja um homem livre.

Ao analisar a liberdade em um Estado livre, Marx aborda os direitos humanos em sua forma autêntica, afirmando que estes consistem, por um lado, em direitos políticos. O conteúdo destes direitos políticos reside na participação na essência geral, na vida política da comunidade, na vida do Estado. Tais direitos se inserem na categoria de liberdade política e nos direitos civis, os quais, como Marx ressalta, não implicam de forma alguma a supressão absoluta e positiva da religião (Weffort, 2001, p. 253).

Após estabelecer essas distinções, Marx define a liberdade no sentido político burguês. A liberdade é definida como o direito de fazer tudo aquilo que não prejudique os outros (Weffort, 2001, p. 254). A aplicação prática e crucial deste direito de liberdade é o direito de propriedade privada (Weffort, 2001, p. 254). É essa liberdade individual e a sua aplicação que constituem a base essencial da sociedade burguesa (Weffort, 2001, p. 254). O conceito de igualdade nesse sistema também é esclarecido: a palavra égalité não possui significado político, sendo apenas a igualdade da liberdade tal como definida acima (Weffort, 2001, p. 254). Significa que todo homem é considerado igualmente, mas como uma mônada fundamentada sobre si mesma (Weffort, 2001, p. 254), destacando o caráter isolacionista da liberdade burguesa, em contraste com a liberdade recíproca almejada por Marx.

No desenvolvimento histórico do capitalismo, Marx nota que o proletariado cresce na mesma proporção que a burguesia. As pequenas camadas médias que antes existiam — incluindo o proletariado da casa, o merceeiro, o penhorista, entre outros — são empurradas para a classe operária através da exploração. Assim, até mesmo partes da burguesia acabam caindo no proletariado. O proletariado passa por fases de desenvolvimento, e a sua luta contra a burguesia tem início com a sua própria existência.

Quando a luta de classes se aproxima de um momento de decisão, os processos de dissolução da classe dominante (a burguesia) se tornam tão violentos e agudos que uma pequena porção dos burgueses se desliga e se junta à classe revolucionária, o proletariado. Marx identifica o proletariado como a única classe revolucionária que se opõe à burguesia. O proletariado não pode se apoderar das forças produtivas sociais e, com isso, manter o modo de apropriação existente até então. A luta do proletariado contra a burguesia é intrinsecamente uma luta nacional, e o proletariado de cada país deve, prioritariamente, acabar com a sua própria burguesia. O avanço das grandes indústrias, impulsionado pela própria burguesia, mina a base da sua existência. Marx conclui que a burguesia está, metaforicamente, "cavando sua própria cova", pois o seu declínio e a subsequente vitória do proletariado são, ambos, inevitáveis.

Em conclusão, o pensamento de Karl Marx sobre a liberdade pode ser sintetizado em proposições que incentivam um debate contínuo sobre o tema. A preocupação simultânea com o problema da liberdade e com a capacidade construtiva do pensamento autônomo esteve presente desde os primeiros escritos de Marx (Oliveira, 1988, p. 188). Ele buscou apreender a liberdade a partir da base concreta das relações materiais, distanciando-se das influências de Hegel e Feuerbach, embora não tenha desenvolvido seu pensamento conforme o modelo da fenomenologia da autoconsciência (Oliveira, 1998, p. 188-191).

A exposição do sistema capitalista, tal como feita em O Capital, revela que a confirmação do capital como princípio de síntese social requer o desaparecimento da liberdade substancial do discurso explícito e a consequente efetivação da não-liberdade na realidade material. Assim, a verdadeira liberdade, para Marx, não é um direito político abstrato da mônada isolada, mas sim a capacidade de desenvolvimento das forças humanas como um fim em si, alcançada através da associação e da superação do reino da necessidade, após a queda inevitável do domínio burguês.