Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma filósofa, ativista, professora, intelectual e uma escritora muito conhecida pela sua contribuição no movimento feminista. Sua obra mais famosa é “O Segundo Sexo”, um ensaio que analisa a condição feminina na sociedade patriarcal. Uma obra intimidadora que me olha do alto da minha estante há anos e prontamente meus braços se escondem atrás do meu corpo como quem diz: “hoje não, talvez ano que vem!”.
Não é somente “O Segundo Sexo” que Simone tem no seu repertório. Sua lista de livros escritos é enorme e conta com romances, contos, ensaios, biografias e que rendeu prêmios literários muito importantes a ela. Foi no meio dessa lista enorme de livros que Simone tem e eu não sabia que eu me perdi e acabei escolhendo um pelo título.
O livro “As Inseparáveis” foi escrito em 1954, somente cinco anos após “O Segundo Sexo”. Curiosamente ficou guardado todos esses anos sendo publicado pela sua filha adotiva, Sylvie Le Bon de Beauvoir, somente em 2020, pois a autora o considerou muito particular e excessivamente íntimo.
Simone relata sua amizade com Zaza (Élisabeth Lacoin), do momento que se conhecem, aos nove anos de idade, até a fase adulta quando se separam por meios trágicos. Apesar de alterar os nomes (Simone, no livro, é Silvie e Zaza é Andrée), as cidades onde passam as férias, o nome da escola; não é difícil ligar os fatos da vida real com a ficção. O livro é narrado em primeira pessoa e, ao final, é recheado de cartas trocadas pelas duas e por fotos.
Ambas são de origem burguesa em Paris, porém a família de Simone (Silvie) está decadente. Zaza (Andrée) entra na escola de Simone aos nove anos de idade. Como Simone era uma aluna muito dedicada, as professoras pedem para que ajude Zaza. Simone, uma garota tímida e reservada, logo se encanta por Zaza, uma garota rebelde, contestadora, autêntica e independente.
A admiração de Simone por Zaza é tanta que chega a ser confundida com uma paixão platônica. Simone se descobre bissexual e vive um relacionamento poliamoroso na vida adulta, mas vale ressaltar aqui que na época em que conheceu Zaza era uma criança e depois adolescente, sendo assim, podemos nos ater ao fato de que se tratava de um amor de amigas.
Acompanhamos as dores e as delícias da vida de cada uma, da amizade confidente entre as duas e como a vida se encaminha tão diferente para cada uma. Simone, mesmo tendo um perfil reservado, conquista seu espaço. A família passou por um momento difícil, o que a impulsionou a estudar em uma universidade e ingressar no mercado de trabalho. Com isso, se tornou independente e uma mulher empoderada.
O mesmo não aconteceu com Zaza, mesmo tendo um perfil tão revolucionário para a época sendo uma mulher questionadora. Sua família, muito católica, não passou por necessidades. Ela foi restringida ao papel de mulher, ou seja, impossibilitada de cursar uma faculdade e trabalhar e com a única opção de casar-se, ter filhos e cuidar da casa. Enquanto o casamento não acontecia, ela era forçada a dar conta das obrigações da família, que eram muitas.
Muitas vezes, Zaza recorreu a meios perigosos para escapar das obrigações familiares, de tão exausta que estava, pois não havia tempo para descanso nem para que ela se alimentasse com qualidade. Simone questiona, mas aprende a respeitar a vida em que Zaza está inserida e em que é exigida. Zaza tem sua energia e liberdade drenada e definha, morre precocemente de encefalite (uma inflamação no cérebro).
Essa perda trágica afetou profundamente Simone de Beauvoir e a fez questionar o papel feminino na sociedade. Com isso, ela começou a lutar pela liberdade e emancipação feminina. Ao longo da história, as mulheres se organizaram para reivindicar seus direitos e acumularam conquistas e exigências que são chamadas de “ondas”. As ondas feministas são momentos relevantes onde certas pautas foram levantadas e conquistadas.
A primeira onda aconteceu no final do século 19 e no início do século 20, tendo como foco direitos civis e políticos. As conquistas foram o direito ao voto, acesso à educação e igualdade no trabalho e na vida pública. Já a segunda onda foi dos anos 1960 até os anos 1980 obtendo conquistas na ampliação do movimento para a vida pública e política, inclusão das mulheres em partidos políticos e criação de leis para a proteção das mulheres.
A terceira onda começou nos anos 1990 e foi até meados dos anos 2010 e as conquistas passam por valorização da individualidade, liberdade de expressão, e empoderamento por meio do “Girl Power”. A quarta onda começou em 2010 e continua até hoje, possuindo como conquistas ações de combate à violência de gênero com campanhas como a descriminalização do aborto na América Latina. Como ainda estamos vivendo a quarta onda, pode ser que haja mais conquistas... tomara! Vale ressaltar que há observações a serem feitas na interseccionalidade feminista, mas que não irei pontuar neste artigo.
Simone de Beauvoir foi fundamental na segunda onda feminista, pois questionou a opressão histórica feminina. Ela argumenta persistentemente que as mulheres foram definidas como o “outro” em relação aos homens, concluindo que a feminilidade é uma construção social, moldada por normas e expectativas. Afinal “não se nasce mulher, torna-se mulher”.
Enfim, escolhi esse livro para ler porque a temática de duas amigas inseparáveis me chamou muito a atenção. Eu sou uma pessoa muito leal às minhas amizades, tenho poucas amigas, mas sou extremamente fiel ao meu círculo de amizades. Porém a leitura me revelou muito mais do que eu esperava e é isso que eu amo quando eu termino a última linha da última página de um livro. As infinitas possibilidades de reflexão que ele nos faz ter.
Além de refletir sobre as minhas próprias amizades, que foi só cerca de dez por cento do que pude considerar após essa leitura, analisei que nós mulheres podemos ser o que quisermos e ser feliz com as nossas escolhas. Podemos e devemos lutar pelos nossos direitos e nos cercarmos de quem nos quer bem e das mulheres que torcem por nós. Nós, do sexo feminino ou que nos identificamos como tal, podemos muito!















