As bibliotecas, seja qual for a sua tipologia, são, por definição, equipamentos físicos ou digitais, que disponibilizam para os seus usuários, acesso livre a conteúdos (tais como livros, áudio-livros, periódicos, documentos, filmes, música entre outros), para leitura, informação, formação, entretenimento ou lazer; tendo como objetivo principal a formação de cidadãos livres, leitores críticos e informados.
A Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA), considera as bibliotecas como instrumentos integrantes e fundamentais para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU.
O 10º ODS considera a redução das desigualdades, e propõe o seguinte:
Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles
As bibliotecas apoiam esse objetivo mediante a provisão de…
-Espaços neutros e agradáveis que permitam a aprendizagem para todos, incluindo os grupos marginalizados, como os imigrantes, os refugiados, as minorias, os povos indígenas e pessoas com deficiência;
-Acesso equitativo à informação que promova a inclusão social, política e econômica.
As bibliotecas contemporâneas na era digital, têm um impacto ainda maior, pela integração da tecnologia digital na ampliação dos meios de acesso à informação. As bibliotecas digitais, integradas ao ecossistema de leitura, ampliam as formas de acesso dos seus conteúdos para o leitor.
As bibliotecas, têm, pois, um papel fundamental para romper com o desafio da resistência e desconhecimento das literaturas africanas. No Brasil, por exemplo, a biblioteca escolar, e não só, ainda precisa lidar com interferência e resistência, principalmente quando se trata da temática africanidades e a literatura africana em língua portuguesa, apesar da existência da Lei 10.639/03 que versa sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana, ressaltando a importância da cultura negra na formação da sociedade brasileira.
Desse modo, podemos perceber que é ato de persistência fazer essencial a biblioteca e o trabalho criterioso sobre África e suas literaturas em língua portuguesa dentro da biblioteca escolar, a fim de desmistificar conceitos e estereótipos pré-concebidos, quanto aos países lusófonos do continente, pelo ocidente e pelas consequências da colonização e da dominação Portuguesa.
Ao funcionarem como veículos de ideologia colonial, em absoluta autarcia, os aparelhos institucionais do ensino são confrontados com as dinâmicas da produção de cânones literários alternativos que emergem das literaturas orais quer das literaturas escritas em línguas africanas e em línguas europeias. O que está em causa é a necessidade de proceder à descanonização literária, transformando os contra-cânones em cânones literários oficiais.
(Kandjimbo, 2016, p. 14)
Kandjimbo procura mostrar que ainda existe um preconceito em relação ao uso das literaturas nas escolas brasileiras, em comparação com o modelo considerado europeu.
A pesquisadora moçambicana Ana Mafalda Leite (2013) escreve que a crítica pós-colonial se propõe a combater as visões de mundo dos temas imperiais. Essa função é assumida pelos autores africanos que, mesmo antes da independência das colônias, já produziam uma literatura de contornos pós-coloniais, demonstrando o quanto tal perspectiva não se limita a um marco cronológico designando a literatura dos países independentes, mas se assume como uma área de estudo a fim de discutir, como afirma Leite “os efeitos culturais da colonização” (Leite, 2013, p. 10).
Desse modo, a biblioteca surge como um instrumento com grande potencial para promover a produção, circulação e recepção das literaturas africanas, porque integra acesso, literatura, tecnologia, proteção de direitos autorais e formação de leitores num mesmo ecossistema.
Acesso: a biblioteca, na sua forma física e digital, permite ou democratiza o acesso através de quatro dimensões:
Casa da palavra. A biblioteca é um lugar de leituras e literaturas (escrita e oral). A leitura e a literatura, não devem estar presentes apenas na sua forma escrita, mas também devem reproduzir a oralidade, como meio de transmissão do conhecimento e da informação, mas também como instrumento de acessibilidade para todos os usuários da biblioteca.
Praça cultural. A biblioteca deve ser um lugar de encontros e trocas de ideias. Como lugar de encontros, a biblioteca permite produzir encontros planejados ou espontâneos. É também um lugar de trocas, de compartilhamento de experiências, migrações, vivências, origens e destinos.
Construção autônoma do conhecimento. A biblioteca não tem lugar para a censura. É o lugar de busca por informação livre e de forma independente.
Terceiro lugar. O lar, ou a casa, é considerado o primeiro lugar. O local de trabalho, é o segundo lugar. A biblioteca, é esse terceiro lugar, o lugar de liberdade, acolhimento, escuta e ócio. É o lugar de descanso, de movimento, de sons e de silêncios.
Literatura: a literatura, ou literaturas, nas suas diversas origens, géneros e formatos, é parte intrínseca de uma biblioteca. As bibliotecas precedem a literatura, porque já existiam antes dela. Mas são elas que acolhem, promovem e contribuem para a produção, circulação e recepção da literatura.
Tecnologia: a tecnologia, é o grande impulsionador do desenvolvimento e evolução das bibliotecas. A integração das bibliotecas digitais às bibliotecas físicas, transformou as bibliotecas em equipamentos universais e eliminou as barreiras de acesso à literatura.
Alguns exemplos nos ajudam a entender a dimensão dessa transformação
A Europeana é uma biblioteca virtual dirigida pela Fundação Europeana e co-financiada pela União Europeia (EU). Tem a sua sede na cidade de Haia, Holanda. Foi disponibilizada ao público em 2008, e tem como objetivo: “disponibilizar o patrimônio cultural e científico dos 27 Estados-membros, em 29 línguas, com uma abrangência que vai da pré-história à atualidade.”. (Winer; Rocha, 2013, p. 113).
Os países da EU fornecem o seu acervo através das suas bibliotecas digitais à Europeana, por meio de agregação de conteúdos e, esta, por sua vez, disponibiliza em domínio público o património cultural da Europa a sua diversidade de acervo: jornais, livros, cartas, manuscritos, diários, documentos de arquivo, fotografias, pinturas, desenhos, mapas, imagens de desenhos de museus, programas televisivos, noticiários, filmes, esculturas, artesanato, músicas, discursos orais, discos, transmissões de rádio, partituras e registros musicais disponibilizados por bibliotecas e museus de toda a Europa. (Europeana, 2015). Em 2010, esse material de conteúdos já atingia a marca de 20 milhões de documentos de documentos digitalizados e mais de 20 mil organizações da União Europeia (Winer, Rocha, 2013).
Outro bom exemplo vem da Alemanha. A Biblioteca Digital da Alemã , é uma rede de instituições culturais e científicas, que tem como finalidade dar acesso à memória e patrimônio cultural e científico da Alemanha. No ano de 2012 foi lançada a versão beta e disponibilizados mais de 5 milhões de registros de diferentes conteúdos (imagem, filme, texto, áudio), e em parceria com bibliotecas, museus, arquivos e cinematecas. (Deuttsche Digitale Bibliothek, 2015).
A Fundação Memorial da América Latina, tem a Biblioteca latino-Americana Victor Civita que dirige a Biblioteca Virtual da América Latina . Esta biblioteca disponibiliza diversos conteúdos, tais como coleções de vídeos e acervo bibliográfico, incluindo links com publicações editadas e digitalizadas para o portal. A biblioteca possui também um diretório de eventos realizados pelo Memorial, um diretório de países que compõe a América Latina e um de sites selecionados e indexados sobre temáticas desse espaço geográfico (Biblioteca Virtual da América Latina, 2009).
Em Portugal, temos a BiblioLED - Biblioteca Pública , uma biblioteca pública para a Leitura e o Empréstimo Digital gratuito de livros em suporte digital, das bibliotecas aderentes e pertencentes à Rede Nacional de Bibliotecas Públicas. Ela integra uma rede de 400 bibliotecas municipais da Rede.
Na Colômbia, temos a G8 Bibliotecas , um projeto muito interessante que integra mais de dois milhões de material Bibliográfico, oito universidades aderentes, e mais de 100 mil usuários. Além disso, a rede tem uma agenda cultural e de formação diversa e compartilhada, gerenciada pela própria rede.
Proteção dos direitos autorais: as bibliotecas são hoje em dia, os principais meios de acesso à literatura e à garantia dos direitos autorais. Através delas, o leitor tem acesso às literaturas de forma livre e irrestrita, e o autor, tem na biblioteca, a garantia do acesso da sua obra e remuneração dos seus direitos como autorais. Convém reforçar aqui, que a questão da proteção dos direitos autorais, é fundamental para as bibliotecas, sejam elas físicas, ou digitais. As bibliotecas digitais, desenvolveram um sistema de DRM (Digital Right Management), é responsável por proteger a mídia desenvolvida com controle de direitos autorais e com proteção de propriedades intelectuais . Deste forma, nenhum sistema de gerenciamento autorizado de bibliotecas digitais, permite acesso ilegal de nenhuma obra ou conteúdo disponível em bibliotecas digitais.
Formação de leitores: As bibliotecas tem evoluído no sentido de promoverem, não apenas o acesso às literaturas, mas também, e sobretudo, na formação de leitores. Digo isto, porque as bibliotecas são atualmente espaços de leituras; encontros entre pessoas, escritores e leitores; de desenvolvimento de habilidades, de competências técnicas, profissionais e digitais; são lugares de experiências e de laboratórios de tendências e de inovações; são promotores da literatura e bibliodiversidade. Na biblioteca, o leitor tem acesso à diversidade de obras literárias, mas também de programas de formação de hábitos de leitura através de clubes de leitura, encontros com escritores, atividades literárias e culturais que despertam nele o interesse e o gosto pelos livros.
A seguir, temos um exemplo do papel fundamental das bibliotecas na formação de leitores. No Brasil, temos o exemplo da BibliON , que de acordo com o relatório da Pesquisa Transversal de 2023 (página 112) , média de livros lidos nos últimos três meses, era de 7,4, acima da média de livros lidos em bibliotecas físicas (5,6), ou da população em geral, segundo a Pesquisa do Retratos da Leitura (2,6). Neste caso, podemos constatar o potencial que as bibliotecas físicas e digitais têm, na questão do acesso à leitura.
Sendo assim, as bibliotecas contemporâneas na era digital enfrentam desafios de adaptação e adequação às inovações tecnológicas oferecidas pela Inteligência Artificial e pelas tecnologias digitais, mas também oferecem oportunidades emergentes para a produção, circulação e recepção das Literaturas Africanas. Essas oportunidades, exigem iniciativas por parte dos governos, das instituições públicas e privadas, das universidades e das escolas, no sentido de investirem recursos na construção de bibliotecas, no desenvolvimento do mercado editorial, na elaboração de políticas públicas de incentivo à leitura e à formação de leitores deste a infância.
A produção, circulação e recepção das Literaturas Africanas, é um desafio que obriga as autoridades e governos africanos a tomarem consciência do seu papel na construção de iniciativas urgentes destinadas ao fortalecimento de ecossistemas de acesso à leitura. Sem essa consciência da sua responsabilidade, as literaturas africanas continuarão a desempenhar um papel subalterno e invisível na promoção da culturas e da história dos povos africanos.















