Ao longo da minha trajetória na administração pública e no setor privado, percebi que aplicar os princípios de ESG (ambiental, social e governança) com profundidade requer mais do que ferramentas de gestão: exige um compromisso com a equidade, com a diversidade e com a memória coletiva.

Para além do compliance e da eficiência, é preciso fazer as perguntas certas: quais vidas esses processos servem? Quem tem voz nas decisões? Que histórias estão sendo reparadas — ou ignoradas — nos bastidores das políticas internas e das metas institucionais?

Este artigo nasce do entrecruzamento dessas inquietações e da minha atuação como mulher preta nos bastidores da estrutura. Aqui, convido você a refletir sobre como ESG e diversidade não podem mais caminhar separadamente. Quando o propósito é justiça, o processo também precisa ser.

ESG como ferramenta de reparação social

Muitas organizações se apressaram em adotar o ESG como resposta às pressões de mercado, dos investidores e da opinião pública. Relatórios de sustentabilidade surgiram, metas ambientais foram anunciadas, e o "S" de social passou a aparecer com mais frequência em campanhas institucionais. Contudo, poucas empresas compreenderam que o verdadeiro poder do ESG reside na sua capacidade de ser uma ferramenta de reparação histórica e transformação estrutural.

O “S” não pode ser reduzido à filantropia pontual, nem à inclusão simbólica em datas comemorativas. Ele exige uma leitura crítica das desigualdades que marcam o Brasil — um país cuja história foi construída sobre a exclusão de pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+ e outras identidades historicamente marginalizadas.

Quando a governança se conecta à justiça social, o ESG deixa de ser uma tendência e se torna um compromisso. E esse compromisso começa na escuta. A diversidade deixa de ser um dado de RH para se tornar uma diretriz estratégica. Não se trata apenas de incluir, mas de redistribuir poder, reescrever estruturas, e garantir que todas as vozes possam liderar, decidir e pertencer.

Gestão de processos com ética e inclusão

Não há diversidade real sem estrutura. E estruturas organizacionais são, essencialmente, feitas de processos. Formular políticas, revisar fluxos, corrigir gargalos, implantar ferramentas de controle e garantir conformidade são ações que, embora pareçam técnicas, são profundamente políticas. E é por isso que a gestão de processos precisa ser pautada por ética, sensibilidade e consciência social.

Como analista de processos, vejo diariamente como uma assinatura mal posicionada, a ausência de um campo obrigatório ou um fluxo burocrático engessado podem gerar exclusões, atrasos ou silenciamentos. Pequenos detalhes operacionais têm grande impacto sobre a experiência dos usuários e, sobretudo, sobre os grupos mais vulneráveis.

Uma organização que deseja ser diversa precisa garantir que sua base processual não perpetue desigualdades. Isso significa revisar protocolos com lentes interseccionais, ouvir pessoas usuárias e colaboradoras em sua pluralidade e transformar os bastidores em espaços de acolhimento e acesso. É urgente que os profissionais da área técnica também se reconheçam como agentes de mudança. Nós, que lidamos com pareceres, conformidade e auditorias, precisamos assumir o nosso papel na construção de ambientes mais justos. A diversidade também começa nos bastidores.

Cultura organizacional: da retórica à prática

Muito se fala sobre a importância de promover a diversidade no ambiente corporativo, mas, na prática, ela ainda é tratada como uma meta periférica, isolada do core business das empresas. A cultura organizacional, no entanto, não é moldada por discursos, mas por aquilo que é tolerado, incentivado e recompensado no dia a dia da instituição.

Diversidade sem processo é folclore. Diversidade com estrutura, orçamento, indicadores e metas reais é sustentabilidade.

Quando falamos em cultura organizacional inclusiva, falamos de revisar desde a contratação até os critérios de promoção. Quem lidera? Quem participa das reuniões estratégicas? Quem tem espaço para errar e aprender? Como os conflitos são tratados? O que é considerado sucesso?

Empresas que desejam se manter relevantes no século XXI precisam fazer da diversidade uma prioridade transversal, presente em todas as áreas, do jurídico ao marketing, do chão de fábrica ao conselho administrativo.

ESG e diversidade nos territórios: o caso das reparações

Minha atuação atual me colocou diante de um dos maiores desafios e aprendizados da minha vida profissional: atuar na análise de processos indenizatórios de pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG. Esse trabalho me mostrou, com ainda mais força, como ESG e diversidade precisam andar juntos — especialmente quando lidamos com histórias, perdas e reconstruções.

A reparação social não se faz apenas com valores financeiros ou relatórios técnicos. Ela exige escuta ativa, respeito aos territórios, reconhecimento das desigualdades preexistentes e compromisso com a verdade. Cada processo analisado carrega dores e trajetórias que não cabem em campos padronizados. E cada decisão técnica tem impacto direto na vida de alguém que, muitas vezes, nunca teve sua dor legitimada por nenhuma estrutura formal.

Nesse contexto, ESG é mais que governança. É cuidado. É responsabilidade ética e coletiva. É a chance de fazer diferente.

Conclusão: propósito, processos e futuro

É tempo de revisar não apenas as metas organizacionais, mas os caminhos trilhados para alcançá-las. ESG e diversidade são indissociáveis quando se pretende construir ambientes verdadeiramente sustentáveis, justos e inovadores.

O futuro das organizações será determinado não apenas por sua capacidade de gerar lucro, mas por sua disposição em gerar pertencimento. O compliance, por si só, já não basta. A sociedade exige coerência, responsabilidade e coragem institucional para enfrentar as próprias contradições.

Que cada área, cada indicador, cada parecer e cada processo esteja a serviço de um propósito que nos inclua a todos. Afinal, nenhuma transformação é ética se não for também interseccional. E nenhum processo é eficiente se não for, antes de tudo, justo.