Num mundo em reviravolta constante e acelerado pela comunicação em segundos, existem algumas poucas escolhas que se apresentam para os indivíduos se localizarem, o que torna tudo mais fragmentado. Como se o quebra cabeça da vida tivesse se tornado inviável, sempre faltando peças. O encaixe não se apresenta.

Entretanto de alguma forma o ser humano tem a capacidade de inventar outros tipos de atuação ou narrativas, e assim se sustentar diante do caos, romper barreiras atravessando-as como se fossem invisíveis, derrubando as dificuldades a machado ou pulando heroicamente os muros, por mais altos que possam parecer.

É disso que é feito viver, sobretudo em momentos em que se passa por muitas transformações sejam externas ou internas, cabe pensar sobre quais viabilidades de sobrevivência estão sendo aderidas.

A polaridade se faz presente nas discussões, e por isso mesmo alguns insistem em falar mais alto, brigar, mostrar seu lado eloquente e perder o controle, a razão, e na maioria das vezes um bom combate, a evolução e o despertar para soluções mais inteligentes.

Atualmente o que se vê é a fuga, uma fuga solitária, silenciosa, angustiada, que demonstra exaustão, medo e fechamento. Uma espécie de preguiça mental causada pelo saqueamento da análise crítica, inteligência inventiva e criatividade espontânea.

Bem divergente da época em que a humanidade foi acometida por uma pandemia, que por seu isolamento obrigatório, criava em todos um absurdo desejo de se relacionar, mostrar laços fazer comunhão ser empático e solícito, hoje isso parece ter desaparecido, pois a memoria dos sentimentos pode ser breve, e talvez querer mesmo se esquecer de tempos tão difíceis, afasta uma certa dose de gentileza de sentimentos.

Assim, outros movimentos dão lugar a fraternidade humanitária de forma coletiva ou pelo menos mais visível que pequenos punhados de afeto, como se estar fechado também seja agora uma medida protetiva para sobrevivência, que se revela de forma coletiva, dura e separativista.

O processo interno de reconectar-se consigo mesmo virou desculpa para o afastamento, a “solitude” maquia a solidão, a falta de tempo, pela pressão do trabalho, fundamenta a desculpa mais honrosa de funcionalidade, e o não compromisso com o outro deu lugar ao diálogo do ainda não estou pronto, não sei o que dizer ou ainda estou em construção. O que está para além disso parece emocionado em demasia.

Tudo isso é possível que seja verdade em alguma instancia, mas inaugura um sujeito muito pobre daquilo que conhecemos como saudável nas relações, pois por mais que existam pessoas impossíveis de convivência ou insuportavelmente confiantes, também é possível que seja no próprio ato de se conviver que os indivíduos vão se configurando e emoldurando sua estética mais possível.

É observável que uma total incapacidade de absorver qualquer não linearidade do outro, com o qual se estabelece uma aproximação, facilite a impossibilidade de ver as próprias não conformidades.

Ser vulnerável é próprio do bicho homem, e por mais que se tenha instalado um contrato de super-humanos competentes mais que competentes, essa característica está presente. Dessa forma reprimida e escondida ao máximo vira gatilho seja para qualquer um dos lados da relação.

Ao mesmo tempo que as pessoas ainda queiram aparecer e se validar pela função nomeada ou por quanto prestam serviço de alta eficiência, mostrando-se como um personagem impecável de si mesmo, distanciando-se de sua essência e incompletudes, também querem um outro perfeito. Qualquer um outro precisa ser perfeito ao olhar preguiçoso dos encontros.

Com esse comportamento inventado fatalmente qualquer um se torna incapaz de transitar pela diversidade, pelo desconhecido. Sem a mínima condição de alcançar a também distante essência alheia. Nada e absolutamente nada pode incomodá-lo, tirar o seu planejamento do lugar ou arranhar sua dura carapaça inventada.

Já exausto de dar vida a um personagem e retocá-lo a cada segundo, aos moldes e gosto de um falso pertencimento, é impossível ainda lidar com o mundo do outro. O encolhimento toma lugar a expansão de boas conversas e distrações, o silêncio fala de uma dor da insuficiência, o medo do cancelamento torna as pessoas fracas e coniventes.

A partir de uma mínima análise é de se entender que a humanidade é feita de princípios, valores, modelos, hábitos, tendências adaptáveis a suas épocas, desde sempre. Alguns modelos se tornaram inviáveis, outros foram trocados por novidades, há aqueles valores que impossibilitariam o mundo de hoje por isso foram substituídos, e ainda existem aqueles que se repetem desde sempre por mais descobertas e evoluções já acontecidas, mas independente do que faz sentido ou não nesse ir e vir dos modelos traduzidos pela humanidade, esses sempre forjaram o encontro e desencontro entre indivíduos.

Um pensamento construtivo é perceber e se dar conta do quão é ilusório e sabotador entender que o fluxo é sempre o sentido mais viável. Em muitos momentos é preciso reflexões mais profundas. Paradas obrigatoriamente salutares que proporcionam o entendimento e a noção das “coisas” como estão postas. É importante entender que a polaridade é cabível como um instrumento que faça enxergar o quanto se é parte do problema ou se trabalha em prol da solução, e por mais que pareça simples esse é um momento desafiador e de muita apropriação de sua construção imperfeita.

Nos vemos já!já!