Quando as primeiras academias de arte surgiram no ocidente em meados do século XVI, as mudanças trazidas pelo advento do Renascimento nos séculos anteriores já haviam se cristalizado. Paradigmas como a perspectiva com ponto de fuga, a representação realista e mimética da natureza e o resgate dos valores clássicos de beleza, simetria e harmonia estabeleceram-se como as bases da formação artística, em um modelo de ensino que se popularizou ao longo dos séculos subsequentes. Ademais, uma certa hierarquização dos suportes já havia se fortalecido, determinando a pintura, a arquitetura e a escultura como meios superiores diante de outras práticas manuais como a cerâmica ou a tapeçaria. No século XVIII, essa divisão ganhou novos termos dentro das Academias: de um lado as “belas artes” e, de outro, os “ofícios”. E o modelo acadêmico, já muito popular pelo continente europeu e começando a se estabelecer fora dele, ainda foi mais longe, estabelecendo também (principalmente na pintura) uma hierarquia de gêneros: os maiores seriam pintura histórica e religiosa, além dos retratos, e os menores a pintura de paisagem, natureza morta, cenas cotidianas...
Foi apenas na virada para o século XIX que a paisagem passou a figurar entre os estilos valorizados dentro dos círculos acadêmicos e fora deles, em grande parte devido ao esforço do pintor francês Pierre-Henri de Valenciennes, que defendia que o gênero encaixava-se na categoria de pintura histórica. Em seguida, com a emergência da arte moderna logo na metade do mesmo século, rapidamente essa hierarquização obsoleta deu lugar a um protagonismo central, e o Monte Saint-Victoire de Cézanne, o Rio Sena de Monet, os ciprestes de Van Gogh e os parques de Manet pavimentaram o caminho para que o gênero não apenas fosse valorizado, mas se tornasse uma linguagem em si mesma.
A exposição A paisagem que atravessa o tempo propõe uma leitura transversal do tema, reunindo artistas brasileiros acadêmicos, modernos e contemporâneos que elaboram cenas marinhas, rurais, montanhosas, florestais, atmosféricas, tropicais, surreais e fantásticas. As aproximações entre diferentes gerações e origens revela como as visualidades naturais do país – com sua fauna exuberante de incontáveis espécies, suas praias paradisíacas, suas serras sinuosas e vastas extensões agrárias – marcam de maneira singular as perspectivas desses artistas: o encontro entre céu e mar de Lucas Arruda e o encontro entre mar e terra de José Pancetti; as perspectivas a perder de vista de Sergio Lucena; as palmeiras e coqueiros de Cícero Dias e Lucia Laguna; as araucárias de Miguel Bakun; as etéreas cadeias montanhosas populadas por igrejas de Guignard; os microorganismos marítimos de Thiago Rocha Pitta ao lado das espécies botânicas inventadas de Thalita Hamaoui; os campos rústicos de Lorenzato; os firmamentos luminosos de Felipe Suzuki; e as paisagens detalhadas da região serrana do Rio de Janeiro de Nicolau Facchinetti.
Cada região, do nordeste ao sul do Brasil; cada bioma, da caatinga à mata atlântica e cerrado; e cada clima (tropical, tropical de altitude, subtropical e semiárido) surgem nas obras reunidas nesta mostra de maneira lírica e alegórica, em variados momentos do dia, em diferentes estações do ano, atravessando 3 séculos por meio de olhares familiares, comprometidos e implicados nessas diversas paisagens. As pinturas apresentadas aqui nos permitem percorrer todos esses lugares, atmosferas, passagens, instantes, períodos, condições, transmitindo estados de ser e estar e nos transportando a habitar cada paisagem retratada em diálogo com nossas paisagens de memória, vistas e vividas.
(Texto de Julia Lima)













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