[...] você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo [...](Paulo Leminski)
Sabe-se que é difícil imaginar sem mergulhar, com mais ou menos intenção, nas gavetas do passado. Imaginar (isto é, expandir os horizontes negociáveis do possível) implica engajar-se com nossas próprias experiências e repertórios constituídos historicamente. Mas também não é possível lembrar sem uma dose de fabulação. Como diria Waly Salomão, a memória “é uma ilha de edição”, inclusive ameaçada de apagamentos, fraudes e obliterações. Por isso, passado e futuro são vetores que se entrecruzam e se transformam continuamente; ambos são campos de batalhas que não cessam, cujo espaço de significação simbólica se dá no próprio presente.
O poema de Paulo Leminski (que empresta título a esta exposição) nos leva ao cerne desta experiência temporal ambígua. Rompendo com percepções lineares e circulares do tempo, o poeta desnuda a desordem dos acontecimentos em um emaranhado de experiências, no qual os passados atuam no presente lidando com expectativas e desejos do amanhã. A subversão da lógica cartesiana coloca os sujeitos históricos, os agentes da ação social, não mais em oposição aos objetos, mas em sintonia, desafiando a fronteira da alteridade na busca por um espaço capaz de costurar realidades. O aqui também é lá e o eu também é o outro.
Na história, palavra polissêmica e ambígua, travam-se combates entre o que ocorreu e o que se produziu sobre o ocorrido, buscando preencher pertencimentos e significados que oscilam entre interesses, sujeitos e formas de identificar, combinar e narrar acontecimentos. Quando a minha história é narrada pelo olhar de um outro, eu sou seu objeto. Quando posso contar a minha história, sou sujeito.
Nesta exposição, as temporalidades estão interconectadas. Fatos e eventos foram selecionados não por sua excepcionalidade, mas pela sua historicidade, ou seja, caráter histórico transformador, que de forma explícita ou implícita dizem respeito à trajetória do Museu Paranaense: seus acervos e narrativas eleitas e propagadas ao longo do tempo. A história do relato da verdade, dos fatos exemplificadores e transformadores do mundo faz parte da trajetória do Museu. Por muito tempo, os vultos de homens e símbolos guiaram uma história que se voltou ao passado em busca de explicações para um futuro infinito. A História (com H maiúsculo), aquela desenvolvida nos centros de investigação universitária, desenvolveu outros caminhos para questionar as narrativas generalizantes e factuais, produzindo novas lógicas que nem sempre conversam com a história (com h minúsculo), que se apresenta no nosso cotidiano permeado de diversos significados.
Na encruzilhada das histórias possíveis está o Museu, espaço de mediação, que ao criar diálogos transdisciplinares mobiliza ideias e debates capazes de constituir novas camadas de transformação em si e nos sujeitos. Por isso, optamos por convidar artistas para responder ou dialogar com os objetos históricos do acervo do Museu, de modo a estressar narrativas, deflagrar ausências e atualizar pontos de vista. Em outras palavras, historicizar o acervo histórico existente com formas contemporâneas de linguagem permite a emergência de novos afetos constituidores de histórias. Articulando o local e o global, o macro e o micro, esta mostra realiza-se como um exercício de articulação de unidades históricas no espaço e tempo a partir de experiências e expectativas do presente. Objeto sujeito busca reforçar que ser contemporâneo não implica se limitar a um presentismo encerrado no aqui e agora. Ao contrário, aqui a contemporaneidade pode ser lida enquanto cotemporalidade, uma concordância de tempos múltiplos, em disputa.













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