No final do mês passado, fui (de novo) para o Rio.
E aqui cabe logo o primeiro adendo: vou para o Rio de Janeiro desde sempre, já que minha mãe é de lá e toda minha família por parte dela ainda mora lá. No entanto, quando falo de Rio de Janeiro, não é bem Rio de Janeiro; minha família mora ali do ladinho, em Niterói, a uma ponte de distância – ou a Baía de Guanabara, se preferir.
Por isso, também tenho uma ideia muito diferente da maioria das pessoas quando a conversa é sobre ir para lá. É óbvio que a cidade tem praias paradisíacas, paisagens de tirar o fôlego e pontos turísticos que recebem o título de “uma das sete maravilhas do mundo moderno”. Eu também já fui a esses lugares. Mas a Zona Sul do Rio, onde ficam os pontos turísticos mais conhecidos, fica consideravelmente distante de Niterói, o que torna mais difícil chegar até lá.
Lá em Niterói, tem praias incríveis também, e meu tio tem um apartamento em um bairro muito bom, cheio de comércio, então geralmente fico por ali mesmo. Logo, cabe também o segundo adendo: cheguei a morar em Niterói por um semestre no começo de 2017, quando passei em Letras na UFF.
Acho, todavia, que eu era muito jovem, boba e medrosa, porque acabei não fazendo muitas coisas por lá nesse meio-tempo. Ia às aulas, voltava para casa e, de vez em quando, saía com uns amigos ou com meu primo. Mas perdi a chance de conhecer pontos turísticos da cidade e, claro, da Cidade Maravilhosa, que estava a minutos dali.
Isso me incomodou por muito tempo depois que voltei pra minha cidade, em São Paulo. Se por um lado voltei contente porque passei na universidade com a qual sempre sonhei, a Unicamp, por outro lado, comecei a perceber que tinha muitas coisas, como grande entusiasta de literatura – em especial, a brasileira –, que eu ainda precisava conhecer e, logicamente, grande parte delas estava lá naquela cidade que fora capital do país desde a época da colônia até meados do século XX.
E lá vai o terceiro adendo: além da minha formação, do meu longo histórico de visitas ao Rio de Janeiro e da minha insaciável sede de consumir cultura, que vem crescendo ano após ano, eu ainda nutria uma grande paixão e admiração pelo maior escritor da literatura brasileira (quiçá, mundial – pelo menos na minha opinião): Machado de Assis!
Ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Espelho, Dom Casmurro, além de ler todos os contos e crônicas indiscutivelmente bem formulados, cativantes e instigantes, foi um divisor de águas para mim, com menção honrosa, é claro, ao primeiro livro mencionado, que segue sendo meu favorito. Mais ainda: ler sobre aqueles lugares pelos quais caminhavam os personagens, como o Passeio Público, a Rua do Ouvidor e o Cosme Velho, por exemplo, só me fazia pensar cada vez mais sobre todos os lugares a que não fui no Rio.
Começou, dessa forma, a crescer gradualmente em mim a vontade de fazer esse passeio cultural no Rio. Queria conhecer lugares pelos quais Machado passou, como a Confeitaria Colombo, onde ele escrevia, trocava ideias com outros intelectuais e se alimentava no centro do Rio, e o Real Gabinete Português de Leitura, onde ele ia ler e fazer pesquisas.
E no mês passado foi exatamente isso que eu fiz! Pode até parecer um pouco banal e fútil para alguns, afinal, visitar esses lugares também faz parte do circuito turístico da Cidade Maravilhosa. Contudo, para mim, essas visitas tiveram um alcance muito mais profundo e uma dimensão verdadeiramente sublime.
Porque eu não estava só vendo um ponto turístico: eu estava pisando onde pisou Machado; estava andando por caminhos por onde caminhou Machado; estava sentando em cadeiras nas quais se sentou Machado; estava olhando para prédios para os quais olhou Machado.
Não sei se você, caro leitor (aqui usei uma licença poética machadiana), já teve um ídolo cultural *pop* (eu não tenho), mas acho que Machado se aproxima muito dessa ideia e talvez vá além. Ele é do tipo de entidade que deve ser cultuada por nós, amantes e estudiosos da literatura. E acho ainda mais engraçado pensar nisso quando lembro que, na realidade, ele era só uma pessoa normal – um brilhante escritor, é claro, mas não era alguém rico, que vivia de luxos, como a maioria dos famosos de hoje.
E por isso ter essa acessibilidade aos locais que ele também frequentava é tão incrível para mim. Cheguei a me emocionar ao contemplar a biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura. Meus olhos se encheram de lágrimas só por eu estar presente ali naquele ambiente, e ler a placa de dedicatória a ele, suspensa ali na terceira parede do imenso recinto, às vezes, fez com que uma lágrima escorresse pelo meu rosto.
Às vezes, acho que sou um pouco mais sensível, ou até chorona, do que a média das pessoas; chego a pensar que me emociono muito facilmente e sinto algumas emoções com muita intensidade. Porém, cansei de sentir vergonha disso, e isso fez com que aquele momento ali dentro, compartilhado comigo mesma, fosse ainda mais significativo.
Fiquei quatro dias lá no Rio de Janeiro dessa vez e, antes mesmo de ir, já tinha reservado um dia completo para ir à cidade do Rio fazer esse percurso: tomar um café na Confeitaria Colombo e visitar (finalmente!) o Real Gabinete Português de Leitura. Imaginem a minha satisfação quando ainda deu tempo de ir ao CCBB, ao Teatro Municipal, à Cinelândia e fechar o dia com um chope geladinho no Amarelinho!
Esse passeio para mim foi incrível, por um lado, e, por outro, só me deixou com aquele gostinho de “quero mais”, mais vontade de retornar, dessa vez para conhecer o Passeio Público e o bairro do Cosme Velho, além de querer ir ainda ao Morro da Providência, onde o autor morou, e à Academia Brasileira de Letras, à Livraria Da Vinci e mil e um outros lugares!
Esse tipo de passeio cultural, para mim, enriquece muito a alma, o espírito e a sede de conhecimento. Visitar locais que você verdadeiramente deseja conhecer pode, com toda certeza, mudar sua visão de mundo e renovar sua energia e suas crenças sobre assuntos que lhe interessam. Essa é, sem dúvidas, uma das grandes belezas da vida.















