Por que ler clássicos?
O interesse pela alta cultura ainda faz sentido no mundo moderno?
A maior parte das pessoas concorda que ler é um diferencial na vida; ainda assim, o motivo pode variar. Alguns veem isso como um estímulo ao crescimento pessoal, outros como algo que aumenta suas chances de sucesso financeiro, e alguns acham que isso pode causar uma evolução de seus padrões morais. No clássico O cabeleireiro, o autor conclui dizendo que não existe sentido em ser vingativo com os criminosos, pois a solução para eles seria incentivar o trabalho e o estudo, que iam fornecer riqueza e virtude, respectivamente, ao indivíduo. Por muito tempo, ser leitor era considerado quase uma forma de distinção social, algo como “ele tem embasamento no que diz”.
Em algum sentido, a cultura moderna é a que mais estimulou a educação. Nas sociedades anteriores, apenas uma fina camada da elite era realmente escolarizada, e não se recomendava que o povo fosse letrado, pois se pretendia conter o pensamento apenas aos que estavam no poder. A chegada da modernidade foi associada ao impulso de que o conhecimento criaria um mundo melhor; mesmo os líderes protestantes buscavam usar a Bíblia como instrumento pedagógico junto aos fiéis.
Mas, se por um lado o mundo moderno democratizou o acesso ao conhecimento, por outro também tem feito um grande esforço para torná-lo irrelevante. A alta cultura parece cada vez menos importante; mesmo pessoas com alta formação raramente leem clássicos da literatura ou da filosofia. A cultura de massa do começo do século 20 estabeleceu que todas as pessoas, sem distinção, consumiriam os mesmos produtos genéricos para entretenimento rápido. Vários intelectuais, como Theodor Adorno, frequentemente imersos em preconceitos culturais, viam a cultura de massa como a morte da capacidade de pensar, levando à perda de qualquer esperança de evolução social.
Ainda assim, havia alguma forma de reverência à alta cultura preservada nas massas; adaptações de clássicos eram feitas para o rádio por Orson Welles. Hitchcock fazia filmes sofisticados, mas fáceis de compreender, para oferecer obras de arte a um público que só buscava diversão. Mesmo no começo do hoje clássico do cinema Os Dez Mandamentos, o narrador já começava a enumerar os historiadores da Antiguidade que foram utilizados para desvendar a biografia de Moisés. Se, por um lado, consumir cultura erudita não era importante, respeitá-la era.
Na segunda metade do século, a mentalidade pós-moderna, ao mesmo tempo, piorou e amenizou essa situação. Os autores pós-modernos, que enxergavam a mente humana como composta por vários discursos sobrepostos e em sequência, com cada novo discurso fazendo referência aos anteriores, acabaram por ser uma enorme inspiração na cultura pop. Agora, todo trabalho musical, literário ou cinematográfico precisa ser recheado de referências às obras mais antigas de quem ele tomou como inspiração.
A fronteira entre o erudito e o popular desapareceu completamente; agora, podia-se ser sofisticado e banal na mesma frase. Como o cineasta Quentin Tarantino faz obras com elementos do cinema de arte e do cinema trash, embaladas em uma trama que podia ser as duas coisas. Alta e baixa cultura não têm mais distinção, não no sentido de terem o mesmo valor, mas no sentido de não existirem como entidades separadas.
Mas isso teve um efeito involuntário: não só tornou a alta cultura banalizada, como também fez com que as obras de arte se tornassem todas iguais e repetitivas, pois seus criadores querem apenas recriar o que já existia antes. Algo normal na arte, mas agora levado ao ponto de obsessão. A maior parte das músicas e filmes feitos no século 21 costuma ser apenas uma releitura de clássicos, ou então as chamadas “desconstruções”, em que o autor tenta surpreender o público contando a mesma história, mas mudando alguns clichês específicos para soar de forma original.
Nesse aspecto, conhecer os clássicos da literatura acaba sendo uma forma de entender de onde as histórias atuais vieram. Quando se lê Orgulho e Preconceito, vê-se de onde as comédias românticas tomaram a maior parte de suas ideias. Quando se abrem os contos de Lovecraft ou de Edgar Allan Poe, está-se preparando para conhecer a fonte de grande parte dos filmes de terror que vieram depois deles.
Mesmo fora da cultura ocidental, isso é verdadeiro; para os jovens que consomem animes japoneses, talvez seja surpreendente que grande parte deles apenas recontem mitos e histórias das mitologias do Japão, da China e da Índia. Os icônicos Dragon Ball e Inuyasha são apenas adaptações da obra máxima da literatura chinesa, “Jornada para o Oeste”, na qual o deus das travessuras e rei dos macacos, Sun Wukong, para ser perdoado pelo céu por seus crimes, precisa ajudar um monge a viajar até a Índia e recuperar textos sagrados budistas.
A cultura pop funciona em grande parte como um monstro de Frankenstein; cada novo elemento ou ideia é absorvido por ela e passa a fazer parte do imaginário, formando uma mitologia moderna bem mais complexa e elaborada do que as da antiguidade. O maior exemplo disso é o universo Marvel, que se estende por todas as mídias e inclui de tudo: alienígenas, viagens no tempo, demônios, magos, robôs, lobisomens, vampiros, espíritos, todos os deuses e, claro, super-heróis.
Mas, se por um lado a cultura pop busca incluir tudo, ela também tenta domesticar; tudo perde seu significado original, principalmente quando era alguma ideia polêmica, e se torna apenas um canal para histórias muito simples em que o bem vence o mal. O significado original das obras muitas vezes é perdido; não importa mais o que elas tinham a dizer ou representar, importa apenas a estética e a diversão rápida delas.
As adaptações de C. S. Lewis, Tolkien, Asimov ou Lovecraft geralmente ignoram os significados metafóricos das suas obras, focando mais na aventura. O lendário monstro Godzilla, que originalmente era uma forma de abordar a dor de um povo que perdeu tudo na bomba atômica, virou um herói de ação lutando contra monstros e alienígenas.
Um dos motivos pelos quais ler é algo considerado proveitoso é pelo fato de isso permitir olhar o mundo pelos olhos de outras pessoas, quando se lê um livro de um homem, se está mergulhando na sua cabeça e olhando para uma parte da sua visão da existência. Ler algo de outra cultura ou de outro tempo é o mais próximo que se pode ter de viver outra vida, pois se pode ver o mundo que outra pessoa viveu e, acima de tudo, perceber o que, para você, é óbvio e certo, mas para ele podia não fazer nenhum sentido real.
A cultura moderna é em grande parte anti-intelectual, isso não é surpresa, todas as épocas têm momentos de rejeição ao pensamento, mas a versão atual é diferente, o Anti-intelectualismo antigo; como quando o primeiro imperador da China mandou queimar todos os livros e enterrar os filósofos, ou quando o ditador comunista do Camboja Pol Pot mandou matar todos que soubessem ler; era contra os livros pois eles eram perigosos para a sociedade. O anti-intelectualismo atual prega, na verdade, que o conhecimento é irrelevante; ninguém vai se interessar por ou apreciar um filme mudo ou uma peça de Shakespeare.
Desde o século 19, os intelectuais eram vistos como os guias da sociedade, um grupo que tinha um dever quase religioso com o povo e que era responsável por manter a sociedade ligada aos valores superiores. Hoje, ninguém parece realmente preocupado com isso; os livros parecem apenas uma curiosidade e nada mais. A erudição que merece certo respeito não está na alta cultura, mas sim nas obras mais famosas da cultura pop. As celebridades parecem ter em parte tomado o lugar dos intelectuais, pois agora é mais comum ver cantores ou atores opinando sobre temas sociais do que escritores.
Esse anti-intelectualismo resvala para a sociedade; é cada vez mais difícil provar as boas credenciais ou a honestidade das figuras públicas. As pessoas simplesmente enxergam os técnicos e cientistas como uma espécie de pedantes que dizem apenas o que querem e só buscam esnobar as pessoas comuns. O estereótipo do erudito mostra um homem de posses e vida confortável que mergulhou em assuntos de difícil acesso só para conseguir se sentir melhor do que as massas.
Mas qual é, então, o valor real da alta cultura? Sua importância é por ter sido a fundação das sociedades modernas; os clássicos de qualquer civilização representam as histórias e ideias que os reis, poetas, generais e banqueiros tinham em sua cabeça quando construíram o mundo atual. Por mais que as pessoas não achem os clássicos relevantes, elas estão inescapavelmente imersas neles. Mesmo o cristão que nunca tenha lido Santo Agostinho, quando vai à igreja rezar, está olhando para a sombra dele impregnada em sua fé. Ainda que nunca tenha lido nada sobre Adam Smith, Karl Marx ou Edmund Burke, todo cidadão é confrontado com as ideias desses homens quando escolhe um candidato em uma eleição.
Do mesmo modo, quando consome qualquer forma de arte, o público está olhando e ouvindo para os filhos e netos de Shakespeare, Charles Dickinson ou Dostoievski. Conhecer o passado é uma forma de entender o presente. Como o icônico Doutor Manhattan disse em Watchmen: “Eu não sou livre; apenas vejo as cordas. Pois então, aprender algo fora do seu mundo é poder enxergar as cordas do mundo real. Olhar para o passado permite ao homem do presente entender não apenas por que ele é um homem, mas também por que está vivendo no presente.















