Há quatro anos, seguem as operações da Rússia na Ucrânia. Trata-se de um dos conflitos mais proeminentes no cenário internacional e uma das maiores crises políticas do século XXI. Vindo do Brasil, essa realidade pode parecer distante e é fácil manter-se desinteressado e desinformado sobre o assunto. Contudo, suas complexidades afetam direta e indiretamente o mundo inteiro.

Origens históricas e identidade

O conflito contemporâneo remonta à história, cheia de contradições, da região. Ambas as nações (Rússia e Ucrânia) têm ancestralidade comum em Rus de Kiev, um Estado medieval centrado onde hoje é a capital ucraniana. Ao longo dos séculos, o território atual fez parte de diferentes impérios, incluindo o Otomano. No século XVIII, no entanto, a região foi absorvida pela Rússia, tendo vários aspectos de sua identidade cultural (inclusive a língua) suprimidos pelos governos czaristas.

Após a decadência do Império Russo, a Ucrânia declarou independência, mas, assim como outras nações da região, foi integrada à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ainda em 1922. Uma década mais tarde, o país enfrentou as consequências graves da política de estatização da agricultura soviética: a grande fome, o Holodomor.

A Ucrânia reconhece o período como uma tentativa de genocídio promovido pelo governo soviético, mas isso ainda é parte de um debate acadêmico mais extenso, que abarca as causas da fome e a vontade pública sobre ela. Ainda não existe um consenso científico sobre o Holodomor e suas causas, mas estima-se que de 3 a 7 milhões de ucranianos padeceram durante o período.

Como um gesto simbólico, já que tanto a Ucrânia quanto a Rússia eram parte da URSS, em 1954, Nikita Khrushchev transferiu a região da Crimeia para a República Ucraniana. Essa transferência tinha objetivos diplomáticos e visava facilitar a integração entre as repúblicas da URSS, em particular entre Ucrânia e Rússia, pela proximidade geográfica. Após o colapso soviético, a Crimeia permaneceu como parte da Ucrânia — que se tornou independente após um referendo com 92% de votos favoráveis, em 1991.

Após sua independência, a Ucrânia tinha uma grande vantagem para negociar sua segurança: o terceiro maior arsenal nuclear do mundo (à época). O país concordou em entregar suas armas, desde que as potências EUA, Reino Unido e a própria Rússia concordassem em respeitar sua independência e soberania sobre suas fronteiras.

O conflito moderno

A guerra que encaramos hoje se iniciou em 2014, escalonando significativamente em 2022 com a invasão russa. Nos fins de 2013, encaminhava-se um acordo comercial da Ucrânia com a União Europeia. Moscou pressionou o presidente da época, Viktor Yanukovych, que cancelou o acordo. Inúmeros protestos em massa emergiram (o Euromaidan), com a presença de setores diversos da sociedade. O presidente saiu do país e, em retaliação ao movimento, a Rússia ocupou e anexou ilegalmente a região da Crimeia e, simultaneamente, fomentou e financiou insurgências separatistas no país.

Ainda em 2014, foi realizado um referendo na região. Segundo as autoridades locais, 96,6% dos votantes eram favoráveis à anexação da Crimeia pela Rússia, com participação estimada em 83%. No entanto, esse resultado não foi reconhecido pela Ucrânia, pelos Estados Unidos nem pela União Europeia. O referendo foi declarado inválido e ilegal pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Em fevereiro de 2022, a Rússia invadiu, por fim, o território, deslanchando de vez a guerra. No entanto, a Ucrânia resistiu longamente, retomando boa parte do território antes do mesmo ano acabar. Desde então, o conflito escalonou significativamente. Hoje, a Rússia ocupa cerca de 20% do território ucraniano e seus ataques foram documentados e sancionados — já que atingiam civis de maneira sistemática.

O papel da OTAN

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi fundada com o interesse em proteger a Europa Ocidental das investidas soviéticas, em 1949. O princípio basilar do tratado (e o que o torna tão relevante nesse conflito em particular) diz que, se um Estado-membro é atacado, os demais devem ser considerados sob ataque também.

Após a Guerra Fria, países pertencentes ao antigo Pacto de Varsóvia (a contraparte soviética da OTAN) também começaram a ser incluídos na organização, a fim de evitar possíveis ataques revanchistas — algo visto como uma ameaça à segurança pela Rússia.

Em 2019, a Ucrânia postulou o desejo de fazer parte da OTAN em sua Constituição. No entanto, como ainda não se trata de um Estado-membro, a organização não tem obrigações diretas de envio de tropas diante desse conflito.

Nova escalada

No dia 24 de maio de 2026, a Rússia lançou o maior ataque de mísseis e drones do ano (até então). O ataque, realizado após um cessar-fogo que parecia uma vitória diplomática, incluiu 90 mísseis e aproximadamente 600 drones em uma única noite. O Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) alertou que a guerra está se tornando cada vez mais mortal para civis, destacando que esse mês teve o maior número de mortes desde o meio de 2025.

Ainda assim, a dinâmica dos combates parece estar se transformando. A Ucrânia conseguiu destruir uma parcela significativa dos ataques aéreos da Rússia. Também está acontecendo um asfixiamento logístico, já que as forças ucranianas têm atingido os principais centros de distribuição e transporte da Rússia para a Crimeia.

Além disso, a comunicação das tropas russas também entrou em decadência, visto que o país perdeu o acesso ilícito à Starlink. A Rússia também implementou uma nova lei militar para o exterior que autoriza o envio de militares russos para resgatar cidadãos processados por tribunais internacionais (uma resposta direta aos mandados de prisão por crimes de guerra do Tribunal Penal Internacional). O suporte interno da população russa à guerra também decaiu significativamente: o apoio ao conflito no círculo íntimo caiu de 57% (2023) para 45% (2025); a oposição aumentou de 39% para 55%.

A Rússia vem forçando uma “russificação” da Ucrânia em uma empreitada neocolonial, ocupando o território, anexando-o, mediando a política e espalhando desinformação e notícias falsas desde o século passado. Parte da retórica de guerra busca estabelecer os movimentos de resistência (como o Euromaidan) como de extrema-direita, além de negar a própria existência da Ucrânia enquanto nação. Isso ignora completamente a agência dos próprios ucranianos, além de desrespeitar a diversidade interna de movimentos e agentes sociais que também se opõem à guerra como ela vem acontecendo.

Então, há caminhos para a paz?

No momento, os interesses opostos e a falta de garantias de segurança parecem impedir a sedimentação da paz. Talvez, a alternativa possível seja a cessão de parte do território ucraniano para a Rússia em troca da garantia de segurança e integridade territorial, além da entrada na OTAN.

Além disso, aumentar o fluxo de armamentos na Ucrânia e asfixiar logisticamente a Rússia para forçar sua retirada também parece uma opção. No entanto, essa política gera muito mais vítimas civis e pode simplesmente não ser bem-sucedida, já que a Rússia vem sendo sancionada desde 2022 e a guerra não retroagiu desde então.

Em um mundo globalizado como o que vivemos, é impossível fugir dos impactos dos conflitos globais. No caso da Ucrânia, apesar da distância, o Brasil sofreu as consequências: diante da dependência da Rússia para importar fertilizantes, o valor desses insumos aumentou substancialmente com o início das hostilidades.

Além disso, as rotas de navegação também foram diretamente impactadas, já que navios cargueiros são atacados e canais importantes (como os canais de Suez e o Estreito de Hormuz) são fechados ou controlados devido aos níveis de periculosidade. Naturalmente, isso também deprecia o comércio internacional como um todo e compromete importações e exportações globalmente.

Por fim, as pressões internacionais por petróleo também geram um aumento significativo nos preços, em especial para o consumidor comum. O combustível também se torna uma moeda de troca por apoio militar, especialmente quando grandes produtores (como o Irã ou a própria Rússia) estão no epicentro de tensões geopolíticas.

Diante de tantas contradições e de tantas ameaças, parece que uma solução real só se daria por meio de uma mudança estrutural e profunda no funcionamento atual do sistema internacional. Eventualmente, poderemos reorganizar os atores internacionais existentes, evitando a alimentação de novos conflitos e priorizando a segurança e a vida dos civis ao redor do mundo. Embora pareça um desafio distante, essa é a alternativa mais viável para chegarmos a alguma solução efetiva e virtualmente permanente: priorizar os civis e construir um mundo para as pessoas que o habitam, ao invés de reivindicar guerras que se retroalimentam.