A efêmera busca de paraíso nesta Terra está a custar a decência e a probidade de pretensos líderes, sejam eles políticos ou influenciadores, como é moda, agora, dizer-se. A vã glória de poderosos ou inimputáveis fazedores de opinião também.
Na prática, vão corroendo e/ou manipulando outros, desrespeitando o básico sentido do humor ou até do ridículo. A vaidade atasca a miséria moral de tanta amoralidade transgiversada em opinião livremente expressa. E quem perde, aí sem dúvida alguma, é a verdade, a serenidade e a paz real ou tão somente de espírito.
Nestes tempos tóxicos de desregulada barbárie, é óbvio o embuste e, ainda mais óbvio, o interesse em manter castas cada vez mais pequenas no domínio de maiorias cada vez mais atávicas e seguidoras de arrazoados rocambolescos, mas luzidios da tal fama dos famosos. E, para destino cruel de tantos, as sucessivas hordas ruidosas vão continuando as purgas dos divergentes, impuros, infiéis e demais que, pura e simplesmente, não acreditam nos novos deuses, nem os idolatram ou sequer os conhecem, só porque estão noutras bolhas, ou noutras vidas bem menos mediáticas e exploráveis comunicativa e comercialmente.
Quem estuda estes fenômenos sabe bem como eles surgem e, desde Maquiavel até outros bem mais recentes, não nos faltam informações e análises diversas, mas, muitas vezes convergentes e acutilantes, sejam elas mais ou menos politicamente ou sociologicamente corretas ou imparciais. Daí a sua diversidade e riqueza de espectro analítico.
De formas e modos diferentes, a análise diacrônica do real tem tido forte evolução, revolução mesmo, com o salto tecnológico iniciado há dois séculos com a industrialização e, ora, acelerado pelas tecnologias da informação. E, mesmo por isso, a validade e probidade estão constantemente a ser postas em causa, nem que seja pela obsolescência acelerada que tudo transforma num ápice.
Perante tal efemeridade, a resposta humana continua díspar e bem difícil de escalpelizar. Mas só o passar do tempo vai permitindo aquilatar, já não de certezas absolutas, mas de tendências mais ou menos dominantes ou conflituantes. Desse conflito e domínio, ou não, vai-se tecendo a história da nossa espécie neste planeta. Também dessa efemeridade, infelizmente, muitos se esquecem, tentando fugas em frente ou regressos a passados já até esquecidos.
A toxicidade de tudo isto é antiga e violenta, pois gera contínuo conflito e agressão. Mas a espécie está habituada a isto e adapta-se como sempre o fez, desde que pelo menos existem registos históricos ainda remanescentes na memória humana. A voragem temporal também não nos é estranha, por mais que não gostemos dela, principalmente os que dominam o poder.
O que hoje é tragicómico é aceder facilmente ao descorrer da actualidade em tempo real e perceber que o rei dos reis vai nu e destemperadamente se autoproclama único e irredutível senhor dos senhores do mundo, da cidade, do quarteirão onde habita ou tão só do quintal onde vai prosperando.
É que nem se apercebe da mortalidade a que ninguém escapa, por mais trogloditamente que se envaideça e, estridentemente, o anuncie agora ao ritmo do algoritmo do bit das redes, ditas sociais.
A toxicidade destes tempos e destes destituídos e palavrosos líderes é visível mais pelo impacto cênico do que vão destruindo toscamente, e menos pelo real valor do que defendem ou propõem. Acima de tudo tornam virais e criticamente viciantes os aspectos mais negativos das suas acções destrutivas, talvez adiando impasses ou resolução de problemas e situações evitáveis e bem mais construtivas.
Do umbiguismo esparvoado à feroz e assassina ditadura, também vão dois passos e, por isso, também é fundamental resistir a tais personagens por mais bufas que pareçam, tal como essencial se torna dizer não ao ditatorial impulso de muitos estriônicos pseudo-líderes de multidões ululantes e arrasadoras.
Uma possível abordagem relevante nestes tempos tóxicos é a ironia parcimoniosa e acutilante que vá expondo a tonteira da vaidade e da efemeridade do poder pelo poder.
O humor sempre tem sido um valor seguro na resistência resiliente à opressão e um sério combatente pelas liberdades.
E das liberdades ameaçadas pela toxicidade destes tempos em que vivemos, não podemos de forma alguma ir abdicando.
Destes líderes de opereta bufa também nos poderemos libertar se quisermos contrapor valor humano contra vaidade inebriante, mas oca e balofa. O tempo, também disso, se encarregará por certo.
Até lá, deveríamos antes progredir para formas mais amigas da solidariedade básica que nos tem permitido ir fazendo história neste planeta que tanto esquecemos e desmerecemos pela destruição da vida a que tristemente vamos assistindo.
Que ao menos consigamos resistir ao ímpeto hedonista e egocêntrico do individual e que se procure um maior equilíbrio social e ambiental que nos faça persistir e insistir em valores e causas mais livres, mais democráticas e sensíveis à harmonias.
Que esta resistência consiga devolver esperança a tantos que esmorecem em desespero. Que, tal como a liberdade, não morra a esperança em dias e tempos diversos e mais humanos.















