Vamos supor que sou um aluno com péssimas notas, negativas imensas, passei sempre de ano, agora tive uma epifania e quero processar o Estado.

Olho para o meu certificado do 12º ano e não sinto orgulho. Sinto vertigem. Aquele documento, com o selo da República e assinaturas oficiais, é a prova material de uma mentira coletiva. No papel, as estatísticas do Ministério contam-me como um sucesso, um número que ajuda o país a cumprir metas europeias. Na realidade, sou um náufrago empurrado para o alto mar sem saber nadar, apenas porque os instrutores acharam "cruel" deixar-me na margem.

A minha história não é a de um rebelde ou de um génio incompreendido. É a história do facilitismo. Durante doze anos, fui o aluno das negativas crónicas, principalmente no terceiro ciclo, e dos trabalhos em branco. No entanto, todos os verões, acontecia o milagre: o Conselho de Turma. Sentados à volta de uma mesa, os meus professores decidiam o meu destino com frases de uma bondade tóxica: "Ele é bom rapaz", "Reter só o vai desmotivar", "Com a idade que tem, não pode ficar para trás".

Empurraram-me. Ano após ano. Na altura, eu celebrava o que achava ser uma vitória sobre o sistema. Enquanto os meus colegas estudavam a Revolução Francesa ou a lógica das equações, eu olhava para o teto, seguro de que a "mão invisível" do Estado me resgataria. O Estado não me quis castigar; o Estado quis relaxar. Quis evitar o conflito, o custo e o peso estatístico de um aluno retido. Mas, ao relaxar na exigência, o Estado abandonou-me.

Agora, a conta chegou. E é pesada.

Entrei no mercado de trabalho e percebi que o meu 12º ano, ironicamente tirado num regime profissional, é uma máscara. Quando tento escrever algo, a minha gramática vacila; as vírgulas são peças de um puzzle que nunca me ensinaram a montar. Sou um analfabeto funcional com um canudo na mão. O sistema tratou a minha educação como um processo de logística: o objetivo era apenas fazer o produto (eu) percorrer a linha de montagem até ao fim, independentemente de o motor funcionar.

Sinto uma raiva surda por esta benevolência. Se tivessem sido "cruéis", se me tivessem obrigado a confrontar a minha ignorância aos 14 anos, talvez eu tivesse despertado. O chumbo teria sido um diagnóstico, não uma sentença. Teria sido o sistema a dizer-me: "Pára aqui, porque ainda não sabes o que é preciso para o passo seguinte". Em vez disso, deram-me uma passadeira vermelha sobre um abismo.

Os Conselhos de Turma foram a cozinha da minha incompetência atual. A educação não é apenas passar de ano; é construir uma estrutura mental. Cada livro que ignorei porque "passava na mesma" era um tijolo que faltava nos meus alicerces. Agora, a casa é alta, o telhado diz "Ensino Secundário", mas a estrutura treme nesta complexa vida adulta.

Sinto-me defraudado. A retórica da "escola inclusiva" é linda nos cartazes, mas terrível quando significa nivelar por baixo. O Estado criou uma geração de cidadãos com direito ao voto, mas sem discernimento para ler as entrelinhas de um programa eleitoral. Trabalhadores com diploma, mas incapazes de competir.

A sensação de "não saber nada" é paralisante. É a humilhação de ter de pedir auxílio a uma IA para conceitos que deveriam ser óbvios. É o medo constante de ser descoberto, de alguém perceber que este adulto não sabe calcular uma percentagem ou situar o Século das Luzes no tempo. O Estado, ao não ser punitivo, retirou-me a dignidade do esforço. Ensinou-me que a mediocridade era aceitável.

Mas o mercado de trabalho não é um Conselho de Turma, que, devido ao excesso de burocracia e às "ordens" do Ministério, impede de fazer o trabalho correto, que deveria ser a bitola alta e não baixa. Para o Ministério, os alunos são números, dos quais querem quantidade em vez de qualidade, aproveitando para ser, sempre, propaganda política.

A economia não quer saber se sou "bom rapaz". Quer competência. E eu tenho apenas plástico. O "relaxamento" do sistema foi a sua maior negligência. Transformaram a escola num serviço de hospitalidade onde o aluno é o cliente que tem de sair satisfeito. Esqueceram-se de que a escola deve ser o ginásio da mente e ninguém ganha músculo se os pesos forem de papel.

Hoje, aos vinte e tal anos, sou o meu próprio professor rigoroso. Estou a fazer o caminho solitário de aprender o que desprezei, dando agora o valor que teria dado num ensino noturno sério.

Fica a pergunta amarga: se o Estado me prometeu educação e me entregou apenas um papel sem conteúdo, se hipotecou o meu futuro para não lidar com as minhas notas no presente... será que posso processar o Estado por danos patrimoniais e morais? Porque a fatura da "bondade" está a ser paga por mim, todos os dias.