Sabe como os americanos têm uma obsessão meio maníaca pelo 4 de julho? Às vezes, eu até entendo, porque é mais ou menos assim que eu me sinto em dia de eleição aqui no Brasil, principalmente das eleições presidenciais. Se você é brasileira(o) ou se acompanha minimamente a situação política do país, sabe bem que nos últimos anos vivemos uma crise política e institucional sem precedentes. A polarização se infiltrou em praticamente todas as camadas da vida pública e privada de cada um e atravessa todas as relações sociais hoje em dia.
Se você não vota no Bolsonaro, é petista; se você não vota no Lula, é bolsonarista — parece que realmente já não existem mais outras possibilidades de posicionamento político no meio e mais à esquerda. Porque se Bolsonaro é extrema direita, sinto em dizer aos que continuam contrariando, mas Lula está muito longe (e bota muito nisso) de ser extrema esquerda.
Porém, voltando, quando toco neste ponto da polarização — preciso esclarecer —, é também uma autocrítica, pois me incluo nesse tipo de pensamento dicotômico: hoje em dia, automaticamente, quando alguém começa a falar mal do governo Lula perto de mim, eu já me pego revirando os olhos e associando a pessoa a uma postura mais arcaica. Entretanto, acho importante também explicitar que tenho todas as minhas críticas ao Lula e ao PT, e vou além: não me considero, de maneira nenhuma, petista ou lulista.
Eu sou, sim, uma pessoa com fortes convicções à esquerda política, e, como eu já disse, acredito que Lula e seu partido vêm se afastando cada vez mais deste campo. Ainda assim, não consigo evitar ser tragada para essa grande confusão institucional brasileira.
Sinto que esse é um problema territorial, e precisamos, de tempos em tempos, parar para analisar nossos próprios comportamentos. Acho muito engraçado porque parece que, do dia para a noite, todos viraram especialistas, até aqueles que sempre diziam não ligar para política.
Em algum momento, nos perdemos e esquecemos o quanto o debate político é importante, o quanto ele é essencial. As discussões políticas se tornaram um grande apontar dedo para os erros do adversário, sem ao menos apresentar propostas de melhoria. Não existe mais uma oposição estruturada, muito menos um debate politizado. Houve um tempo, não há muitos anos, em que PSDB e PT eram os maiores rivais do país, e ainda assim existia discussão e respeito. Quem não se lembra de que FHC e Lula compareceram, cada um deles, ao velório das falecidas esposas um do outro? Porque ia além do ódio cego; havia humanidade.
Contudo, divaguei.
O ponto deste texto é exatamente esse: as pessoas enlouqueceram no Brasil quando o assunto é política, mesmo aqueles que tentaram muito não se contaminar. E, ainda assim, eu amo o dia de eleições. Pois mesmo em meio ao caos, acho simplesmente o máximo que nós, como população civil, tenhamos o direito de ir, organizadamente em um dia, escolher quem vai nos representar, quem vai nos guiar e quem vai cuidar de nós e do nosso país nos próximos anos.
Como mulher, acho ainda mais imprescindível ir honrar o meu direito nessa escolha todas as vezes que eu posso — e sabemos agora que este e todos os direitos das mulheres estão sob constante ameaça, a apenas uma votação no Senado mais conservador de todos os tempos de serem extirpados de nós. De fato, não consigo entender quem escolhe não ir, ou quem não liga de não ir por conta de algum outro fator, como uma viagem, por exemplo.
Todo dia de eleição, eu faço questão de comparecer, porque sei que esse direito foi conquistado com a luta incansável de todas que vieram antes de mim. Sendo assim, é algo que deve ser valorizado, venerado e exaltado.
Eu, como mulher, honro este direito e me recuso a jogar meu voto fora, seja não indo votar, seja entregando meu voto a candidatos que nitidamente querem que eu me recolha na ultrapassada insignificância da “mulher que edifica o lar”. Eu me recuso a jogar meu voto fora escolhendo quem quer ver a população LGBTQIA+ morta, quem quer ver a população negra à margem da sociedade, quem quer praticar o genocídio contra os povos originários, quem quer entregar nossas riquezas a países imperialistas, quem quer que o filho da empregada permaneça em posições de subserviência. Tudo isso para que eles possam continuar fazendo parte dessa parcela exclusiva da sociedade, gozando dos seus privilégios intocáveis, distante de nós.
Em tempos tão sombrios que se aproximam por aqui, cada vez mais o nosso Congresso, predominantemente formado por homens brancos cis ricos e seus ideais acima de todos os outros, minimiza e desrespeita a mulher como um sujeito plenamente autônomo, cuja existência, liberdade e direitos não estão condicionados à presença ou à tutela masculina.
Não, nós não servimos só para cuidar de tarefas domésticas, criar filhos e dar suporte — e pode parar aí se você for mulher e quiser já rebater com “ai, mas eu gosto disso, eu quero isso”; agradeça se esse for o caso, pois felizmente, você pode escolher isso, que sim é todo o fundamento feminista! Nossa existência nesse mundo vai muito além da esfera matrimonial e familiar. Somos seres com desejos, opiniões, vontades e força própria.
Podemos querer viajar o mundo, construir uma carreira de sucesso ou ser mães em tempo integral. Mas o mais importante é que tenhamos escolha.
O dia de eleição, para mim, é muito sobre isso: participar da escolha. Pois eu sei que nem todas as que vieram antes de mim tiveram essa oportunidade, e sei que tem muitos poderosos por aí que estão a um passo de reverterem esse direito. Por isso, eu faço questão de usufruir dele em cada vez que me é dada a oportunidade.
Neste exato momento, em que escrevo e publico este texto, estamos passando pelo momento entre o primeiro e segundo turno, com o coração muito aflito e a ansiedade explodindo após o resultado do último domingo. Nosso Senado nunca foi tão reacionário, preconceituoso e antiquado, portanto, independentemente de quem seja eleito presidente, já sabemos que os próximos anos não serão fáceis.
Todavia, ainda há esperança de termos um líder diplomático e aberto à discussão e à mudança, por isso a decisão é simples neste momento: temos que decidir simplesmente entre um caminho de esperança com propostas concretas a serem realizadas e um caminho de retrocesso em direitos, em economia e em humanidade. Não é tão difícil assim quando nos forçamos a olhar além do ódio cego ao outro lado. Você já deve saber qual desses caminhos prefere, então tenha certeza (com fatos e argumentos) de que a figura em que você vota realmente faça jus a isso.
Escrevo isso com muito medo do que está por vir nos próximos anos, para toda a nação, mas em especial para os grupos sociais que mais precisam de amparo. O exercício de humanidade, de solidariedade e de empatia se faz aqui também, uma vez que não votamos somente por nós mesmos; devemos pensar no outro e o quanto as políticas públicas (ou a falta delas) podem afetar milhões de vidas em nosso país.
Por fim, tenho um recado para todas as mulheres: eu não ligo para o seu candidato. Independentemente de quem seja sua escolha, peço somente que essa reflexão sempre passe pela sua cabeça quando for tempo de eleição: vá votar, exerça seu direito. E quando for, lembre-se também de que seu direito de escolha corre perigo, porque este é um mundo feito para homens. Portanto, escolha bem.















