Há uma terra onde a água é escassa, a paisagem vai-se tornando árida sob o domínio da seca e a memória, lentamente, deposita-se como pó sobre a terra. É o Alentejo, região a sul de Portugal, local de origem da família de Tiago Alexandre e onde o artista passou, desde a infância, os seus verões na companhia de um familiar. Pesca, animais, motociclos, lagoas: um universo de experiências que contribuiu para construir um imaginário afetivo destinado a ressurgir muitos anos mais tarde.

Dá-me uma gotinha de água partilha o título com um canto tradicional alentejano. Na sua forma original, a frase é uma espécie de oração dirigida a uma terra árida e sedenta. Na exposição de Tiago Alexandre, porém, o mesmo pedido assume um significado mais íntimo: torna-se a manifestação de uma necessidade de amor, de cuidado, de afeto. Um pedido elementar e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar: dá-me pelo menos uma pequena gota.

A prática de Alexandre nasce do entrelaçamento entre experiência, desejo e imaginação e transita livremente entre a escultura, o desenho, o vídeo, a pintura e os objetos. Imagens, situações e fragmentos do dia a dia constituem frequentemente o ponto de partida. Mais do que reproduzi-los, o artista altera a sua percepção para exorcizá-los, observando o que acontece quando são retirados do seu contexto original. Também nesta exposição, elementos aparentemente simples — um animal, um alguidar, uma vela, uma carapaça — tornam-se dispositivos através dos quais o familiar se abre a novas possibilidades de sentido, até compor um canto único, necessário e partilhado.

Neste sentido, a água não é apenas o que falta à paisagem do Alentejo, mas também uma maneira da memória ressurgir. De facto, como sugere o filósofo francês Gaston Bachelard, a água é uma matéria privilegiada da imaginação: não se limita a reflectir o que vivemos, mas transforma-o, tornando-o novamente presente através de imagens, associações e memórias. No seu movimento incessante, na sua capacidade de se insinuar e penetrar, a água encarna o mesmo ritmo da existência: a passagem contínua entre vida e morte, memória e esquecimento, mas também a possibilidade de uma purificação, de uma transformação.

(Excerto do texto de Domenico de Chirico)