Muitas pessoas me perguntam o que estou fazendo durante este período sabático. A pergunta sempre me parece curiosa porque parte da ideia de que existe uma separação entre trabalho, desenvolvimento pessoal, espiritualidade e vida cotidiana. Talvez essa seja uma distinção que faça sentido para muitas pessoas, mas nunca foi realmente a minha experiência.
Uma das maiores bênçãos da minha trajetória foi encontrar mestres, terapeutas e experiências que me ensinaram a integrar essas diferentes dimensões da vida. Aos poucos, fui abandonando a ideia de que existe uma pessoa para trabalhar, outra para amar, outra para rezar e outra para criar. O caminho que escolhi foi justamente o oposto: tornar-me uma só pessoa. Imperfeita, em constante aprendizagem, mas comprometida em diminuir a distância entre aquilo que ensino e aquilo que vivo.
Por isso, quando me perguntam o que faço no sabático, tenho dificuldade em responder com uma lista de atividades. A verdade é que continuo fazendo muitas das coisas que sempre fiz. Continuo estudando, escrevendo, rezando, observando meus pensamentos, dançando quando o corpo permite, investigando a vida e acompanhando o movimento da alma. O que mudou não foi a essência da minha existência, mas a forma como a energia circula dentro dela.
Não digo isso para romantizar o trabalho ou sugerir que todos deveriam sentir o mesmo. Ao longo da minha vida conheci profundamente o estresse, a pressão e a exaustão. Vivi as exigências dos palcos, a responsabilidade de dirigir uma companhia de dança, a intensidade de criar um método, liderar grupos, organizar retiros e acompanhar pessoas em processos de transformação. Houve momentos de enorme realização, mas também períodos em que o peso das responsabilidades me aproximou do burnout.
Talvez por isso eu tenha uma profunda compreensão por aqueles que sonham com a aposentadoria. Existem trabalhos que drenam a energia vital e existem profissões que exigem uma força enorme apenas para serem suportadas. Nunca me sentiria superior a alguém que deseja descansar depois de décadas de esforço. Cada ser humano conhece o peso da própria caminhada.
Ao mesmo tempo, existe uma outra realidade que também aprendi a reconhecer: a do artista, do criador e da pessoa movida por uma força interior que não desaparece com a idade. Quando penso nas mulheres que me inspiraram, vejo esse padrão repetindo-se continuamente. Gabrielle Roth continuou dançando e ensinando até onde o corpo lhe permitiu. Anna Halprin permaneceu criando praticamente até os cem anos. Martha Graham e Pina Bausch mantiveram uma relação viva com a arte até os últimos dias de suas vidas. Não porque fossem incapazes de parar, mas porque a criação não era uma atividade separada da existência. Era uma expressão da própria vida.
Martha Graham escreveu uma frase que me acompanha há décadas: “There is a vitality, a life force, an energy, a quickening that is translated through you into action.” Sempre senti que essa frase descrevia algo essencial. Existe uma força vital que busca expressão através de cada um de nós. Quando a ignoramos, algo dentro de nós perde cor. Quando a escutamos, ela se torna uma fonte constante de renovação, criatividade e significado.
Recentemente encontrei outra linguagem para compreender esse processo no livro What to Make of a Life: Cliffs, Fog, Fire and the Self-Knowledge Imperative. Os autores descrevem quatro elementos que aparecem repetidamente nas vidas que deixam uma marca significativa: os precipícios (cliffs), os períodos de neblina (fog), o fogo interior (fire) e aquilo que chamam de the self-knowledge imperative, o imperativo do autoconhecimento. Ao ler essas páginas, tive a sensação de revisitar a minha própria história. Reconheci os precipícios que exigiram coragem, os períodos em que não conseguia enxergar o próximo passo, as mudanças de identidade, os recomeços e as perdas inevitáveis. Mas também reconheci algo que atravessou todas essas fases: o fogo.
Esse fogo assumiu muitas formas ao longo da minha vida. Foi a paixão pela dança, o desejo de criar, a curiosidade que me levou a estudar o corpo e a mente, o fascínio pelos mistérios da consciência, a busca espiritual e o chamado para servir. Olhando para trás, percebo que ele nunca esteve separado do autoconhecimento. Quanto mais profundamente me conheço, mais consigo distinguir aquilo que pertence às expectativas externas daquilo que verdadeiramente pertence à minha essência.
Talvez seja por isso que a ciência moderna tem se aproximado cada vez mais daquilo que os artistas sempre souberam intuitivamente. Hoje sabemos que o movimento influencia diretamente a plasticidade cerebral, a criatividade, a regulação emocional e a capacidade de adaptação. O cérebro humano prospera quando continua aprendendo, explorando, criando novas conexões e permanecendo curioso diante da vida. Em muitos aspectos, aquilo que chamamos de envelhecimento saudável está profundamente ligado à nossa capacidade de continuar em movimento — não apenas fisicamente, mas emocionalmente, intelectualmente e espiritualmente.
Foi dessa compreensão que nasceu o Movement for Life. Com o passar dos anos, percebi que o movimento é muito mais do que uma prática corporal. Ele é uma filosofia de vida. Uma forma de permanecer em diálogo com aquilo que continua vivo dentro de nós, mesmo quando as circunstâncias externas mudam. O ciclo que ensinamos — reconhecer, expressar, transformar, curar e mudar — deixou de ser apenas uma metodologia de trabalho e tornou-se uma forma de navegar a própria existência.
Foi também essa compreensão que me levou ao que chamo de ponto zero: um espaço interno de presença onde a vida pode ser encontrada exatamente como ela é. Um lugar que permanece acessível tanto nos períodos de expansão quanto nos períodos de recolhimento. Talvez seja por isso que o sabático nunca tenha parecido uma ruptura. Não senti que estava me afastando da minha vida; senti que estava entrando mais profundamente nela.
Naturalmente, a maturidade trouxe mudanças. Aos 63 anos, não sinto mais a necessidade de aceitar tudo, provar tudo ou estar em todos os lugares. Existe um refinamento que só o tempo pode oferecer. Se a juventude é o período da expansão, a maturidade talvez seja o período da destilação. Começamos a reconhecer com mais clareza aquilo que nos nutre e aquilo que nos esgota. Aprendemos a proteger a energia, a honrar os limites do corpo e a valorizar relações, projetos e experiências que realmente possuem significado.
Talvez uma das maiores dádivas desta fase da vida seja justamente o privilégio da escolha. Hoje posso escolher com mais consciência onde coloco minha atenção, minha energia e meu tempo. Posso escolher os projetos que ressoam com os meus valores, os ambientes que favorecem a minha saúde e os clientes com quem sinto uma troca genuína. Não porque a vida tenha se tornado mais fácil, mas porque o autoconhecimento tornou a escolha mais clara.
Por isso, quando me perguntam o que estou fazendo no sabático, percebo que a pergunta talvez não seja sobre o que faço, mas sobre o que permanece. E o que permanece é aquilo que sempre esteve presente: o desejo de aprender, de criar, de servir, de rezar, de compreender a vida e de acompanhar outros seres humanos em suas jornadas de transformação.
O sabático não representou uma pausa na minha história. Se pudesse defini-lo em uma única frase, diria que ele foi uma simplificação. Uma oportunidade de retirar o excesso, diminuir o ruído e retornar ao essencial.
No fundo, o que mudou não foi a minha vida. O que mudou foi a relação que construí com ela. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de liberdade: descobrir que, mesmo quando as formas mudam, existe algo dentro de nós que continua aceso, iluminando o caminho.
O fogo continua aceso.















