Quando ouvi falar em medicina do cacau pela primeira vez, não fazia a mínima ideia do que se tratava. Pensei que era mais um modismo, dentre tantos que vemos nesta era digital. Mas não podia estar mais equivocada. E hoje quero compartilhar essa história com você.
A origem da medicina do cacau
A tradição do cacau cerimonial remonta à civilização olmeca, surgida no Golfo do México em torno de 1500 a.C. Acredita-se que essa civilização tenha dado origem aos demais povos mesoamericanos, como incas, maias e mexicas (astecas). A palavra cacau é de origem olmeca e línguas maias subsequentes — kakaw. Já o termo chocolate é originado de cacahuatl, em língua nahuatl (asteca).
Originariamente, eles preparavam uma bebida amarga e concentrada, que era consumida apenas pelos nobres e guerreiros. Eles moíam as sementes com água e, após tornar essa mistura líquida, acrescentavam ervas, condimentos e pimenta. No México pré-hispânico, as vagens eram secas ao sol, torradas e prensadas entre duas pedras quentes até formarem uma pasta, que depois era moldada em barras. Em seguida, eram acrescentados açúcar, mel, água e especiarias.
No Império Mexica, o cacau era utilizado como moeda, sendo que os impostos eram pagos em sementes de cacau. A bebida também era utilizada em rituais fúnebres, para homenagear as pessoas falecidas, assim como em rituais religiosos, como oferenda sagrada. Além da amêndoa do cacau, também eram usadas as cascas, a manteiga, as folhas e as flores, mostrando a importância dessa planta para a medicina daquela época.
No campo ritualístico, as culturas maia e mexica (asteca) consideravam o cacau um alimento divino, dado pelo deus Serpente Emplumada Soberana aos seres humanos. Nesse sentido, a bebida preparada com o cacau era utilizada em cerimônias xamânicas em homenagem a diversas divindades e tinha por objetivo abrir o coração dos participantes para uma viagem interior de reequilíbrio espiritual. Existiam festivais maias em homenagem ao deus do cacau, Ek Chuah, e rituais que envolviam sacrifícios de sangue em homenagem ao deus do comércio, Yacatecuhtli, na cultura mexica.
Cacau medicinal: dos tempos antigos aos dias atuais
Escritos da Era Colonial, como o Codex Badianus (1552) e o Codex Florentino (1590), além de outros subsequentes, trazem mais de 100 usos medicinais do cacau. Na saúde física, ele é uma importante fonte de magnésio, potássio e sódio, minerais essenciais à saúde. Além disso, a teobromina presente no cacau produz beta-endorfinas, que são responsáveis por gerar a sensação de relaxamento e felicidade. Ele também é um poderoso antioxidante, ajudando a prevenir doenças degenerativas e aumentar a longevidade.
Considerado uma bebida inebriante, o cacau era reservado somente para a nobreza, em especial homens e governantes, sendo símbolo de riqueza e status social. Em meados do século XVIII, Carl Linnaeus nomeou a planta com o nome Theobroma cacao, que significa “Alimento dos deuses”.
Aqui, você pode se perguntar: por que a medicina do cacau se tornou algo tão popular entre as mulheres? E onde entra Mama Cacau ou Ix Cacau neste contexto?
Ix Cacau: a deusa do cacau
Ix Cacau é citada uma única vez, no livro Popol Vuh, em uma passagem em que uma mulher pede suas bênçãos para passar por algumas provações. De resto, não se tem notícias acerca desta divindade. Uma possível explicação para isso seria que, na cultura maia, as divindades eram cultuadas em sua dualidade homem-mulher. Nesse sentido, Ix Cacau poderia ser a contraparte feminina de Ek Chuah, considerado o deus do cacau. Outra possibilidade seria o sincretismo com a figura de Ixchel, deusa da Lua, da medicina, da gestação, da água, do amor e da fertilidade.
Ixchel, cujo nome significa “mulher arco-íris”, é retratada como uma deusa dual, ora amorosa e benevolente, ora raivosa e destrutiva, sendo capaz de criar e destruir a Natureza e tudo o que nela existe. Por vezes retratada como uma jovem e outras como uma velha que despeja água na terra, ela incorpora o arquétipo de deusa da colheita e do clima, por ser quem controla os ciclos lunares, responsáveis pela fertilização do solo. Portanto, sem Ixchel, o cacaueiro jamais poderia crescer e dar frutos. Consequentemente, sua medicina jamais seria conhecida.
Tanto em Cozumel quanto na Isla Mujeres, no México, ainda existem templos dedicados a Ixchel, onde eram praticadas as artes da cura e oráculos. Independentemente do nome, Ix Cacau incorpora o arquétipo feminino, a Grande Deusa que traz nutrição às nossas vidas, abundância, prosperidade e, principalmente, autoconhecimento. Ela faz ressurgir o que é belo em nossas vidas, demonstrando que, embora haja muitas estradas, o caminho é um só: reverenciar a Mãe Terra, cuidar dos seus frutos para que assim também possamos frutificar nossas ideias, projetos de vida, sentimentos e ações.
O resgate da medicina do coração
Embora faça pouco tempo que estejamos ouvindo falar sobre a medicina do cacau de forma aberta, a verdade é que ela nunca deixou de ser utilizada. Na América do Sul, a cultura inca, que também teve sua economia centrada no cacau e o considerava uma dádiva divina, sobreviveu através dos povos andinos. Os povos amazônicos também perpetuaram a cultura do cacau através dos séculos, mantendo não só a tradição medicinal, mas também ritualística em torno desse fruto.
Tradições xamânicas antigas acreditam que a medicina do cacau ressurge em resposta à necessidade de voltarmos a viver em harmonia com Pachamama. E elas não poderiam estar mais certas. Afinal, a medicina do coração nos convida a uma viagem interior, na qual o espírito dessa medicina nos ajuda a acessar nossa sabedoria interna e assim transformar nossas emoções, vivendo, uma vez mais, em completa harmonia.















