Como a atenção plena regula o sistema nervoso quando aeroportos, multidões e cenários turísticos ativam o excesso de estímulo?

Em fevereiro de 2026, tive a oportunidade de fazer uma viagem para uma das cidades turísticas mais famosas do Rio Grande do Sul: Gramado!

No entanto, ao contrário de muita gente que já se empolga só de planejar roteiros turísticos, escolher looks de viagem e — por que não — imaginar o que vai comprar nas lojinhas locais, eu simplesmente não conseguia pensar em nada disso. Minha ansiedade pré-viagem entrou em ação com toda a criatividade possível, criando um verdadeiro catálogo de cenários catastróficos sobre tudo o que poderia dar errado. Enquanto algumas pessoas fazem listas de restaurantes e passeios, meu cérebro aparentemente prefere escrever roteiros de filmes de desastre. Resultado: eu mal conseguia aproveitar, em pensamento, os momentos de lazer que estavam por vir — e que depois se revelariam tão memoráveis.

Outro ponto importante é que meu cérebro responde de maneira particularmente sensível a sons altos e multidões. Isso inclui ambientes como aeroportos e até alguns cenários turísticos. No fim do dia, fico com a mente e o corpo tão cansados como se tivesse corrido uma maratona — só que sem medalha, sem camiseta do evento e, infelizmente, sem os benefícios cardiovasculares.

Antes mesmo de chegar ao destino gaúcho, por exemplo, precisei fazer escalas em dois aeroportos. Confesso que, em certos momentos, tive a sensação de estar sendo engolida pelo fluxo interminável de pessoas. Era aniversário da minha irmã, e eu mal conseguia me concentrar para lhe enviar uma mensagem. O motivo? A sala de embarque parecia um grande coral improvisado de vozes, anúncios, malas de rodinhas e notificações sonoras — todos competindo para ver quem fazia mais barulho. E, claramente, estavam ganhando.

No fim do dia, quando finalmente cheguei ao quarto do hotel, liguei para ela de dentro da suíte — o ambiente mais tranquilo que encontrei, felizmente livre de ecos e do vai-e-vem de vozes no corredor. Foi ali que consegui, enfim, contar toda a minha saga até o destino final: Gramado, a famosa terra dos fondues, dos vinhos, dos chocolates artesanais e dos irresistíveis cafés coloniais. Depois de tantos aeroportos, multidões e anúncios de embarque, parecia quase irônico que o prêmio final fosse justamente um lugar feito para desacelerar, comer bem e fingir, por alguns dias, que a vida pode mesmo ter gosto de chocolate.

Toda essa reação intensa aos estímulos tem nome: introversão. Isso mesmo. O cérebro de pessoas introvertidas funciona quase como um celular com bateria sensível: depois de muita socialização — seja com pessoas, situações ou ambientes altamente carregados de estímulos, como aeroportos —, ele precisa de um tempo para recarregar em modo silencioso.

Enquanto isso, o cérebro de pessoas extrovertidas parece operar no modo oposto: quanto mais movimento, conversas e grupos por perto, mais energia ele ganha. Em termos simples, o que para alguns é combustível social, para outros pode parecer uma verdadeira maratona sensorial.

Um cérebro, dois modos de recarregar energia: como introversão e extroversão moldam a forma como reagimos aos estímulos sociais

Para os extrovertidos, “quanto mais gente, melhor”. Seu universo é ao lado de pessoas ou eventos sociais em que ele(a) possa discutir, debater, interagir com o maior número de pessoas possível. Geralmente se sentem entediados, ansiosos ou mal-humorados quando estão sozinhos. Aliás, não ficam sozinhos por muito tempo, pois logo estão em contato com amigos em busca de algo para fazer.

Introvertidos, por outro lado, preferem um grupo seleto a multidões. Refletem com mais profundidade antes de tomar decisões e precisam de um tempo maior de descanso após interagir com várias pessoas ou cenários ao mesmo tempo. Como visitar lugares diferentes em uma excursão ou viagem, por exemplo. Este pode ser o motivo pelo qual algumas pessoas fazem tanto sucesso no palco, enquanto algumas fazem a diferença atuando nos bastidores.

Do ponto de vista neuroquímico, há algumas diferenças no modo como cérebros mais introvertidos e mais extrovertidos respondem aos estímulos. Pesquisas em psicologia da personalidade sugerem que pessoas extrovertidas tendem a ter um sistema dopaminérgico menos sensível à recompensa, o que faz com que respondam mais intensamente a estímulos externos, como socialização, novidade e experiências estimulantes. A dopamina é um neurotransmissor ligado ao sistema de recompensa do cérebro, associado à sensação de prazer, motivação e aprendizado — por exemplo, quando ganhamos um jogo, recebemos uma boa notícia ou alcançamos um objetivo. Por isso, ambientes dinâmicos e interações sociais podem ser particularmente energizantes para pessoas mais extrovertidas.

Em contraste, cérebros mais introvertidos tendem a ser mais sensíveis à estimulação dopaminérgica. Por isso, ambientes com muitos estímulos — como barulho, multidões ou situações sociais muito intensas — podem rapidamente gerar sensação de cansaço ou sobrecarga. Além disso, alguns pesquisadores sugerem que pessoas introvertidas podem se beneficiar mais da acetilcolina, um neurotransmissor associado a estados de calma, atenção sustentada, aprendizado e reflexão. Atividades tranquilas, como ler, escrever ou pensar profundamente sobre um tema, podem ativar esse sistema e produzir uma sensação de satisfação. Já pessoas mais extrovertidas costumam buscar ambientes ricos em estímulos e novidade, nos quais o sistema de recompensa associado à dopamina é mais frequentemente ativado. Em outras palavras, enquanto muitos extrovertidos se energizam com movimento e interação, os introvertidos tendem a encontrar prazer e recuperação em contextos mais silenciosos e reflexivos.

Entre curiosidade e exaustão: quando explorar o mundo exige pausas internas*

Quando falamos em “neurociência da viagem” para introvertidos, dizemos que conhecer o mundo não é apenas deslocar-se geograficamente, mas também aprender a regular a própria energia mental diante de territórios intensos e socialmente estimulantes.

Como vimos anteriormente, cérebros dos introvertidos são mais sensíveis à dopamina, o que significa que atingem a capacidade de estimulação rapidamente e precisam recuar para recarregar. A acetilcolina, que estimula a reflexão, é seu caminho dominante, tornando a viagem tranquila e reflexiva mais gratificante do que a socialização constante e de alta estimulação.

Dessa forma, ao chegar a Gramado, escolhi aproveitar a viagem respeitando meu funcionamento cerebral introvertido. Mesmo sendo um destino bastante movimentado, Gramado pode se tornar uma experiência muito interessante para cérebros introvertidos quando a viagem é planejada com ritmo, pausas sensoriais e atenção ao ambiente. E, por falar em atenção, apliquei práticas de mindfulness durante todo o trajeto da experiência turística.

Mindfulness, ou atenção plena, é um estado mental que convida a mente a repousar no momento presente, com curiosidade e abertura à experiência, consciente das próprias sensações e emoções, sem julgamentos apressados. Mais do que uma técnica, trata-se de um exercício de presença — uma forma de aprender a observar o que acontece dentro e fora de nós com gentileza e lucidez. As práticas de mindfulness têm me ajudado especialmente a lidar com um sistema nervoso mais introvertido, facilmente ativado pelo excesso de estímulos sensoriais que todo novo cenário turístico costuma trazer.

Em Gramado, isso quer dizer:

  • 1) Transformar a viagem em experiência sensorial lenta:

Aproveitar a gastronomia local, comendo de forma consciente (mindful eating), usando todos os sentidos para vivenciar e saborear a comida com presença, atenção e curiosidade. Mais do que simplesmente comer, trata-se de perceber aromas, texturas, cores e sabores, permitindo que cada experiência gastronômica seja apreciada no ritmo do momento. Isso inclui vivências como os tradicionais cafés coloniais (caracterizados por uma enorme variedade de pães, cucas, geleias, tortas, embutidos e frios, de origem alemã e/ou italiana); sessões de fondue, tanto salgadas — compostas por legumes, queijos e carnes — quanto doces, acompanhadas de frutas, marshmallows, calda de chocolate e creme de doce de leite; além da degustação de chocolates, explorando conscientemente os diferentes tamanhos, cores, texturas e formas, transformando o ato de comer em uma experiência sensorial completa.

  • 2) Alternar ambientes intensos com refúgios de silêncio:

Tive a oportunidade de visitar um ambiente rico em estímulos, fascinante em detalhes, mas também intenso em sensações. O espaço reunia réplicas de obras de várias partes do mundo — hotéis, casas, museus, igrejas, castelos, barcos, palcos temáticos, carros e trens, só para citar alguns —, todos apresentados em miniatura. A riqueza de detalhes era tamanha que cada cenário parecia convidar o visitante a uma nova descoberta. Personagens como princesas, ursos, bruxas e até um limpador de chaminé interagiam com o público, ampliando ainda mais a experiência sensorial.

O parque temático atraía multidões e, diante de tanta estimulação, foi necessário adotar uma estratégia especialmente eficaz para pessoas mais introvertidas: intercalar os momentos de intensa atividade com pausas restauradoras. Uma alternativa foi buscar áreas verdes ou parques silenciosos, como o Lago Negro, em Gramado, famoso por seus pedalinhos, onde a paisagem tranquila permite desacelerar, respirar e reorganizar os sentidos.

  • 3) Escolher horários e microexperiências:

Gramado é cheia de eventos, lojas e atrações, mas o segredo para o introvertido é selecionar poucas experiências e vivê-las com profundidade, em vez de tentar ver tudo. Viver em profundidade significa permitir-se estar realmente presente em cada momento, com o espírito de uma criança — com abertura, curiosidade e sensibilidade para perceber o que acontece ao redor —, em sintonia com os princípios das práticas de mindfulness. Intercalar horários de pico com momentos mais tranquilos também ajuda a equilibrar a experiência, evitando a sobrecarga de estímulos. Outra estratégia importante é reservar pausas de solitude e contemplação, seja no hotel, diante de alguma paisagem natural ou durante uma caminhada silenciosa, criando espaços para desacelerar, respirar e recarregar as energias.

Concluindo, viajar para um lugar movimentado como Gramado não precisa ser um problema para introvertidos. Quando o ritmo é desacelerado e as pausas são respeitadas, a experiência pode se tornar um exercício de atenção plena, curiosidade e autorregulação cerebral — exatamente o tipo de viagem que o cérebro introvertido costuma apreciar.

E se o verdadeiro luxo de uma viagem fosse simplesmente ter tempo para sentir cada lugar?