O envelhecimento, embora seja um ciclo natural da vida, é carregado de tabus e, ao mesmo tempo, de medos. Principalmente quando o assunto envolve as pessoas que mais amamos: os nossos pais. Aqueles que passaram boa parte da vida nos ensinando, nos educando e apresentando os princípios morais do que é certo e errado. Foram eles que nos ajudaram a construir os valores que levamos para a vida inteira.

Na infância, aprendemos sobre o ciclo biológico: nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos. Mas, na prática, ninguém nos ensina a lidar com o desafio emocional de ver nossos pais envelhecendo. Ter os meus pais ainda aqui é um privilégio. Mas a correria da vida adulta traz reflexões que antes eu não fazia: meus pais estão envelhecendo. Será que está chegando o momento de cuidar de quem dedicou a vida inteira a cuidar da gente? Ver os pais envelhecendo é perceber que o tempo está passando. É notar que eles já não são tão fortes quanto antes. E dói às vezes só de pensar.

A vivência pessoal

Sou filha de uma mulher de 63 anos: mulher preta, pobre e professora. Uma mulher que enfrenta diversos problemas de saúde e que sempre foi extremamente dedicada à maternidade. Criou quatro filhos, hoje somos três, porque meu irmão faleceu vítima da covid-19, e agora ela também cuida dos netos.

Sempre foi ativa, resiliente, zero vitimismo mesmo diante de inúmeras adversidades. Muito espiritualista, acreditando sempre em dias melhores. Ela zela pela casa, pelas plantas e pela paz do ambiente. No caso do meu pai, aos 57 anos, embora ele seja mais jovem, esse meu “medo” também já começou a se manifestar. Aquele homem que me ensinou a andar de bicicleta e anda de bicicleta a cidade inteira até hoje já não é tão disposto assim.

É notando a indisposição e as marcas do tempo estão se tornando mais visíveis, que o questionamento vem: Como lidar com esse sentimento? Quais medos surgem nesse caminho? Quem cuida de quem cuida?

O medo de perder os pais: um dos maiores desafios da vida adulta

O medo de perder quem amamos é inevitável. E ele pode se intensificar quando ainda não temos filhos como é o meu caso.

Não é por acaso que muitas pessoas na casa dos 30 anos começam a desejar um parceiro “para a vida toda”. Talvez exista ali, ainda que inconscientemente, uma tentativa de reconstruir esse colo que um dia deixará de existir. O envelhecimento dos pais nos obriga a encarar a finitude deles e a nossa. É quando entendemos que a vida não é mais infinita como parecia na infância.

A pressão pelo futuro e o desejo de retribuir

O tempo passa e cresce a necessidade de oferecer conforto enquanto nossos pais ainda estão aqui. Retribuir tudo o que fizeram por nós se transforma quase em missão. Queremos proporcionar qualidade de vida, segurança e tranquilidade. Queremos devolver em cuidado aquilo que recebemos em amor.

Mas isso também pode virar uma pressão enorme. Vivemos numa sociedade que cobra que, antes dos 30, a vida esteja “pronta”: carro na garagem, casa própria, estabilidade financeira. Quando, na prática, cada pessoa tem seu próprio tempo. Existe uma dualidade silenciosa: querer retribuir com excelência e, ao mesmo tempo, se frustrar quando a realidade não acompanha a expectativa.

O medo de abdicar do próprio tempo

Pensar na possibilidade de cuidar de quem cuidou da gente é algo genuíno. Mas também desperta ansiedade. Dúvidas sobre nossa capacidade. Medo de não conseguir conciliar carreira, sonhos e vida pessoal com as demandas que podem surgir. Como encontrar equilíbrio nesse caminho? Como não se anular e, ao mesmo tempo, não se ausentar? Essa talvez seja uma das perguntas mais complexas da vida adulta.

Ver nossos pais envelhecimento também é um processo de luto

Recentemente, li a seguinte frase em uma comunidade online: “Ver nossos pais envelhecendo também é um processo de luto.” Ela me atravessou, porque, embora seja uma dádiva acompanhar esse processo, existe um luto antecipado acontecendo, um medo silencioso da perda, uma despedida que começa antes da partida.

Talvez o equilíbrio esteja numa frase simples, até clichê, mas profundamente verdadeira: aproveitar enquanto temos tempo, dar risadas, criar memórias, diminuir brigas desnecessárias, estar presente de verdade. No fim, o que permanece são os momentos, e talvez confiar que existe um fluxo maior seja o universo, seja a fé, seja o tempo também faça parte do aprendizado de ser adulto. Crescer não é apenas conquistar independência; é aprender a amar sabendo que tudo é finito e, ainda assim, escolher ficar.

Cuidar de si para cuidar de quem amamos

Na prática, existem questões simples que aprendi e uma das maiores lições ao refletir sobre esse tema sensível da vida é que não podemos oferecer cuidado e presença de qualidade se não cuidamos de nós mesmos. O equilíbrio, a saúde mental e a importância do cuidado com o próprio corpo são elementos fundamentais para conseguir apoiar quem sempre esteve ao nosso lado. Reservar o tempo para si mesmo, praticar atividades físicas, estabelecer limites saudáveis e manter hábitos que nos energizam não é egoísmo, é um investimento no relacionamento com quem amamos. Quando estamos bem, os nossos pais ficam bem também e essa é a maior prova de ‘amor’ que podemos retribuir a quem torceu a vida inteira pela gente.