Ler nas telas é o novo cenário do universo contemporâneo e evidencia peculiaridades. Ao mesmo tempo em que a leitura na tela possibilita novos hiperlinks ao agregar conhecimentos, pode também provocar dispersão de ideias. Há quem diga que a leitura deve ser demorada para ser assimilada, não podendo ser realizada com pressa e superficialidade, em um cenário como o que o mundo digital oferece; afirma-se, também, que a leitura digital propiciou a democratização dos conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade. Este texto, talvez, jamais seria lido por você, caso não fosse veiculado pelo meio digital. Posso inferir, então, que, embora existam objeções em relação à leitura digital, instala-se um consenso a respeito da importância do universo digital na formação de novos leitores.

Como reflexão, seja no âmbito dos livros escritos, seja no universo dos livros digitais, para a formação do hábito, é imprescindível a existência de mediadores capazes de promover o ensino-aprendizagem. A leitura pode ocorrer em decorrência de um hábito familiar, em que os pais frequentam livrarias com seus filhos pequenos, incentivam as crianças a observar estantes de livros infantis, adquirem livros e leem para os filhos habitualmente, assim como os filhos se habituam a ver os pais mergulhados em leitura, uma prática conquistada pelo hábito familiar.

Como nos ensina o educador Paulo Freire, a leitura de mundo precede a leitura da palavra e, nesse sentido, ler é vislumbrar o universo a partir de outras perspectivas e perceber a importância da diversidade que a todos circunda. Ler é viajar por novos horizontes e perceber que não temos ideias iguais e que sempre há novas perspectivas; ler é sondar o mundo. Lev Vygotsky destaca um conceito que muito auxilia na percepção do papel do mediador no aprender a ler e fazer uma genuína experiência do entender para além das palavras, lendo o mundo.

O autor em referência nos fala sobre o conceito da zona de desenvolvimento proximal, que é a distância entre aquilo que a pessoa já sabe e os conhecimentos que ela pode adquirir. No caso da leitura, trata-se do potencial que alguém já possui para aprender a ler. Um mediador cuidadoso sabe como iniciar alguém na prática da leitura e no desejo de querer aprender mais, lendo e aprofundando conhecimentos.

Moreira et al. (2023, p. 5) destacam a alfabetização e o letramento em um contexto humanizador:

[...] o letramento é o uso das tecnologias da alfabetização; cada uma delas possui várias dimensões que precisam ser ensinadas e aprendidas pelos educandos, para irem além do ler e escrever ao aplicarem na vida social suas habilidades textuais. São processos interdependentes e indissociáveis; caminham juntos, só que com naturezas diversas, com especificidades em termos de procedimentos de ensino e metodologias. A escola tem o papel de garantir acesso a um conhecimento mais elaborado, sistematizado e em contato com o conhecimento científico; tem que proporcionar encontros, descobertas e humanização, criando uma responsabilidade para que se lide com as diferenças, se respeite o outro para trabalhar em grupos e refletir sobre os acontecimentos do dia. “[...] os processos de ensinar e de aprender a leitura e a escrita na fase inicial de escolarização de crianças se apresentam como um momento de passagem para um mundo novo” (Mortatti, 2019, p. 29). (Moreira et al., 2023, p. 5).

O letramento envolve o desenvolvimento de habilidades para o exercício da atividade de leitor, que vai além da decodificação de signos, partindo para uma perspectiva de busca pela leitura de mundo, recorrendo aos meios digitais, que vão muito além da verticalidade do mundo dos livros impressos. O letramento digital envolve pensar no desenvolvimento do senso crítico diante de um universo de fake news, para aprender a discernir o falso do verdadeiro.

Desenvolver o letramento envolve também a capacidade de abertura para o diferente, buscando debater ideias com tranquilidade, reconhecendo a pluralidade de pensamentos como uma riqueza cultural, aprendendo a cultivar valores e respeito ao posicionamento alheio, tendo em vista que cada ser tem o direito de cultivar sua maneira de pensar e que, assim como eu quero ter meus direitos respeitados, o outro dispõe dos mesmos direitos. Vale a lembrança de um dito antigo: “O meu direito à liberdade termina onde começa o direito do outro”; assim, todos devem respeitar o princípio fundamental da convivência ética, que estabelece que as pessoas saibam se respeitar mutuamente e, dessa forma, tenham o privilégio de viver pacificamente na sociedade.

Em perspectiva de amplitude, a escola, como uma das instâncias de formação de leitores críticos, necessita de um esforço interdisciplinar dos diversos saberes em busca das mais diversas formas de promover a humanização no desenvolvimento dos potenciais emancipatórios das futuras gerações. Para Gabriel e Brambilla (2025), ao discorrerem sobre a importância da leitura de textos filosóficos como potencializadores da prática de aprendizagem filosófica, o aluno deve se tornar apto a ler o mundo com um olhar crítico, a fim de aprender a exercer seu papel de cidadão. Segundo os autores:

Para o exercício do filosofar em sala de aula, é indispensável utilizar textos dos próprios filósofos. A partir de fragmentos selecionados, os alunos exercitam a exegese (interpretação e análise detalhada de um texto) e a compreensão, sendo, posteriormente, guiados a refletir sobre problemas atuais da sociedade à luz desses textos. Vale destacar que, em uma visão de experiência filosófica, não existe uma resposta única e definitiva a ser dada pelos alunos para determinada problemática. Ao contrário, diversas respostas são possíveis e, com seu caráter emancipador, podem contribuir significativamente para uma prática humanizadora e para a vivência da criticidade (Gabriel; Brambilla, 2025, p. 6).

A leitura perpassa não só as disciplinas de Filosofia e de Língua Portuguesa; todas as disciplinas podem e devem contribuir para o aprimoramento da capacidade leitora do estudante. É de grande importância também conscientizar os pais sobre a importância de incentivar a prática da leitura pelos filhos. A leitura é a possibilidade de aquisição de conhecimentos, novos olhares e novas oportunidades de enxergar o mundo para além da caverna que nos condena à mesmice da ignorância, que muitas vezes hesitamos abandonar.

Enfim, em um universo de ciberespaço, novas possibilidades de divulgação dos textos literários se descortinam, e tal panorama amplia também as possibilidades de formação do leitor. No caso brasileiro, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que se valorize a experiência literária com maior ênfase do que a memorização das escolas literárias. O professor, como mediador da leitura, é convidado a ler em sala de aula, introduzir e mediar o processo de aprendizagem do ato de ler para as gerações com as quais convive e trabalha.

A escola é um dos espaços mais consagrados para o encontro das novas gerações com os mediadores da leitura; são eles, os professores, que, convidados a pensar em estratégias para estabelecer uma ponte entre os livros e os alunos com os quais trabalham, dedicam-se a essa tarefa. Da mesma forma, toda a sociedade é convidada a motivar as novas gerações a lerem e, assim, prosseguirem contribuindo para que se tornem bons leitores e vislumbrem novos horizontes, enxergando o mundo com olhos mais abertos para dialogar com a pluralidade e com as diferenças.

Referências

Gabriel, F. A.; Brambilla, J. C. "Filosofar no Ensino Médio como experiência de humanização e olhar crítico para a sociedade". REFilo – Revista Digital de Ensino de Filosofia, Santa Maria, v. 11, n. 1, p. 1-14, 2025.
Moreira, E.; Siqueira, P. R. B.; Cesario, V. da S.; Gabriel, F. A. "A alfabetização humanizadora nos processos de ensino e de aprendizagem". "Revista Estudos Aplicados em Educação", São Caetano do Sul, v. 8, p. 1-13, jan./dez. 2023.