Ernestine Étoylland, née Bérygnac, viúva do inventor terrano mais famoso do século XVIII, Alphonse Étoylland, enfim decidira dedicar-se a uma de suas paixões: a hotelaria. Após a morte do marido, dez anos antes, resolvera transformar a imensa propriedade da família em um charmoso hotel às margens do Rio Raddhyz.
Naquele tempo, a estrada que beirava o rio ainda era de terra batida, embora já tivesse uma largura bastante considerável. Ainda seria necessário esperar alguns anos até que um belo calçamento fosse feito pela administração do condado; atualmente, vê-se uma estrada com três faixas de cada lado.
Havia também a estrada de ferro que ligava a Capital ao interior, com as locomotivas mais modernas do momento levando vagões de passageiros ou de carga, dependendo do horário.
A propriedade era exatamente entre as duas estradas e a viúva quis se valer disso quando pensou em abrir sua hospedaria. Um local tão privilegiado, e relativamente perto da Gare Alceste, a estação de trem de Roumbonnard, com certeza atrairia pessoas que quisessem um lugar para pernoitar ou que dele precisassem.
Conhecida na região como a fiel esposa de um notável cientista, queria se descolar cada vez mais da notoriedade do falecido marido e ganhar uma fama toda sua, transformando sua casa em bem mais que um simples lugar para viajantes. Pensava em quartos temáticos, decorações elegantes e mesmo adaptações de acordo com os hóspedes – algo inédito em pleno começo do século XIX.
Como não lhe faltava bom gosto e o ilustre inventor lhe deixara uma fortuna vultuosa, logo o palacete foi transformado, de maneira caprichosa, num aconchegante hotel, o “Hôtel de l’Étoile”, um modo bonito de fazer um trocadilho com o sobrenome do marido.
Ela estava com setenta anos quase completos. Um sonho de adolescente seria então realizado através daquela transformação – até certo ponto, radical – de onde o casal (e os dois filhos, que já haviam criado suas próprias famílias) vivera por mais de cinco décadas. O mordomo, Jérôme, não aprovava inteiramente tantas mudanças, mas a jovem governanta, Rose-Marie, estava animada com as propostas que a patroa tinha.
Foi chamado o famoso arquiteto Léonel de Trouzond, filho mais novo do Marquês de Poudansy, para avaliar o imóvel e fazer um projeto que atendesse aos desejos da viúva. O rapaz tinha muitas sugestões, algumas até ousadas para a época, e Mme. Étoylland ouvia a tudo com atenção. Fazia mentalmente as contas, calculando o gasto aproximado (não só em dinheiro, mas em tempo e esforço) para a realização de cada mudança. Sempre com classe, recusava algo que lhe parecesse muito dispendioso, a menos que fosse uma alteração estrutural imprescindível. E, é claro, queria que suas próprias ideias fossem aproveitadas, se fosse o caso.
Após longas reuniões por semanas a fio, a viúva finalmente escolheu o projeto que mais lhe agradava e deu seu aval para o início da obra. O mordomo continuava irredutível, mas nada tinha a fazer, uma vez que os filhos do inventor também aprovaram a reforma.
Como a família mantinha uma casa mais modesta que o palacete em pleno Centro de Roumbonnard, Mme. Étoylland e seus fiéis empregados mudaram-se para ela, levando a melhor carruagem, guarnições e muitas mudas de roupa. O resto das coisas havia sido armazenado no grande porão até que a reforma acabasse.
A mudança da viúva e seu séquito foi um verdadeiro acontecimento em Roumbonnard: sua elegância contrastava muito com a lembrança que as pessoas tinham da excentricidade do falecido cientista. Havia até alguns grupos de cidadãos que se reuniram para ver o que estava acontecendo, sempre comentando com sincera surpresa o que presenciavam naquele momento.
Sabendo das propostas de Mme. Étoylland para seu palacete e vendo nisso uma ótima oportunidade para a cidade, o maire fez questão de recepcionar o cortejo diante da casa dos Étoylland no centro. Depois de Sua Alteza o Conde, aquela altiva mulher era a pessoa mais importante da cidade.
Embora não quisesse se misturar com a política local, a viúva acabou cedendo à bajulação do maire – um homenzinho franzino que ainda se vestia à moda de meados do século XVIII – e contou um pouco de seus planos, mas reservou mais detalhes para a inauguração, prevista para alguns meses depois. A reunião improvisada se deu no salão principal da casa, enquanto nos outros cômodos os empregados preparavam tudo para que o lugar se tornasse habitável. Apenas Rose-Marie acompanhava a patroa, a seu pedido.
Quando o maire enfim partiu, Mme. Étoylland sentiu-se aliviada. Passaria a dar algumas ordens sobre a arrumação e, no fim daquela tarde, receberia a família de alguns amigos que anos antes haviam montado um hotel na Capital. Certamente haveria uma ótima troca de ideias sobre o novo empreendimento.
O tempo passou rápido e, apesar de alguns apuros e dissabores, a reforma enfim se concluiu. O Hôtel de l’Étoile foi inaugurado, seguindo o pedido da viúva, no dia do aniversário do falecido inventor, como uma homenagem a ele, que propiciou tão ambicioso projeto. Ela continuaria por mais alguns anos à frente do estabelecimento, até sua morte, e seria sucedida por um dos netos.
Desde o início, o hotel se tornou referência na região e continua sendo propriedade dos Étoylland ainda hoje. Frequentemente modernizado, de forma a atender seus hóspedes com o maior conforto que cada época pode oferecer, apenas seu átrio principal permanece intocado, como que para manter viva sua origem. No imenso salão de entrada, todo à moda do início do século XIX, estão dois quadros lado a lado, como que observando o movimento sempre constante: retratam Ernestine e Alphonse Étoylland, imortalizados pela arte como os eternos protetores do hotel.















