Não é novidade que a pandemia nos recolheu para dentro. De algum modo, isso ficou agarrado no nosso pensamento, grudado nas nossas atitudes e reverbera de todas as formas no nosso ato cotidiano de viver. Seja porque encontramos paz, sossego e calmaria em nossas casas, ou ainda, por motivos variados, como o distanciamento e a segregação social, como pode nos brindar o sociólogo Pierre Bourdieu.
O ramo imobiliário cresceu; as casas voltaram a ser destaque, com muitas identidades, configurações e informações. Falar em arquitetura brutalista voltou a fazer sentido na agenda dos arquitetos, bem como identificar móveis por suas assinaturas, pelo menos aqui no Brasil. Nem por isso o minimalismo deixou seu lugar de fala, mas as paredes foram sendo tingidas aos poucos, para que dialogassem com a vida.
Sim, a arquitetura, de forma consciente, na maioria das vezes, tem deixado de privilegiar verdadeiramente a interação das casas com o meio ambiente e conforto real, em nome de uma estética do poder.
Este ano a cor escolhida pela Pantone (autoridade mundial em cores e criadora do Pantone Matching System (PMS), um sistema padronizado utilizado para garantir a reprodução exata e consistente de cores em impressões, design gráfico, moda e indústria) foi o branco e até aí, foi um desgaste. Seja porque é branco ou porque de fato precisamos sempre criticar algo nos dias de hoje, o branco pareceu frio, sem vida e sem cor. Essa é a verdade. As pessoas esperavam mais, mais qualquer outra cor que pudessem, nesse caso particular ao qual nos referimos, brincar de casinha.
Logo acharam uma solução complementar meio azulada, turquesa ou algo parecido, como se o branco pudesse ir mudando em camadas, para acalmar nossas aflições ou deixar mais dúvidas sobre a cor escolhida.
Aflições essas que nos tiraram em grande parte das ruas, da vida urbana e lugares coletivos, e nos isolaram em nossos castelos reais ou não. Nos guardamos do perigo, inseguros a tal ponto que reforçamos a necessidade dos grandes ou pequenos condomínios. Seguranças em suas motocicletas em rondas, muitos cadastramentos nas portarias pouco amigáveis, câmeras que conversam com tudo que é digital. Você pode estar em viagem, mas saberá tudo o que acontece na sua casa. E mesmo nas comunidades mais carentes achou-se um jeito de se estar seguro, cada um ao seu modo.
Viver de maneira naturalista em lugares distantes bem próximo à natureza, também voltou a ser proclamado como bem-estar e qualidade de vida, como num resgate de vidas passadas, porém bem longe do que anteriormente se intitulava vida alternativa dos hippies, mas desde que fortalecida e sustentada de maneira que nenhuma invasão indesejada ocupe a cabeça dos moradores.
De fato, os tempos são inseguros e vivemos à beira de um ataque de nervos, por total fragilização e à mercê da brutalidade humana. Invadir o espaço do outro, ferir, apossar-se daquilo que o outro tem, e pôr fim à vida humana, banalizou. E isso é tão real quanto a ilusão dos nossos castelos.
Quando entramos nas casas porta adentro, em geral, temos outros sinais que nos indicam o quão viva é essa casa ou o quão viva ela parece estar.
Minha percepção aponta para casas bem divergentes, que se destacam por vieses bem incomuns.
Aquelas que impecavelmente se mantêm arrumadas, organizadas, cheirosas e floridas, como se lá não houvesse habitantes, onde tudo foi planejado e comprado de acordo com o tamanho do bolso do proprietário, para satisfazer o olhar daqueles que poderão talvez ser convidados a entrar, incentivando inclusive uma inveja que exalta o poder do dono, uma ostentação disfarçada de bom gosto que envaidece o morador.
E claro que isso nada tem a ver com o segundo tipo de casa permeada de elegância, que convida qualquer visitante a saber mais e encantar-se com o vasto repertório de conhecimento que acompanha tudo em volta. Desde a fundação de sua construção e estilo escolhido das obras de arte, objetos, móveis, fotografias e esculturas. Tudo gera curiosidade e indagação, até mesmo o que pode dizer aquela cena do quadro imenso, da Santa Ceia, no hall de entrada.
Uma casa tão linda e imponente que não se sabe ao certo onde devemos nos colocar e como devemos agir, pois um gesto mais distraído poderá quebrar uma peça secular, nem tanto são casas lindas de ver e de certo de se viver, onde aprendemos muito com sua complexidade.
Há um terceiro tipo de casa, mais “inocente”, que se permite fazer uma mistura de cores e tipos de elementos onde se conjuga arte, lembranças da casa dos pais, avós e bisavós, com natureza viva. Uma casa que normalmente ainda tem cheiro de bolo e é charmosa. Aquela onde em momento algum deixa de ornar pelo seu conjunto de elementos, mas que também não se interessa pela estética por si só, mas sim pelos sentimentos e sensações que ela desperta. Uma casa com temperatura ambiente, agradável, que convida a tirar os sapatos, sentir o chão, conhecer como foi idealizado cada canto. Interrogar vastamente porque aquela obra daquele autor teve mais interesse que qualquer outra. Que convida a despir o cansaço externo acolhendo conversas mais sagradas e verdadeiras.
Esse texto é sobre casas sim, mas sobretudo sobre o humano que nela habita. Que tipo de gente pode ser tão diferente e ao mesmo tempo tão frágil, ou ainda querer identificar-se com estilos de casas tão especiais.
O que sabemos de fato sobre eles e suas histórias, posicionamentos políticos, intimidades, medos, fragilidades ou onde escondem suas vergonhas e segredos mais íntimos. Quando riem ou choram, o quanto se demoram nos detalhes de suas casas com preciosismos ou se nem olham direito para elas. Como se amontoam seus empregados, que cheiro tem a cozinha ou se há algum lustre especial, onde ficam os remédios diários, as contas pagas ou ainda por vencer, os sapatos sujos da rua e as toalhas molhadas pelo corpo pós-banho.
Como tratam seus desafios diários e administram suas crises internas e externas. Será que suas casas saberiam nos contar um pouco dos seus traços mais íntimos? De certo sim. São esses mesmos humanos com os quais nos encontramos, esbarramos, brigamos, nos relacionamos, traçamos planos profissionais e muitas vezes pessoais, aqueles com os quais nos divertimos dia após dia, em diferentes contextos e missões.
Há de se ter um olhar mais aprofundado sobre as sutilezas que compõem cada um dos humanos com os quais lidamos, pois somos encharcados de referências tão particulares, que sequer damos conta do quanto impactamos os outros humanos.
Afinal, qual é a cor da porta de sua casa, mesmo?
Nos vemos já! Já!















