Durante muito tempo, aprendemos a pensar o corpo como instrumento de produção, disciplina ou resistência silenciosa. No cotidiano urbano, especialmente para pessoas negras, o corpo é atravessado por vigilâncias, exigências de desempenho e uma lógica constante de alerta. Pouco se fala, no entanto, sobre o corpo como território de escuta, descanso e reconstrução. É nesse deslocamento de perspectiva que a movência do corpo se revela uma prática fundamental de autocuidado, autoconhecimento e saúde mental.

Movência não é apenas movimento. É presença. É a capacidade de estar no corpo com atenção, permitindo que ele se expresse para além da linguagem racional. Em contextos marcados por sobrecarga emocional, racismo estrutural e precarização das relações, o corpo acumula tensões que nem sempre encontram espaço para elaboração. A ausência desse espaço cobra um preço: adoecimento, exaustão e desconexão de si.

As práticas corporais coletivas, quando orientadas pela escuta e pelo cuidado, rompem com a lógica individualizante do autocuidado como consumo. Elas nos convidam a lembrar que o cuidado também é relacional, ancestral e político. É nesse horizonte que nasce o Aquilombar na Lagoa, um projeto idealizado por Geisi Nara dos Santos, mulher negra, bailarina e pesquisadora, a partir do desejo de criar um espaço onde corpos negros pudessem existir sem urgência, sem performance e sem explicação.

A proposta do Aquilombar na Lagoa parte de um princípio simples e profundo: o corpo precisa de território para respirar. Em meio à natureza, à beira da água, o encontro acontece como prática de desaceleração e reconexão. O ambiente não é cenário, mas parte do processo. A água, o chão, o vento e o ritmo coletivo atuam como mediadores de uma experiência que favorece a regulação emocional e a ampliação da consciência corporal.

Desde 2022, o Coletivo Aquilombar na Lagoa vem ampliando sua atuação cultural, educativa e política em Maricá e em diversos territórios do Rio de Janeiro, fortalecendo a presença das mulheres pretas 40+ por meio da arte, da ancestralidade e da coletividade.

Ao se mover em coletivo, o corpo encontra autorização. Autorização para sentir, para pausar, para respeitar seus limites. Para muitas pessoas negras, essa autorização nunca foi concedida socialmente. Desde cedo, aprendemos a sustentar, suportar e seguir. A movência, nesse contexto, não é apenas terapêutica; é reparadora. Ela devolve ao corpo a possibilidade de escolha e a liberdade.

A relação entre corpo e saúde mental é amplamente reconhecida, mas ainda pouco vivenciada de forma integrada. Estados de ansiedade, estresse crônico e esgotamento não se manifestam apenas no pensamento; eles se inscrevem no corpo. Respiração curta, rigidez muscular, fadiga constante e dificuldade de descanso são sinais de um corpo que tenta sobreviver a um ambiente hostil. Práticas corporais conscientes ajudam a interromper esse ciclo ao criar novas experiências de segurança e presença.

No Aquilombar na Lagoa, o cuidado não está em “corrigir” o corpo, mas em ouvi-lo. Cada encontro propõe uma escuta atenta dos próprios ritmos, respeitando histórias individuais e coletivas. Não há um corpo ideal, um movimento certo ou uma meta a ser alcançada. Há, sim, a construção de um espaço seguro onde o corpo pode ser exatamente como é naquele momento.

Essa experiência também é um convite ao autoconhecimento. Ao mover-se com atenção, percebemos padrões: onde tensionamos, onde evitamos, onde insistimos. O corpo revela narrativas que muitas vezes não acessamos pela razão. Esse reconhecimento amplia a capacidade de fazer escolhas mais conscientes no cotidiano, inclusive no trabalho, nas relações e na forma como lidamos com nossos próprios limites.

É importante destacar que o autocuidado, aqui, não se reduz a uma prática individual desconectada do mundo. Ele se articula com a construção de comunidade. Aquilombar é lembrar que sobreviver nunca foi um ato solitário. Historicamente, os quilombos foram espaços de reorganização da vida, do cuidado coletivo e da preservação da humanidade em contextos de violência extrema. Atualizar esse conceito para o presente é reconhecer que a saúde mental de pessoas negras também depende de espaços de pertencimento e apoio mútuo.

A movência do corpo, quando praticada em coletivo, fortalece vínculos e produz reconhecimento. Olhar e ser olhada, mover-se junto, respeitar o tempo do outro: tudo isso contribui para a criação de ambientes emocionalmente mais seguros. Em um mundo que nos exige produtividade constante, parar para mover-se com consciência é um gesto de resistência e afirmação da vida.

Falar sobre saúde mental sem falar de corpo é manter uma cisão que já não nos serve. Projetos como o Aquilombar na Lagoa apontam para a necessidade de integrar saberes, práticas e experiências que reconheçam o corpo como fonte legítima de conhecimento e cuidado. Cuidar da mente passa, necessariamente, por cuidar do corpo e cuidar do corpo, muitas vezes, começa por permitir que ele se mova, respire e exista em comunidade.

No fim, a movência é um retorno. Um retorno ao corpo como casa, ao coletivo como suporte e ao cuidado como prática cotidiana de permanência no mundo. E talvez seja isso que mais precisamos reaprender: que viver com mais saúde mental não é sobre fazer mais, mas sobre sentir melhor, no coletivo.

Aquilombar na Lagoa é um coletivo, idealizado por Geisi Nara dos Santos, constituindo Danúbia Silva e Luciene Pereira como coidealizadoras.

Nota

Você pode conhecer mais sobre o coletivo na página do Instagram do Coletivo Aquilombar na Lagoa.